01 agosto, 2011

O ROSTO DE LAURA


Não há o rosto mais belo do mundo do mesmo modo que não há a música mais bela do mundo, a paisagem mais bela do mundo ou a voz mais bela do mundo. Mas olha-se para esta fotografia de Gene Tierney (ou de Laura, por antonomásia) e torna-se difícil imaginar um rosto mais belo do que este. Mas a captação fotográfica de um rosto belo não nos dá a verdadeira identidade do seu rosto apesar da beleza ser parte integrante dessa identidade. Só que parte passiva, não activa. O rosto de Gene Tierney que aqui vemos é o seu rosto mas não deixa de ser uma aparência do seu rosto. Ao dizer isto não me refiro a truques de maquilhagem ou de iluminação que acabam por esconder, como uma máscara, o seu verdadeiro rosto. A beleza de Giene Tierney que aqui vemos não é uma invenção tecnológica, um artifício virtual, embora também seja verdade que não a vemos aqui minutos depois de acordar e que há uma preparação técnica para capturar este rosto, obedecendo tal captura a condições especiais.
Refiro-me mesmo à natureza estática ou congelada de toda imagem fotografada, à essência da fotografia enquanto perspectiva necessariamente artificial da realidade. Um rosto fotografado, embora reproduza mimeticamente o rosto original e sugira a sensação de se tratar do mesmo rosto, será sempre um rosto sem vida. Um rosto sem vida, ainda que possa exprimir alegria, tristeza, raiva, medo, vaidade ou surpresa.
Um rosto sem vida porque um rosto sem alma, sem um sopro vital que nele insufle uma dinâmica activa. Como um desenho animado (literalmente: desenho com alma) que de repente ficasse suspenso no espaço e no tempo, dispensando todos os mecanismos vitais que, segundos antes, lhe davam vida e uma identidade. A identidade de um rosto é sempre uma identidade em movimento no espaço e no tempo, mesmo que a pessoa durma (não tendo pois consciência de si e do mundo) ou esteja simplesmente com uma expressão estática, vendo um quadro num museu.
O rosto fotografado, e pensemos na expressão, na pose, no ângulo seleccionado, será sempre uma espécie de arquétipo do próprio rosto, um ideal artificialmente codificado para ser depois também artificialmente descodificado. Um rosto descarnado que, apesar da sua dimensão estética e sensível, assume uma pura e perfeita inteligibilidade formal, sem alma e sem vida.
Esqueçamos por agora o rosto que surge em cima, um rosto reduzido a um único plano, congelado numa pura forma e vejamos esse mesmo rosto desdobrado noutras expressões. Continuamos perante a mesma limitação. A única diferença é que em vez de termos apenas uma pura forma, passamos a ter várias puras formas. Formas puras que se esgotam em em si próprias e que na sua estática auto-suficiência carecem de uma transitividade, a transitividade que dá sentido a todo o rosto vivo.

                             

Só no próximo clip nos aproximaremos melhor do verdadeiro rosto de Gene Tirney ou Laura. Um rosto, agora, sim, já não desdobrado numa multiplicidade de puras formas mas um rosto desdobrado num espaço e tempo vitais. Apesar da mudez com que se manifesta e do carácter aleatório da sequência de expressões que se vão desdobrando, começamos a ver, finalmente, o verdadeiro rosto de Laura.
Nunca aparece tão bonita como na fotografia lá em cima. Mas é, sem dúvida, mais humana.

      

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