01 setembro, 2011

AS QUATRO ESTAÇÕES

                                                                         Bussaco

Gosto muito da estabilidade e da previsibilidade. Se eu pudesse, seria feito de leis como as da natureza e de estar sujeito ao ciclo das estações. 
Saberia que vou arrefecer porque vem o Outono. Depois, que iria nevar porque é Inverno. Meses depois, aquecer suavemente, florir e verdejar para finalmente terminar o ciclo com um Sol escaldante que pediria um bom banho de mar ou a frescura de uma bela sombra.
Por comodidade, quando me perguntam qual a minha estação preferida, costumo responder que é o Outono. De facto, gosto muito do Outono e será no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia de chuva. Mas também não é no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia sem ser de chuva. Por isso não posso verdadeiramente dizer que o Outono seja a minha estação preferida apesar de ser a minha estação preferida. Do que gosto mesmo é das passagens de umas estações para as outras. Mais do que das estações gosto dos seus intervalos. Os intervalos não são estações. São a transmigração das estações num corpo circular que vai nascendo e morrendo com a mesma tranquilidade com que chove e faz sol.
Dizer que se gosta especificamente de uma estação é como gostar da linha horizontal de um electrocardiograma de alguém que acaba de morrer. Gostar dos intervalos das estações é gostar da renovação das estações que se repetem infinitamente para nós também nos podermos repetir infinitamente. 

8 comentários:

addiragram disse...

Gostei imenso da fotografia e do texto, talvez porque também não me consiga situar estaticamente num só lugar.

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, addiragram. Seja bem-vinda ao clube. :)

josé manuel chorão disse...

Do que tu gostas mesmo é de estar vivo e observar o movimento da natureza.
Eu, que gosto de facto do Outono, não acho que seja o mesmo que gostar da linha horizontal de um electro-cardiograma.
O Outono é a calma, a introversão, a leitura acompanhada do som da chuva a cair, o cheiro a lareira, os jogos de xadrez com o meu filho mais novo.
O Outono renova a minha esperança no Universo, após os excessos do Verão.

José Ricardo Costa disse...

A vida é feita de multiplicidade. Gostas mais do Outono porque nem sempre é Outono.

marteodora disse...

Daquilo que gosto mesmo é dessa fotografia maravilhosa!!!

José Ricardo Costa disse...

Ó Margarida, obrigadinho, mas fotografias maravilhosas é mais para os teus lados... ;)

Rita Tormenta disse...

No final do post fica a apetecer um Earl Grey para acompanhar a leitura de Keats" To Autumn" !
Os ciclos são uma espécie de poupanças para os abismos, só quem vive e reconhece os ciclos, e a sua importância, poderá enfrentar os abismos e as instabilidades !
Bom Retorno !

José Ricardo Costa disse...

Para si também, Rita. E bom chá e boa leitura.