02 agosto, 2011

PERPLEXIDADE

                                                        Diamond Hugh Welch| Portrait de folle

Depois de almoço fui a Lisboa. A dada altura dei por mim a tentar perceber por que razão costumo terminar os meus mails com "JR". Uma formalidade absolutamente dispensável. Primeiro, porque num mail, não sendo escrito à mão, o JR perde o valor de uma assinatura. Segundo, porque o mail está intrinsecamente identificado e não precisa do nome no final para identificar quem o escreve. Porquê então? Eu penso que será uma espécie de nostalgia romântica pela velha carta. Um mail não é uma carta mas o meu "JR" no final sugere uma clássica despedida epistolar. Um pequeno pormenor mas que sinto poder ter algum impacto estético na crua frivolidade de uma letra impessoal.
Ora, ia eu a pensar nisto quando passa por mim um carro cuja matrícula tinha "JR". Podia não ter olhado para o carro. Podia ter olhado para o carro mas não ter olhado para a matrícula. Mas olho para o carro e olho para a matrícula e vejo um "JR" no preciso momento em que ia a pensar no meu "JR".
Eu tive um tio esquizofrénico. Um dos seus sintomas mais fortes era a mania da perseguição. Em Lisboa, quando andava na faculdade, cheguei também a viver com uma tia que tinha começado a padecer de problemas psiquiátricos de uma certa gravidade. A mania da perseguição era também fortíssima nela. Acontecia, por exemplo, ela estar a ler o jornal e transformar uma notícia qualquer sobre a China ou os Estados Unidos numa referência a seu respeito.
Quando isto hoje me aconteceu não pude deixar de sentir um tremendo desconforto. Como é possível acontecer uma coisa destas? Havia milhões de outras coisas para pensar e estava a pensar naquilo. Havia milhares de carros a circular e logo havia de passar aquele. Até podia ter passado, sim, mas 5 minutos antes ou depois. E ter passado mas eu não o ter visto, ou tê-lo visto mas sem estar a pensar naquilo. Uma coincidência verdadeiramente brutal e inquietante.
De imediato pensei como teriam reagido os meus tios numa situação análoga. E comparei a reacção deles com a minha. Qual é a diferença fundamental? Eles teriam reagido com indignação e revolta a mais um momento de implacável e cruel perseguição. Claro que, nas suas cabeças, o dono do carro teria passado por eles para os provocar, para os achincalhar, para lhes fazer mal. A mim, como não sou doente, não me passou tal coisa pela cabeça, ficando-me apenas pela perplexidade.
Um louco indigna-se perante factos que interpreta como adversos. Uma pessoa normal não deve encontrar adversidades na vida, apenas perplexidades. E enquanto houver perplexidade haverá filosofia, capacidade para pensar e de procurar respostas mesmo que elas não estejam lá. Onde houver indignação e revolta haverá apenas indignação e revolta, indignação e revolta, indignação e revolta. A perplexidade sempre pode alimentar o espírito. A indignação e a revolta apenas servem para se alimentarem a si próprias.
Os estóicos não eram parvos de todo.

6 comentários:

José Manuel Vilhena disse...

Meu caro JR. Tente JMV nas pesquisas do Google e passará o tempo a tropeçar em produtos hospitalares…ou religiosos.
Não quero com isto sugerir que sejamos duas almas gémeas. Aliás a ideia inicial, que me persegue, é a irritação que me provoca apreciar tanto o que escreve e atolar-me sempre na preguiça de raramente o dizer. Pronto. Agora excedi-me. Fica já para as próximas.

Rita Tormenta disse...

É bom ler alguém com fronteiras entre a sanidade e a loucura bem definidas.
A perplexidade pode ser traduzida por espanto ?
Se assim for defendo-o com tudo o que tenho ( e mesmo com o que ja tive) educar para o espanto ( Paulo Freire) é fundamental, perante os colapsos a perplexidade pode gerar respostas divergentes, a indignação e a revolta podem tolher a acção construtiva, transformadora.
Também termino os mails com assinatura ( mas isso deve-se à relativa esquizofrenia onomástica de que sofro, tenho uma combinaçao diferente conforme o papel social em causa)

Conservador disse...

Ler Séneca e Marco Aurélio...melhor que muitos ansiolíticos.

Mas o tuguismo cultural abafa a filosofia..."faz dôr de cabeça", dirão.

Não. Sandálias, sapatos para se poder dizer ao outro uma ideia, rebayer argumentando, ...bem pensar.Chá. Terapêutica. Ler um Bergson, ...os acima assinalados...entre muitos, como Lévinas, Bunge...enfim.

Sob o Mar Azul de Ádria disse...

Caro JR, agora, já não me sinto tão só no mundo... AGR

josé manuel chorão disse...

Onde começa a loucura e se apaga o pensamento normal?
Não será a loucura uma forma de interpretar a realidade que escapa ao dito 'pensamento normal'?

pmramires disse...

Duvido da pertinência disto, mas 'JR' é talvez o melhor romance americano do século XX.