17 agosto, 2011

A ARTE DE BEM VIVER TODA A CELA

                                                         La Notte, Michelangelo Antonioni (Fotograma)

Imaginemos um rapaz que adora raparigas mas nenhuma rapariga gosta dele. Um dia, desiludido com a vida, decide tornar-se monge para viver longe das raparigas e não sentir a frustração de ser rejeitado por elas. Ele poderá dizer que foi livre de ir para um mosteiro. É verdade que foi. Mas não podemos dizer que é um homem livre por ter ido livremente para o mosteiro. Limitou-se a resolver ilusoriamente um problema, varrendo-o para debaixo do tapete. É como uma pessoa que tem uma dor no braço e resolve o problema, cortando o braço. Mas será que o resolveu? Claro que deixou sentir a dor. Mas será que ele queria ter ficado sem o braço?
Imaginemos agora um rapaz que adora raparigas e é adorado pelas raparigas. Ainda assim, decide tornar-se monge, enclasurando-se num mosteiro. Ora, no mosteiro ele perde a liberdade que tinha lá fora. Lá fora, os outros rapazes podem escolher ir ao cinema, à discoteca, a um bar, ficar em casa a ver televisão, namorar ou não namorar, namorar A, B ou C. O monge, pelo contrário, renunciou a essas escolhas. Só que a sua escolha foi precisamente deixar de escolher. Ele escolheu deixar de escolher e essa foi a sua livre escolha. Neste caso, embora na clausura da sua cela não possa escolher, ele é um homem livre. Ele não arrancou o braço para resolver o problema da dor que não suportava. Ele arrancou o braço simplesmente porque achou que seria melhor para ele não ter braço e que viveria melhor sem braço. Ser livre é ter várias portas à nossa frente e poder decidir em qual delas iremos entrar. Se uma dessas portas for uma porta que nos leva para um mundo onde não podemos escolher, eu continuo a manter a minha liberdade.
Ora, o mesmo se pode passar com o sistema político em que vivemos. Claro que é muito  melhor viver numa democracia parlamentar do que numa ditadura, seja de esquerda ou de direita. Eu gosto de ter uma palavra a dizer sobre quem me governa e gosto de poder criticar quem me governa. Se eu agora fosse um founding father de um novo país formado nas Berlengas, povoado por 30 famílias, iria certamente estabelecer uma democracia parlamentar.
Claro que, politicamente, seria importante para o povo saber que podia tomar decisões e criticar. Mas não seria isso que os iria fazer felizes se decidissem que isso não seria o aspecto mais importante da sua vida. Aliás, o elevado grau de abstenção de muitas pessoas em períodos eleitorais, mostra precisamente isso. Para a sua vida pessoal é indiferente ser governado por A, B ou C. Isso é apenas uma parte da vida. O verdadeiramente importante, o que nos faz felizes ou infelizes, está muito para lá disso.
Claro que não sou livre de poder escolher quem me governa e de criticar quem me governa. Gostaria de ser livre mas não sou. Resta saber que importância terá isso agora na minha vida.
A sua importância depende sobretudo da importância do que eu faço na clausura da minha cela.

6 comentários:

josé manuel chorão disse...

Totalmente de acordo. Ser livre tem de ser poder fazer as suas escolhas, assumindo a responsabilidade do que daí vier.
Abdicar livremente da liberdade é uma forma de ser livre.

José Ricardo Costa disse...

A liberdade pode nem ser um problema. Os gregos, por exemplo, não tinham a angústia da liberdade ou do livre-arbítrio. Passa completamente ao lado de Platão e de Aristóteles. Neste sentido, abdicar livremente da liberdade será ir ainda mais longe do que não a ter como problema.

jrd disse...

Eu tenho uma visão simplista sobre o tema. Não consigo imaginar-me livre numa cela. Quando se está enclausurado num mosteiro, a liberdade vai para o “maneta”...

José Ricardo Costa disse...

Estar preso numa cela? Maneta? Isso faz-me lembrar o fugitivo. Agora a sério: nada de confundir celado com selado.

Rita Tormenta disse...

Quase que o compreendo.
Mas hoje, hoje, a cela tem as barras mais fechadas e o ar não entra.
Ninguém é livre, pelo menos não totalmente, somos libertos de algumas coisas, quando conseguimos, muitos não conseguem.
Quase que concordo mas hoje, especialmente hoje, a cela não é monática, nem redentora, hoje é a solitária.
Claro que a democracia não é um bem milenar, mas quantos ocidentais estarão dispostos a dispensá-la ?

José Ricardo Costa disse...

Gostei da ideia de a cela ser mais solitária do que monástica. Neste caso, é como cortar os dois braços e as duas pernas, ainda que voluntariamente. Pode ser um processo voluntário mas de humano já começa a ter pouco.
Tem toda a razão em relação à democracia. Não a troco por qualquer outro sistema. Mas também não faço dela condição da minha felicidade.