09 agosto, 2011

CHICHINOISERIES


                                                                    Marcel Cerf | La Toilette

Disse, no post anterior, que passei toda uma viagem de comboio a ler. Lamento ter que o dizer, mas não é verdade: a dada altura tive a necessidade de me dirigir à casa de banho para fazer chichi, implicando isso uma paragem obrigatória na leitura.  Não lamento dizê-lo por ter mentido. Lamento, sim, só porque me obriga mesmo a lembrar a ida à casa de banho.
Como explicar? Fazer chichi num comboio em andamento deve ser o que há de mais parecido com  a experiência de fazer chichi com uma valente bebedeira. Ainda assim, penso que fazer chichi no comboio é pior, pois tem-se a angustiada consciência de estar efectivamente a fazer chichi como se estivesse com uma valente bebedeira, apesar de, no meu caso, ter apenas bebido um iogurte líquido de morango, ainda por cima magro.
Isto pode parecer um assunto ridículo mas para mim é assunto muito sério pois acorda fantasmas no sótão da minha consciência há muito adormecidos e é lá que estão muito bem.
Fui uma vez passar uns dias a casa de uma amiga minha feminista que vivia com dois amigos, numa cidadezinha do norte da Alemanha. Muito pior do que ser apenas feminista é ser uma feminista alemã, pois, sendo feminista e alemã, obviamente que era ela quem mandava naquela casa. E para os rapazes que viviam com ela, pacifistas e anti-militaristas, viver naquela casa era o que havia de mais parecido com a vida num quartel ou no mais famoso bunker de Berlim em 1945, perante um Bruno Ganz furioso face aos desvios à norma.
O respeito era imenso. Não apenas pelo facto de viverem com uma rapariga que não tinha uma única parte do corpo que fosse depilada, o que impõe sempre um certo temor, mas também por ela defender que todos os homens eram potenciais violadores. Não é fácil viver com uma mulher que olha para um homem como um furioso e demente violador, sobretudo quando esse homem se vê ao espelho e o gesto mais violento que consegue imaginar será chamar nomes à polícia numa manifestação em frente de uma central nuclear, depois de ter dito cem vezes "Atomkraft, nein danke!".
Para mim, no entanto,  e falo só por mim, o pior de tudo era a lei imposta naquela casa que obrigava os homens a fazerem chichi sentados, mais parecendo uma versão sanitária da tenebrosa Revolução Cultural chinesa. Pelo modo como fui violentamente sensibilizado para essa problemática, rapidamente percebi que os meus amigos alemães, como bons alemães que eram, já tinham assumido o cumprimento da lei. Só que eu não era alemão. Eu era português e ribatejano e nunca na vida tive inclinações maoistas. E se há coisa que um alemão alternativo e vegetariano  jamais irá compreender na vida é o significado, para um ribatejano, de fazer chichi sentado. Daí eu não ter outra saída a não ser a desobediência civil. Porém, isso fez com que um acto simples e rotineiro como ir à casa de banho fazer chichi se tornasse numa perigosa e ansiosa aventura. Só quem já viu em directo e ao vivo uma mulher que não depila qualquer parte do seu corpo entenderá o perigo que eu corria, pois, para uma feminista alemã que não se depila, pior do que ser um potencial violador, é ser um potencial violador que faz chichi em pé. E ser um potencial violador apanhado a fazer chichi em pé perante uma mulher que não se depila é experiência pela qual jamais gostaria de ter passado.
Anos mais tarde casei e tive dois filhos. Um rapaz e uma rapariga. Ora, como grande parte das casas de banho dos cafés portugueses e outras casas de banho públicas parecem casas de banho utilizadas por passageiros de comboios em andamento, até uma certa idade nunca deixei os meus filhos irem sozinhos à casa de banho.
Agora, a experiência de levar um menino a fazer chichi é muito diferente da experiência de levar uma menina. Há uma coisa em que as feministas podem ter razão. A natureza foi madrasta com as meninas na hora de fazerem chichi. Claro que alguma engenharia social pode ser feita como aquela da minha amiga feminista, que, naquele totalitarismo doméstico, obrigava os rapazes a fazerem chichi como as raparigas. Mas, felizmente, nem todas as mulheres têm vocação para a engenharia social do mesmo modo que, também felizmente, nem todas as mulheres têm vocação para o feminismo e ideologias anti-depilatórias. Daí ser muito mais simples para um menino fazer chichi do que para uma menina. Basta pôr-se de pé e puxar o fecho das calças. Em suma, com o menino bastava controlar discretamente o processo. Evitar que ele se comportasse naquele pequeno espaço como se estivesse numa aula de trabalhos manuais ou com vontade de explorar o mundo devido à curiosidade natural das crianças. 
Com a menina a coisa era bem mais complicada, sobretudo no Inverno, com toda aquela parafernália de roupa, mais collants, cuecas, botas. Neste caso já não se tratava da engenharia social, como acontecia com o espírito maoista das feministas alemãs, mas de engenharia na verdadeira acepção da palavra, tipo engenharia mecânica ou coisa assim.
Eis uma fase da minha vida que considero fundamental esquecer. A sensação que tenho quando olho para trás e recordo esses momentos de urinária angústia existencial é que as casas de banho, depois de lá passar com a minha filha, não pareciam a casa de banho de um comboio utilizada por uma pessoa que faz chichi depois de beber uma grade de cerveja, mas a casa de banho de um comboio utilizada por duas pessoas que fazem chichi depois de beberem duas grades de cerveja. Pois enquanto um rapaz faz chichi como se fosse um atirador profissional, fazendo pontaria para um alvo, uma rapariga, já pesando uns valentes quilos, fazendo chichi ao colo do pai, com três peças de roupa a prender os pés, tornava o chão da casa de banho numa substância espacial algures entre o estado sólido e o estado líquido, e o pai um soldado a disparar uma metralhadora para um alvo imaginário, depois de ter bebido uma grade de cervejas. É verdade que eu não serei exemplo para ninguém pois a engenharia nunca foi mesmo o meu forte. Mas também não tenho a culpa de ter mais jeito para as letras do que para as ciências.
Como diria um qualquer psicólogo, ninguém pode fugir ao seu passado. Como diria um astrólogo, ninguém pode fugir ao seu destino. Como diria um filósofo, tudo o que é racional é real, tudo o que é real é racional. Ok, isso é tudo muito lindo, mas só fala assim quem nunca passou pelas experiências que eu passei, entrando numa casa de banho como se fosse um campo de batalha.
E eu, apesar de ribatejano, e fazer questão de assumir orgulhosamente a síntese do homo sapiens e do homo erectus sempre que vou à casa de banho, não deixo de ser um objector de consciência que ama a paz e os prazeres de uma vida harmoniosa e tranquila. Gosto de cultura mas detesto revoluções.

10 comentários:

josé manuel chorão disse...

É nos pequenos textos, aparentemente corriqueiros, que se revela a dimensão de um grande escritor. Que tu és.
E é nos pequenos pormenores diários, aparentemente pouco importantes, que se revela a dimensão de um grande pai. Que tu és.
E um grande Homem.

José Ricardo Costa disse...

Tu e os teus exageros de sempre!

estela disse...

:)

uma grande amiga de Leiria costumava sentar-se com os pés nas sanitas do mundo. Lembro-me de corrermos para um autocarro da escola por duas vezes numa viagem ao norte... porque dera cabo da "loiça" do wc... Hoje está casada com um alemão ;)
Ocorreu-me esta história pelo seguinte: a grande questão austro-alemã de fazer chichi sentado (para a qual existem posters, recortes de jornais e postais explicativos de gosto duvidoso) tem a ver com quem limpa a casa-de-banho ;) De facto, assisti já a muitas conversas sobre o assunto e acaba sempre no mesmo "pormenor"... o que para mim prova que o feminismo se esforça tanto por limar as diferenças que se mete em sarilhos desnecessários ;)

José Ricardo Costa disse...

Sim, esse era o argumento. Mas bem se podia utilizar a linha do utilizador-pagador advogada, por exemplo, para as portagens.
Aquele pessoal nunca foi de confiança.

Zekzander disse...

O Sr. José Chorão tem razão, ficou um lindo texto. Tenho vontade de perguntar como o sr. sabia que a alemã... Bom, deixa prá lá. Segue uma observação de Millôr Fernandes sobre Freud:

Freud, um homem simples, fez a frase que ficou famosa: "As mulheres têm inveja do pênis". Sempre achei a frase imperfeita. Pra mim, as mulheres têm apenas inveja da água encanada.

(Millôr Fernandes, O Dia, 26-08-96)

José Ricardo Costa disse...

Freud? Quem foi Freud? Algum ascendente do pintor? Grande Millor!

Ana Paula Sena disse...

:))

Maria João Borges disse...

Tenho que confessar que não é só o acto de o ler (em 42 anos de vida, passei 36 a ler; a minha distracção favorita). É a constatação de ver, frequentemente, traduzido por palavras, muita coisa que me vai na mente e na alma mas não consigo exprimir com tamanha clareza e maestria. A par disso, possibilita-me olhar para outras coisas sob perspectivas predominantemente diferentes, o que me dá uma enorme sensação de desafio e, consequentemente, de prazer. O José Ricardo não só é professor de Filosofia, como escreve esplendidamente! E se não é escritor, seguramente que tem o talento e a alma de um. Consequentemente adoro passear pelo seu blogue, mas passeio agora a "andar para trás", dado que só o descobri este ano (já vou, divertidamente, em 2013 :)

Também eu dou aulas numa escola do Funchal (embora seja transmontana) e garanto-lhe que tenho já vários colegas a deliciar-se, neste momento, com a sua escrita. Nos intervalos da Horácio Bento, na sala de professores, o riquíssimo conteúdo do "Ponteiros Parados" já faz sucesso - se sentir as orelhas quentes, já sabe. Porque gosto de partilhar o que me faz feliz e também me faz feliz ver os outros felizes.

O José Ricardo já não é só de Torres Novas. É de todos nós.

Escreva. Escreva muito. E escreva sempre.

Aqui fica o meu bem haja!

Maria João Borges

José Ricardo Costa disse...

Cara Maria João,

Agradeço as suas palavras, passe o exagero dos encómios Eu não faço mais do que me entreter um pouco pois é um bom exercício para tentar adiar o mais possível o sacana do Alzheimer.

Essa coisa de ser transmontana e ir para a Madeira deve ter sido para compensar os excessos da interioridade :)

Um bem haja também para si. Cumprimentos,

JR

Maria João Borges disse...


De facto!

Mas isto de compensar os excessos da interioridade com os da insularidade também tem que se lhe diga, haja resiliência; mesmo adorando esta ilha.

É minha opinião que a escrever desta maneira não há Alzheimer que se venha a lembrar de si. Fique descansado e não pense nisso :)

Cumprimentos diospiranos!