16 agosto, 2011

BORIS SAVELEV | AS RAPARIGAS DA PRAÇA VERMELHA [1981]


                  
Uma das coisas de que gosto mais na versão cinematográfica de "O Nome da Rosa" é a luz. Ou melhor, a falta dela ao longo de todo o filme, dando-lhe uma atmosfera tão medieval, embora sabendo que a representação da Idade Média como Idade das Trevas ou de uma longa e obscura noite, não passe de uma mistificação iluminista, esquecendo tanta coisa alegre como o amor cortês, a música profana e a poesia, as festas, os goliardos, ou até mesmo as estimulantes disputas universitárias.
Falo disto porque já tenho dado por mim, na minha pobre cabeça, a misturar promiscuamente conceitos com imagens, abstracções com sensações. Eu sei que é uma parvoíce mas não tenho como evitar isso. Por exemplo, as minhas leituras andam muito à volta dos diferentes regimes políticos: democracia, comunismo, nazismo, fascismo. Estamos a falar de conceitos, de ideias, de princípios. Mas tanbém estamos a falar de realidades empíricas, regimes que existem no espaço e no tempo, envolvendo as vidas diárias de milhões de seres humanos. Ora é aqui que a minha cabeça começa a avariar.
Um dia fui visitar o campo de concentração de Bergen-Belsen, aquele onde morreu Anne Frank. Uma das coisas estranhas que ali senti foi a terrível sensação de normalidade. Sim, normalidade. Antes de entrar pensava que iria sentir coisas esquisitas mas, afinal, estava ali como se estivesse noutro sítio qualquer. Estava um dia bonito, havia casais que passeavam de mão dada pelo campo,  eu ia passeando e conversando como se andasse por um jardim. Agora não me lembro, mas certamente que se ouviam passarinhos a chilrear. Mas, para mim, campos de concentração implicavam céu escuro, neve, frio, desolação. E tudo isso pintado a preto e branco num mundo do qual as cores foram expulsas. Campo de concentração é Primo Levi. Os prisioneiros, no meu imaginário, não podiam saber o que era o Sol e ouvir os passarinhos. Só que o Sol de hoje é o Sol de então, os passarinhos de hoje, são os passarinhos de então. Porém, a nossa imaginação apaga o Sol e os passarinhos, seleccionando apenas o que "logicamente" mais se adequa ao conceito de "campo de concentração". Atenção, não estou a querer limpar o campo da sua sórdida e abjecta realidade: da fome, do tifo, da tuberculose, dos corpos esqueléticos e dos rostos tristes. Estou apenas a falar das automáticas associações que na minha cabeça se estabelecem entre conceitos e sensações, um terreno onde nem existem conceitos puros nem sensações puras, mas uma estranha mistura entre ambos.
Eu ainda cheguei a viver 13 anos da minha vida num regime  fascista. Brinquei muito, fartei-me de jogar à bola e de andar de bicicleta, comi muitos gelados e bolos, ia muito ao cinema,  passava um mês inteiro na praia, enfim, posso dizer que tive uma infância feliz.
Porém, quando penso no fascismo penso num tempo cinzento, triste, outonal. Porquê? Porque associo aquele tempo a um regime de opressão, ausência de liberdade ou de pobreza. Mas, vendo bem, as pessoas seriam necessariamente infelizes? Não se divertiam, festejavam, passeavam, conversavam, iam ao cinema, ao futebol, namoravam, casavam, tinham filhos e netos? Os 48 anos de fascismo não são o forte de Peniche e Caxias. Claro que havia pobreza e miséria, como continua a haver hoje. Mas uma coisa é a negatividade de um regime que, hoje, seria obsoleto, outra coisa é a vida diária das pessoas, a sua vida material, a manteiga que comiam, os cortinados que tinham na sala, a máquina de lavar roupa, as festas de aniversário, a cor da gravata que se vestia ao domingo, as conversas de homens na barbearia ou as conversas de mulheres na mercearia. Isso nada tem que ver com os aspectos formais de um regime.
Como poderia dizer Don Fabrizio, príncipe de Salina, o Sol e a chuva, o frio e o calor nada sabem de política, de constitucionalidades, de sistemas representativos, de democracia e de totalitarismo. E o que diria do Sol e da chuva, do frio e do calor, poderia também dizer da alegria e da tristeza, da felicidade e da infelicidade.
Eis porque gosto tanto desta fotografia. Quase todos os dias, nas minhas leituras, sou confrontado com o pesadelo soviético, os horrores do Gulag, a opressão, a censura, a miséria, o poder totalitário do Estado na vida dos cidadãos. Claro, ninguém nega isso, são factos, evidências empíricas.
Mas, depois, olho para estas raparigas e tudo muda. Quem são estas raparigas, não russas, russas da velha Rússia, mas tão soviéticas, tão brejnevianas? Quem são estas raparigas tão floridas e de uma jovialidade tão botticelliana? Não me parecem infelizes, deprimidas, oprimidas. Pelo que sabemos do sistema de ensino soviético, hão-de ser excelentes alunas, cultas, inteligentes, pragmáticas. Lerão os clássicos russos, gostarão de música erudita, muito provavelmente saberão tocar um instrumento e jogar xadrez, praticarão um desporto qualquer, não têm ar de passar fome.
Ok, não usam Levis, não bebem coca-cola, não vão livremente a Paris, Londres ou Roma, não tomam drogas, não têm televisão no quarto com 100 canais, nem podem militar livremente num partido político. Mas isso faz delas raparigas necessariamente infelizes e deprimidas? Fará das suas vidas uma vida triste e cinzenta como a dos góticos e depressivos urbanos das democracias ocidentais?
Será o sistema político, o regime, o partido que está no poder, em suma será a política assim tão importante na vida pessoal dos indivíduos? Não será a felicidade uma tarefa mais pessoal do que política? Não seremos os primeiros e principais responsáveis pelo que fazemos das nossas vidas, independentemente dos contextos políticos em que vivemos?
O reino, tanto destas felizes e botticellianas soviéticas, como o dos filhos das democracias ocidentais, não é apenas deste mundo. É também do mundo que existe dentro de cada um de nós e do que cada um de nós quiser fazer dele. Esse, sim, é o principal reino. O verdadeiro Verão e o verdadeiro Inverno não estão lá fora. Estão dentro de nós. Esta fotografia bem se poderia chamar "À Sombra das Raparigas em Flor".

10 comentários:

Conservador disse...

Não será a imagem a pior ilusão de um conceito?

José Ricardo Costa disse...

Não necessariamente. Há, na verdade, um livre jogo entre conceitos e sensações. O que para Kant é a imaginação. Depende agora das regras do jogo. No caso da arte não haverá grande mal em haver regras muito elásticas. Até pode ser uma condição libertadora da criatividade artística. Porém, quando se trata de usar a imaginação para representar conteúdos empíricos, aí, sim, a imagem pode ser a pior ilusão de um conceito. Pior ainda, quando os próprios conceitos já são por si ilusórios... :)

PR disse...

Não sei não, Zé Ricardo, não sei! Mas o grande murro da minha vida levei-o em Birkenau, Auschwitz, quando após caminhar ao longo da estrada dos carris ferro que levam ao campo, subi à torre e deparei-me com aquela imensidão…. E estava um lindo dia de um sol, resplandecente. Não sei Zé Ricardo, não sei. Um abraço. PR

José Ricardo Costa disse...

PR, eu não estou a querer libertar os campos de concentração, o fascismo ou o comunismo dos seus males. Não estou a absolver nenhum desses três grandes pesadelos (o fascismo português em menor escala). Os campos de concentração nazis eram horríveis, verdadeiros pesadelos. O que eu quis dizer com o dia de Sol em Bergen-Belsen é que no meu imaginário, quando penso num campo de concentração em 1945, penso em tempo cinzento, chuva, neve. Claro que os documentários a preto e branco também ajudam. Quando por lá andei, sabia bem o que estava a ver e o que aquilo representou. Refiro-me apenas à associação entre conceitos e sensações. Mas, admito, e as pessoas são diferentes, que não tenha vindo de lá tão chocado como tu. Como não fiquei chocado a ver a exposição de instrumentos de tortura e não ficado chocado a pisar o chão de Aljubarrota onde morreram horrivelmente milhares de pessoas. Mas isso, confesso, é uma dificuldade minha.

Abraço

Alice N. disse...

Desta vez, discordo quase totalmente.

Sempre houve pessoas felizes em regimes autoritários, é verdade, mas o que interessa saber, na minha opinião, é a quantos chegava essa felicidade. Teria muito que argumentar, mas apenas direi isto: que percentagem da população tinha acesso à praia, ao cinema e à instrução no Estado Novo? O que dizer quando uma mãe se vê obrigada a pedir, de cabeça baixa, que a professora primária dispense a sua filha de 9 anos por uns dias, não para esta ir brincar e correr livremente para os campos, mas para se vergar nos trabalhos agrícolas junto dos adultos e contribuir com migalhas para matar a fome a uma família que vive sem conhecer como será o amanhã? Acredito que os miseráveis tivessem momentos de alegria quando, uma vez por ano, podiam matar uma galinha e ver algo mais do que batatas negras no fundo do prato, mas uma andorinha não faz a Primavera... Não eram casos isolados, como se sabe. Esta era a realidade da maioria. Muitos do que estavam bem e felizes iam, entretanto, fazendo caridadezinha para sossego da sua consciência e cumprimento da bondade cristã.

A felicidade existe dentro de nós, sim, mas quando os homens são reduzidos à mera condição animal ou abaixo dela, não vejo como a encontrar.

Também me surgem imagens ao pensar nisso tudo (felizmente, um tempo que não vivi). Pensei no "meu" Van Gogh, mas, desta vez, não no seu maravilhoso amarelo. Lembrei-me do seu célebre quadro "Comedores de Batatas". São quadros como esse de que me lembro quando penso em tudo quanto li e me contaram desses tempos em que nem liberdade teria para discordar do que leio. E ainda era preciso que tivesse a sorte de saber ler...

O sol nasce todos os dias, é verdade, mas não nasce de igual forma para todos. O que temos agora também não é bom, também há fome e miséria, também há desigualdades, mas prefiro o que temos, que é o menos mau de entre o mau.

José Ricardo Costa disse...

Alice, eu não estou a dizer que é possível ser feliz com o estômago vazio, descalço e humilhado perante alguém. Não por acaso falei da minha infãncia e não da infância de uma criança com fome e descalça. Também as raparigas da fotografia não têm aspecto de passarem fome e referi mesmo isso explicitamente para evitar equívocos a respeito de bens primários fundamentais, como a comida. E descalças também não estão como se pode ver. O meu post não é sobre "Como ser feliz com fome e descalço?" ou "Como ser feliz em Bergen-Belsen apanhando Sol e ouvindo os passarinhos?"
O que eu quero dizer é que a felicidade e a infelicidade será sempre mais pessoal do que política. A fome no fascimo português não é pior do que a fome num casal desempregado e com filhos numa zona suburbana de Lisboa em 2011. Fome é fome. Do mesmo modo, um regime fascista não é sinónimo de infelicidade pessoal, um regime democrático não é sinónimo de felicidade pessoal. Havia felicidade no fascismo português do mesmo modo que há infelicidade na democracia portuguesa. O regime político é apenas uma estrutura formal e constitucional que, condicionando a vida das pessoas, não interfere directamente na sua vida pessoal, sendo esta, por isso, irredutível.

Rita Tormenta disse...

O som dos pássaros num cenário de condenação é um elemento intensificador da tragédia e não uma redenção, apesar da luz, da natureza, apesar disso, morre-se, inevitavelmente.
A felicidade interior , ou a sua construcção, pode permitir uma atitude interior perante a realidade política, mas não altera a suas profundas consequências, na vida real.
A política não éum exercício praticado por políticos, é um exercício diário, mesmo aqueles que se dizem alheios à dita, são modificados por ela.
A questão das democracias é a suposta, e sublinho, suposta, liberdade de escolha, a abertura de todas as oportunidades, independentemente da influência dos ascendentes, baseando-se nas skills (não traduzo pois considero que vai para além de capacacidades e aptidões) do protagonista. Não militar num partido político, não é em si mesmo uma condição que impeça a felicidade, porém , não PODER militar num partido, não PODER discordar de um regime, não PODER praticar uma religião, são provávelmente, indícios fortes e incontornáveis de que a felicidade está sob sequestro.
Este ano, um Professor meu, comparou a visita aos Campos de Concentração ao consumo de pornografia, e definiu-os como ane-esthéticos, confesso que foi chocante, mas tentei mergulhar na ideia e compreendi até certo ponto, há uma atitude sombria na procura da contemplação das imagens de morte ( sem sublimação art´stica), apenas fotografias e relatos de vítimas. Aproxima-se do voyeurismo.
A geografia não é redundante, é polissémica!

José Ricardo Costa disse...

Rita, não PODERMOS escolher ou fazer certas coisas não é necessariamente causa de infelicidade. Eu não PUDE ter escolhido ser espanhol ou chinês em vez de português e isso não me rouba felicidade. Não POSSO escolher viver em Portugal como se vivesse na Suécia e isso não faz de mim infeliz. OU PODER escolher viver sem comer chocolates. Eu como chocolates compulsivamente e a minha compulsão (ausência de escolha) não me torna infeliz pois comer os chocolates que eu não posso escolher não comer, faz-me feliz.
Agora, relativamente a PODER militar num partido, criticar um regime ou seguir uma religião, também não é assim tão claro. Se o único fim da minha vida fosse militar num partido e não pudesse fazê-lo, ok, seria infeliz. Se o único fim da minha vida fosse criticar um regime ou seguir uma religião, ok, a mesma coisa. Mas a vida é múltipla, heterogénea, dispersa numa teia de inúmeros pontos, alguns relacionados entre si, outros, separados entre si. Entretanto, depende tudo do modo como iremos hieraquizá-los: é mais importante militar num partido ou ter filhos saudáveis? È mais importante criticar o regime ou poder apanhar sol na praia aos fim de semana? É mais importante seguir uma religião ou ter um casamento feliz e um emprego que me realiza? Depende tudo do modo como olhamos para as coisas e fazemos a gestão dos seus pontos positivos e negativos. Se, pelo contrário, reduzirmos fanaticamente a nossa vida a um só ponto, ok, nesse caso as coisas complicam bastante.

Zekzander disse...

Acho que concordo com o Sr, embora preferisse não concordar. É fato, a Terra não agrega nada. Cada geração a recebe tão nova como Adão no Éden. Aqui mesmo onde vivo, aconteceram massacres terríveis, mas isso não incomoda ninguém (nem a mim, que sei disso), já que foi há muito tempo...

Em Auschwitz existe um convento e as freiras, quando não estão brigando com os judeus que querem expulsá-las, estão brigando entre si pelas mesquinharias do dia-a-dia.

Quanto a ser feliz em uma ditadura, acho também que é possível. Vivi dentro de uma ditadura e também fiz tudo o que o Sr diz ter feito. Estava preocupado com outras coisas muito mais importantes. Agora, na pobreza ninguém é feliz em lugar nenhum.

No filme inglês "Esperança e Glória", uma garotada mostra que brincar entre os destroços de uma Londres devastada pelas bombas nazistas pode ser um grande programa! Em outro filme, “Fim de Caso”, a paixão, o ciúme e o remorso mostram ser mais destruidores que as V2 e a guerra. Acho que pertencemos a uma raça muito leviana...

José Ricardo Costa disse...

Sim, a pobreza é bem mais importante do que a liberdade. A liberdade tem um valor relativo. Mas também em relação à pobreza temos que ter algum cuidado. O que é ser pobre? Se for falta de comida é grave mas se ser pobre for não ter o nível de vida de um sueco a coisa muda de figura.