08 agosto, 2011

PALÁCIO DE KRISTOL



Fiz uma viagem de comboio para Évora, toda ela a ler um livro de Irving Kristol, pai do movimento neoconservador que influenciou políticos como Ronald Reagan. Se há anos me dissessem que teria de dedicar 10 minutos da minha vida a um livro de Kristol, reagiria como se fosse obrigado a jantar com Maria de Lurdes Rodrigues à luz da vela ou a comprar um carro em 2ª mão a Armando Vara.
Porém, a analogia com os socráticos politicos não é de todo correcta. Se eu comprasse um carro em 2ª mão a Armando Vara teria que assumir as naturais chatices de conduzir um carro com o motor gripado, o depósito da gasolina roto e sem travar. Se eu jantasse com Maria de Lurdes Rodrigues, o mais certo seria refugiar-me no álcool nos anos seguintes. Ora, o que aconteceu com o livro de Kristol foi uma experiência diferente. Ao contrário do que se poderia pensar, o livro não nos transforma magicamente num fervoroso evangélico de olhos fechados e braços abertos, nem nos leva a trocar o chá verde pelo Tea Party.
Como qualquer outro mortal que saiba escrever e tenha algumas ideias na cabeça, Kristol diz coisas com as quais concordo, outras com as quais não concordo, outras ainda com as quais nem concordo nem deixo de concordar. Vendo bem, num mundo de escritores imperfeitos e imperfeitos leitores é isto que deveria acontecer com toda a gente.
No caso de Kristol há ainda uma outra vantagem: é um homem profundamente divertido, que se farta de rir de si próprio como de rir daqueles que não sabem rir de si próprios, e que fala sobre coisas sérias como falariam Jerome K. Jerome, Evelyn Waugh, Oscar Wilde ou Woody Allen se falassem sobre as mesmas coisas. Apresenta ainda a inestimável vantagem de, apesar de ser um homem culto e inteligente, não sentir a necessidade de passar o tempo a mostrar que é um homem culto e inteligente,  o que, contrariamente ao que me aconteceria se tivesse de fazer uma viagem a ler um daqueles angustiados intelectuais parisienses que escrevem cada frase como se fossem as pessoas mais inteligentes do mundo e dizendo as coisas mais inteligentes do mundo, permitiu fazer uma viagem agradável sem dar pelo tempo passar. Aos 20 anos ainda podemos perder tempo a ler coisas que nos fazem perder tempo. Mas, aos 50 anos, dar por bem empregue o tempo que dedicamos a fazer seja o que for é um bem precioso.
Em suma, dá para entender que fazer aos 50 anos uma viagem para Évora não é a mesma coisa do que fazê-la com  20. Mas também há 30 anos era Évora uma cidade comunista e hoje é uma cidade cor de rosa, o que mostra que o mundo não é hoje o que era há 30 anos.
Felizmente, apesar de ser hoje uma cidade politicamente cor de rosa, não fui lá encontrar Maria de Lurdes Rodrigues ou Armando Vara. Como diria um neoconservador como Irving Kristol, viver em Portugal não é assim tão mau como queremos acreditar que é.

1 comentário:

josé manuel chorão disse...

No caso de Évora, o côr de rosa político acarreta um fundo bastante negro.
É curioso constatar como até uma coisa bonita como o côr de rosa perde toda a beleza quando associado à política. Principalmente a esta...