12 agosto, 2011

CONTRA OS CANHÕES



Como nos últimos tempos tenho andado a ficar excessivamente anglófilo, e tudo o que é excessivo é desagradável, resolvi virar-me para França.
Não para os maneiristas cafés da cidade-luz, onde filósofos existencialistas, entre dois Ricards e dez Gitanes, exibiam o seu inebriamento perante os encantos do estalinismo e do maoismo (enfim, deviam ser bem mais que dois Ricards. E, como as santas místicas do Barroco, com o estômago vazio), deram lugar a uma filosofa de camisa branca à medida das revistas de moda. Resolvi antes virar-me para o bas fond da alma humana, menos glamourosa, é verdade, mas literária e filosoficamente muito mais estimulante.
Ora como passo parte dos meus dias com um judeu de esquerda, e tendo andado há dias a ler um judeu de direita, para compensar, escolhi agora a companhia de um anti-semita e colaboracionista. Mas que escreveu um grande romance. Falo de Céline, e o livro, claro, Voyage au Bout de la Nuit, na excelente e canónica tradução de Aníbal Fernandes que li pela primeira vez no tempo da faculdade.
O raio do livro é tão bom que, apesar de ser escrito por alguém "politicamente inimigo", seria facilmente venerado por jovens do Bloco de Esquerda que estivessem dispostos a aprender a ler em vez de andarem pelo Bairro Alto a encharcar as suas pobres cabeças com causas fracturantes. Tão bom que é capaz de irritar algumas pessoas de esquerda por não ter sido escrito por uma pessoa de esquerda mas por um niilista com mau feitio.
Acontece que livro bom é aquele que será amado numa prova cega e não aquele que será amado ou detestado porque foi escrito por um português, um chinês, um americano ou luxemburguês, por um homem ou mulher, por um branco ou um preto, por alguém de esquerda ou de direita, que ficou conhecido por estar ligado a grandes causas humanitárias ou, pelo contrário, por ser um enormísimo sacana.
O livro tem assim passagens como esta:

«Para eles o canhão não era mais do que um barulho. Por causa disso as guerras conseguem durar. Mesmo os que a fazem, os que estão a fazê-la, não dão por ela. De bala no ventre teriam continuado a apanhar na estrada sandálias velhas que «ainda podiam servir». Tal como o carneiro que agoniza sobre o flanco, no prado, a pastar. A maior parte das pessoas não morre senão no último momento; outras começam a agarrar-se a isso com vinte anos de antecedência, e às vezes mais. São os infelizes deste mundo».

Ler o velho e niilista Céline é uma forma de continuar a adiar a morte para o último momento, aprender o truque de olhar para o abismo sem que o abismo nos devolva o olhar. Há noites de cujos fundos é possível regressar. Mas, para isso, é preciso saber estar de olhos bem abertos. E ler grande livros será sempre uma das melhores maneiras de os abrir, independentemente de quem os escreveu.

6 comentários:

josé manuel chorão disse...

Ler grandes livros é, sem dúvida, a melhor forma de viver, de pensar, de viajar.
Melhor que estar vivo, só mesmo ler bons livros sobre a vida. Juntamente com a boa música, ainda é das poucas coisas que me impedem de desacreditar definitivamente na Humanidade.

Rita Tormenta disse...

Um amigo de adolescência apresentou-me (em livro) Céline, estávamos numa Feira do Livro em 87/88 e ele disse.me:
Queres comprar um livro muita bom mas que é proibido ?
Desconhecia então que o Index apócrifo era vasto e acéfalo.
Nessa altura lia Mishima e Duras, em doses exageradas.
O livro marcou-me. O amigo perdeu-se em descidas sucessivas.
Ler livros é uma das redenções possíveis.
O meu filho mais velho, dizia-me no outro dia, a propósito de Dostoiewsky, que a leitura do “Crime e Castigo” era de tal forma envolvente que cada vez que fechava o livro, vencido pelo cansaço, sentia-se redimido.
Os bons livros colam-se-nos à pele e fazem de tal forma parte de nós, que citá-los deixa de ser um acto de memória para ser um acto de pensamento próprio.

José Ricardo Costa disse...

Rita, deixe lá o garoto. Sabe o que diz o Irving Kristol no livro ao qual me refiro um pouco mais abaixo?
"Em conversa, Strauss chamou uma vez a atenção para o facto de que fazia todo o sentido que um jovem considerasse Dostoievski como o romancista perfeito, mas que seria um sinal de maturidade quando viesse a reconhecer que a candidata legítima era Jane Austen".

Não perca a esperança.

jrd disse...

Oui Céline. Même quand "Il n'a plus assez de musique dans le coeur pour faire danser la vie".

José Ricardo Costa disse...

Ou antes "surtout"?

jrd disse...

Ça dépend...