14 agosto, 2011

VIAGEM EM ITÁLIA | ROBERTO ROSSELLINI


Apesar de Rohmer dizer “Dans ce film où tout semble accessoire, tout, même les plus folles divagations de notre esprit, fait partie de l’essentiel", eu tomo a liberdade de escolher três momentos da "Viagem em Itália".
O primeiro é quando Katherine (Ingrid Bergman) e Alexander (George Sanders) se sentam no terraço da villa italiana para repousar e apanhar um agradável Sol mediterrânico. Um casal normal, conversando normalmente, que se desloca a Itália para tratar de um negócio de família. Mas pressente-se um perigoso remoinho que cresce sob as águas serenas da superfície. Lá ao fundo, nas suas costas, espreita o Vesúvio. Sublime.

                             

O segundo momento é quando Katherine, no museu de Nápoles, na companhia de um guia, vai contemplando estátuas que representam figuras da mitologia mas também de imperadores romanos: Nero, Caracala, César, Tibério. Mais tarde, já em casa, conversando com o marido, fala da sua experiência por entre as estátuas: "E pensar que esses homens viveram há milhares de anos e são iguais aos de hoje. Se se pusessem a falar, entendiamo-los sem esforço algum". Claro que iria entendê-los sem esforço algum. Enquanto andava pelo museu ela própria percebeu que também era uma estátua. Sublime.

                             

Espantoso é como estes dois momentos irão ser depois aglutinados num só. É quando durante umas escavações em Pompeia são desenterrados um homem e uma mulher. Surgem lado a lado, calcinados, tal como estavam no exacto momento da morte. Katherine, que assistia à escavação, começa a chorar e foge desesperada. Porquê?
Para mim só há uma resposta: porque o mesmo Vesúvio que dias antes espreitava nas suas costas, mostrava agora ali a sua telúrica ira, transformando as pessoas em estátuas. Que pessoas? As pessoas que Katherine dizia ao marido conseguir entender sem esforço algum, quando regressa do museu. 
Também ela, hibridamente, era ainda uma mulher de carne e osso mas, ao mesmo tempo, já estátua entre estátuas.O casal que ela viu desenterrar em Pompeia era o mesmo casal, dias antes, suavemente afagado pelo Sol no terraço da villa. Verdadeiramente sublime.

7 comentários:

josé manuel chorão disse...

Todos nós tentamos esquecer uma realidade que é demasiado assustadora: atrás de nós, durante a vida inteira, há sempre um Vesúvio que pode entrar em erupção, a qualquer momento, sem nos pedir licença...

José Ricardo Costa disse...

Percebo mas não concordo com essa visão tão pessimista. Não tem haver sempre um Vesúvio a poder entrar em erupção, nem temos que passar a vida a esquecer realidades assustadoras. Muitas vezes, felizmente, não passam de umas furnazinhas.

Anónimo disse...

Analise interessantíssima! Sempre admirei as pessoas que conseguem viver aos pés de um vulcão. Deve ser por isso que quando se vai a Nápoles temos a sensação de que há ali uma maneira muito especial de viver: uma despreocupação que nos leva do choque à aceitação e por fim à satisfação. Acredito que tem muito a ver com o facto de os napolitanos terem, mesmo ao lado, o Vesúvio que lhes pode transformar, de um momento para o outro, o tudo em nada.Não é para qualquer um!
J. Lemos

José Ricardo Costa disse...

Sim, desde que não seja "Debaixo do Vulcão". :)

jrd disse...

Essencial mesmo é imaginar que, quando a lava incandescente dos vulcões arrefece, nada mais resta do que "jardins de pedras", onde as estátuas permanecem estáticas julgando que se movem.

José Ricardo Costa disse...

Sem dúvida que os jardins de pedras têm o seu encanto. Mas apenas para quem passeia neles. As górgonas já o sabiam.

jrd disse...

Principalmente a medusa, que medeia entre nós e o passado.