27 agosto, 2011

L'APRÉS-MIDI D'UN SOT


                                                                   Henri Cartier-Bresson

Há dias, descrevi aqui o que terá sido um arcádico e faustoso repasto de tenras amoras silvestres e maduros figos, durante um passeio campestre com o meu filho. A ele regresso de novo
Não sei explicar porquê. Mas quer apanhe ou não sol na cabeça, há em mim uma ligeira inclinação para a parvoíce. Enquanto nos regalávamos com as doces amoras, lembrei-me de colocar o seguinte problema, típico, aliás, de uma pessoa parva, mas disfarçado pelo ar sério do início de um diálogo platónico: será que as amoras, se tivessem consciência, gostariam de ser comidas?
O rapaz, filho de seu pai, também dado à parvoíce, terá pensado que seria parvoíce a mais e não soube responder. Eu avancei então com a tese de que sim. As amoras gostariam de ser comidas pois estariam a cumprir o fim para que foram destinadas. Ok, eu sei que isto pode parecer um bocadinho antropocêntrico. E que depois de tanto estruturalismo, pós-estruturalismo, desconstrucionismo ou pós-modernismo, defender teses antropocêntricas, cosmocêntricas, logocêntricas, etnocêntricas, eurocêntricas, falocêntricas, será outra forma de parvoíce. Centros, nos dias que correm, só mesmo os comerciais.
Mas pronto. Se eu fosse uma amora cheia de vitaminas e anti-oxidantes, acho que gostaria de ser comida por alguém que para mim olhasse avidamente como o lobo mau para o capuchinho vermelho. As coisas foram feitas umas para as outras e, se os seres humanos se dão bem com vitaminas e anti-oxidantes, muito provavelmente as amoras existem para fazerem bem aos seres humanos e para uma amora fazer bem ao ser humano terá que ser comida, significando isto que uma amora desejar ser comida será tão natural como o Messi desejar marcar golos e o Roberto não os sofrer.
Para convencer melhor o rapaz decidi fazer ainda uma analogia com a música e a pintura. Uma sinfonia pode perfeitamente existir sem nunca ser ouvida para além do compositor. Um quadro pode existir sem ser visto para além do pintor. Ok, é verdade que, independentemente de ser ouvida ou não, uma sinfonia será sempre uma sinfonia e não um martelo ou uma panela de sopa. Um quadro, independentemente de ser visto ou não, será sempre um quadro e não um apito ou uma máquina de barbear. Muito bem.
Mas a sinfonia e o quadro enquanto objectos estéticos, para serem completos precisam de alguém que os componha mas também que os apreenda sensorialmente. Estética tem que ver com objectos captados pelos sentidos e não com entidades que vagueiam ocultas num qualquer recôndito buraco deste infinito, silencioso e escuro universo. Um quadro não é feito apenas para existir. Um quadro tem uma existência que consiste em ser visto. Se não for visto não deixa de ser um quadro mas é um quadro cuja existência não corresponde àquilo em que essa existência consiste. Com a sinfonia é a mesma coisa. Uma sinfonia não ouvida será sempre uma sinfonia incompleta. Incompleta, não no sentido em que Schubert tem uma sinfonia Incompleta, mas incompleta porque não é ouvida. Mesmo que a sinfonia Incompleta de Schubert fosse completa, seria sempre incompleta se a pauta estivesse desconhecida num baú. Por isso, se as sinfonias e os quadros tivessem consciência, só seriam felizes se fossem ouvidas e vistos.
Ora, como sou um pai democrático, e já num estado de quase delírio metafísico, resolvi perguntar ao meu efebo discípulo se concordava com o meu ponto de vista. Ele, muito simplesmente, disse que não. Porque se pensar em certas músicas que por aí se ouvem será mesmo obrigado a pensar que não podem ter sido feitas para serem ouvidas.
Dei-lhe razão. E fiquei contente por saber que ele, apesar de tudo, é bem menos parvo do que o pai dele.

14 comentários:

Ivone Costa disse...

O título também podia ser : "Para uma teleologia das amoras", embora fosse menos debussyano.
:)

José Ricardo Costa disse...

Mas seria bem mais teleogénico...

estela disse...

:)))

o puto tem a quem saír. e se ele na altura tivesse lido o teu post dos peixes voadores também te tinha dito como são as coisas ;)

José Ricardo Costa disse...

Acho que não diria nada. Nunca ouvi falar de jogos para a PS3 com peixes-voadores.

josé manuel chorão disse...

Mas o pai dele não é parvo.
O pai dele cumpre a função dos (bons) pais: questionar, levar o pimpolho a reflectir, provocá-lo até com o absurdo, de modo a que se habitue a distingui-lo,a separar a verdade da ilusão e não venha um dia, por exemplo, a votar PS (ou a ser adepto lagarto...).
Sorte dele, ter um pai que o questiona.

José Ricardo Costa disse...

Ou não. Olha que há tanto filósofo infeliz e tanta gente no PS que é feliz: o Armando Vara, O Jorge Coelho, o Pina Moura. Uns comem amoras enquanto outros vivem nas Amoreiras.

Artes e escritas disse...

Se a música precisa do ouvinte, o jovem segue a busca e a maturidade aprecia a conquista. Um abraço, Yayá.

Rita Tormenta disse...

Abandono momento romanesco-silvestre, não sei se as amoras gostam de ser comidas, aliás não sei se a função das amoras é serem comidas por humanos, ou bicadas por pássaros de guelras, em fugazes sortidas.
Não consigo achar que a Natureza se estendeu para deleite humano, sobretudo quando olho o que o homem fez à natureza, e como ignora a sua voz. Mas aqui iria meter-me pelos caminhos do ambientalismo, do equilíbrio entre o ser humano e o universo.
Interessa-me sim, esta ideia da obra de arte numa equação que integre a recepção, a ideia não é consensual ( como decerto saberá), claro que me apetece ir buscar o Michael Fried, e o seu "Art and Objecthood", onde ele fala da teatralidade da obra de arte contemporânea como o elemento letal para a própria arte contemporânea, a arte pode ser encontro, a arte pode ser diálogo, pode ser relacional, mas a inexistência destas três características não anula a produção da obra de arte, nem a diminui.
Aliás, a ideia de incluir o momento da fruição está ( quanto a mim)intimamente ligada à presentificação da existência conteporânea, ignora-se o passado tanto quanto o futuro, resta o presente, em agudo.
Tenho andado à roda destas ideias, porque será que depois da arte conceptual ( alheia ao factor emotivo, intencionalmente) houve um boom na Arte relacional ( Nicolas Bourriaud)? A erosão assusta a humanidade e perante a falta de ideias e ideais resguardamo-nos na interacção, acreditando nos seus poderes salvíficos.
Fica uma dúvida, a estesia pressupõe a intencionalidade na estimulação sensorial?

José Ricardo Costa disse...

Cara Yayá, apreciar a conquista é também uma forma de ser conquistado. Um abraço sobre o Atlântico.

José Ricardo Costa disse...

Eu acho que Hegel não andou muito ao lado do problema quando pensava na morte da arte. Muita da frivolidade e conceptualidade da arte contemporânea passa por aí. Quase perdemos a inocência relativamente à arte. Ver arte hoje é cada vez mais não ver o filme mas o making of do filme. A arte é mais pensada do que usufruída. E não tem nada que ver com a "cosa mentale" de que falava Leonardo. É mais conceptual do que "mentale", tem mais que ver com o trabalho do conceito, o seu ascendente e doloroso percurso para a pureza formal. Platão continua a somar boas vitórias e onde menos se espera, num terreno adverso como o da arte.
Quanto à sua pergunta, depende se pensar no belo natural ou no belo artístico. No belo natural, não. De todo. No belo artístico, sim. Ainda que o pintor se chame Pollock ou Cy Twombly.

m.a.g. disse...

"Ajunto-me" a esta epifania da amora. e tenho boas lembranças de quando andava com os meus às amoras. Hoje arranho-me sózinha mas por uma boa causa: as compotas, as tartes e ao natural (aqui no Douro são devoradoramente gostosas).

José Ricardo Costa disse...

Hummm, amoras "douradas". Nem só de vinho e Agustina vive o Douro!

addiragram disse...

Se a amora contém amor e se a amora é também um símbolo do feminino, a amora encontrada pelos dois peripatéticos passantes gostará muito de se deixar comer......

José Ricardo Costa disse...

Pode crer! Eu bem reparei no ar feliz das amoras enquanto eram comidas.

JR