22 agosto, 2011

CROSTAS DE PENSAMENTO

   Francis Bacon

Tanto o filósofo como o escritor querem pensar. Mas  uma das diferenças entre a literatura e a filosofia é a seguinte: o filósofo é alguém que pensa mas que precisa da linguagem para o fazer. Tem que descer ao plano sensível da linguagem (Saussure). A linguagem será, por isso, um mal necessário.
O escritor, pelo contrário, trabalha directamente sobre a linguagem para subir ao plano das ideias. A linguagem já não é aqui um efeito secundário, uma mácula sensível, mas um privilégio. Não apenas para dela fruir mas um inestimável recurso sensível para abrir as portas e janelas do pensamento.
Lembrei-me disto ontem ao ler a Viagem ao Fim da Noite, do Céline. A páginas tantas, ele diz o seguinte: «Os meus queridos colegas não trocavam entre si uma ideia sequer. Apenas fórmulas estabelecidas, mais do que estafadas, a bem dizer crostas do pensamento».

Eu acabei de ler isto e fiquei deslumbrado. Crostas de pensamento. Meu deus, crostas de pensamento. Graças a esta magnífica imagem acabei de conquistar um conceito. Doravante, sempre que ler um jornal ou, sobretudo, vir o telejornal, já saberei como etiquetar grande parte do que leio ou oiço: crostas de pensamento. E se eu fosse professor de literatura e estivesse a leccionar a obra de Céline, era isto que iria mostrar aos meus alunos como supremo exemplo do que é uma crosta de pensamento. Vale a pena ver até ao fim. Crostas de pensamento onde antes esteve pus.

7 comentários:

jrd disse...

Debaixo desta crosta, o pus permanece. Não há antibiótico que o elimine, a infecção é crónica.

Alice N. disse...

Era encrostar o homem à parede e fazê-lo calar-se para sempre.

José Ricardo Costa disse...

Infelizmente, jrd, é verdade. Já a democracia grega estava infectada com bactérias destas.

Alice, bem encrostado nas entranhas mais profundas da serra da Estrela, com produtos regionais e água da serra suficientes para poder sobreviver sem nunca de lá sair.

josé manuel chorão disse...

Eu nunca fui capaz de separar as ideias das palavras. Penso com palavras e as palavras estimulam o pensamento.
Já "joguei" quase exclusivamente no clube das ideias, hoje sou adepto do clube das palavras (e do Benfica, evidentemente...).
Agora este anormal que aparece no "teu" vídeo estragou-me a tarde, quase me deu vontade de desacreditar definitivamente na humanidade. Que perda de vida, haver gente dessa...

José Ricardo Costa disse...

...e que por vezes nos governa. Já viste como o Platão está sempre presente?

Artes e escritas disse...

Uma reflexão muito interessante. Um abraço, Yayá.

José Ricardo Costa disse...

Saravá, Yayá.