15 agosto, 2011

MARISOL


                                                           Francisco de Zurbarán, Imaculada

Embora quase ninguém dê por isso, hoje é feriado. Um feriado religioso em que se comemora a elevação de Maria, em corpo e alma, para junto de Deus. Eu sempre achei este feriado de Agosto um tremendo disparate e não apenas por estar de férias, sendo, por isso, estupidamente desperdiçado. Digo-o por razões mais profundas, como são as razões meteorológicas. A meteorologia é, como já aqui fiz notar, uma das coisas mais importantes da vida.
Como é possível pensar na elevação de Maria rumo ao céu quando toda a gente só pensa em encharcar o corpo de cremes solares para se deitar nos areais de Portugal, sul de Espanha e República Dominicana, ou para ir comer sardinhas assadas com os fatos de banho ainda húmidos e os corpos quentes a saberem a sal?
Os feriados religiosos deveriam ser todos no Outono e no Inverno. Está muito bem o dia de Todos os Santos a 1 de Novembro. Já arrefece, o céu está cinzento, as árvores despidas e amareladas e já se sente o cheiro de algumas lareiras. O Natal, em Dezembro, não podia calhar melhor. Mesmo a Páscoa, apesar da transição para a Primavera, coincide ainda com períodos de frio e chuva intensa.
Agora um feriado religioso em Agosto só lembraria mesmo ao diabo. Se as pessoas pensam no céu, não é por causa da ascensão de Maria, mas para saber como vai ser o dia de praia ou, para quem faz turismo numa cidade europeia, se há-de sair do hotel com chapéu de chuva e um anorak.
O céu da religião pede espiritualidade e interioridade mas o querido mês de Agosto oferece-nos, numa bandeja, a pesada e luxuriante materialidade do mundo sensível. Não é por acaso que as pessoas preferem passear no Verão. Não é só por causa dos dias serem maiores e isso mas porque a luz sobre o mundo transforma-o num palco. A luz de Agosto é um holofote sobre o mundo, transformado num espectáculo a que ninguém quer faltar, sendo o turista igualmente um actor nesse imenso espectáculo feito de luz e calor.
No Inverno, não. Como diz Bachelard em La Poétique de L'Espace, o Inverno (a neve) nadifica o mundo, apaga-o, retira-lhe a sua materialidade. O Verão, pelo contrário, é luxúria, volúpia, vaidade, sensualidade, tudo o que um feriado religioso não deve ser.
Para mim, se puseram o Menino Jesus a nascer em Dezembro, bem poderiam pôr a sua mãe a subir ao céu, vá, algures entre Fevereiro e Março e, com a cabeça fresca e arejada, o povo de Deus cantar então Aleluia, Aleluia, Aleluia. Deixem, de uma vez por todas, o Verão para os veraneantes.

16 comentários:

josé manuel chorão disse...

Queres introduzir racionalidade na religião?
Se os religiosos fossem racionais...não seriam religiosos.
Mas estou de acordo contigo, tudo isto é uma enorme parvoíce, indigna de gente pensante.

Micha disse...

Well...ja no outro lado do hemisferio onde agora e' inverno tem muita gente que adoraria este dia como feriado nacional mas que nao o tem.
Vai ver que a verdadeira estoria e' Maria cansadessima do calor do lado de ca do planeta zarpou por exemplo para o sul do Brasil a fim de um grande chimarrao longe dos paparazzi da epoca ;)

José Ricardo Costa disse...

Mas quem quer introduzir racionalidade na religião? O maravilhoso da religião está precisamente na sua ausência de racionalidade num mundo impregnado dela. Eu só queria mesma a assumpção de nossa senhora no Inverno. Religião é coisa de Inverno, não de Verão. Verão é para nadar, comer gelados, apanhar sol com fartura e namorar.

Micha, eu sempre defendi que o cristianismo deveria ficar-se pela Europa. Um dos maiores crimes da humanidade foi a exportação do cristianismo para países tropicais. É como pintar o Nemo de preto.

Micha disse...

Ricardo, nao imaginas a importancia do pecado na felicidade em alguns dos paises tropicais ;)

José Ricardo Costa disse...

Julgo que percebi. O Nemo só anda de preto durante o dia. Seu patife.

estela disse...

Zé, antes de a Maria ter subido aos céus já o Imperador Augusto tinha decidido que este representaria o dia mais quente do ano e seria feriado para todos (incluindo os escravos). pelo que será até o primeiro feriado de todos ;)
Ferragosto (a Festa de Augusto!)é em Itália um dia especial, de Verão e calor.
Pelo que, não "resmunges", manda vir uma pizza, senta-te com ópera ou visconti em frente e curte o lado mais hedonista da religião ;)))
bj

José Ricardo Costa disse...

Desculpa lá, mas não me convences. Isso do Augusto não é religião coisíssima nenhuma: é política, poder, idolatria. O reino dele era bem deste mundo, não do outro. E alguma vez andou sobre as águas? E transformou água em vinho? E curou leprosos? E a mãe dele era virgem? Nada.
Festa, em Agosto, só mesmo arraiais profanos e pagãos. Vá, não confundas as coisas.

estela disse...

política, poder, idolatria? :) pois, foi assim que fizeram do ferragosto o dia de ascenção ;)))

José Ricardo Costa disse...

Só que política, poder, idolatria, tem tanto que ver com ascensão como com queda. Na religião quem caiu foi o Adão. Cristo e sua mãe ficaram de pedra e cal no céu. No caso do Augusto será só meia ascensão. Bah!

Rita Tormenta disse...

A Ascenção é em Maio, sob o sol da Espiga, que como se sabe tem conotações e apelos telúrico-sensuais.
A Assunção é em si mais relacional, enquanto Jesus Cristo se eleva a si próprio, Maria é ascendida através da ajuda dos anjos.
E eu que ando para aqui à roda de Eros, Philia e Ágape, a tentar compreender porque uns preferem a solidariedade à caridade, e eu apenas advogo a Empathia, chego aqui e compreendo que a Assunção é em Agosto pois assim dispensa a comprovação, a luminosidade intensa do sol de verão impossibilita o contraste necessário para observar o fenómeno. As metáforas são mesmo apropriadas para espíritos simples como o meu!
Boa Assunção !

estela disse...

o Adão caiu a pensar que subia loooooooooool

e quando acabares a pizza, come um "gelato" que eu preciso da grappa toda para o meu mail com a tal questão ética :)

estela disse...

desculpe, Rita!
Assunção.

José Ricardo Costa disse...

Ai Rita, vê-se bem que jamais poderei ensinar Teologia em Paris. Ascensão, assumpção, confundi tudo. O meu território será mesmo o de eros, agapê e empathia. Aliás, um destes dias tenho que escrever umas coisas sobre isso.

Estela, apesar de eu ser extremamente guloso, para a tua questão ética irei precisar mais de uma garrafa de vinho do que de um gelado.

jrd disse...

Aqui nem sequer é feriado e eu deliciei-me com uns pingos de sol intermitente, do género “aquece tolos” e senti-me confortável.

José Ricardo Costa disse...

E nem vale a pena protestar por só apanhar uns pingos. O pessoal do norte nunca apreciou a luxúria do sul. Até houve quem chegasse a apresentar teses contra ela.

Rita Tormenta disse...

Fico, claro está, na expectativa !
Estela, o meu comentário foi escrito antes da ler o seu...
Queria só comparar as duas...
Não pretendia ser uma correcção.