19 agosto, 2011

ANDAM FAUNOS PELOS BOSQUES

                                                      Henri Cartier-Bresson | Rue Mouffetard

Ontem, ao fim da tarde, fui fazer uma caminhada com o meu filho. Uma caminhada campestre por ínvios atalhos por onde só rastejam répteis e adejam insectos, mas por onde também se aventuram temerários seres humanos como os dois que acabo de referir.
Talvez por influências iluministas e republicanas, os seres humanos preferem a vastidão geométrica das avenidas, das praças, dos grandes boulevards ou a panóptica visibilidade dos centros comerciais, aos caminhos que aparentemente não levam a qualquer lado e onde não vemos nem somos vistos por ninguém. Ora, graças a isso, as amoras silvestres lá colocadas por Deus para proveito dos seres humanos estavam todas à nossa disposição, permitindo-nos um belo e silvestre lanche como se fôssemos duas personagens de Virgílio, vagueando livremente pelos bosques. Bem, não completamente à nossa disposição, como por certo não deixarão mentir as marcas dos espinhos que me assolam mãos, braços e pernas, marcas de espinhos essas que, dado o seu contexto pagão, nada tinham que ver com uma paixão como a de Cristo, sendo apenas fruto silvestre da minha paixão por amoras.
Entretanto, passámos por umas belas figueiras, grávidas de muitos e maduros figos. Pelo modo como o terreno estava arranjado, dava para perceber que, ao contrário das amoras, as figueiras não foram lá colocadas por Deus para proveito dos homens, estando certamente inscritas na Conservatória do Registo Predial. Só que nós olhávamos para os figos e parecia que os figos também olhavam para nós. Não sei explicar. Um processo de mútua sedução, sei lá, como se os figos fossem ninfas carentes e nós, dois sátiros, desejando avidamente oferecer a nossa protecção.
Só que, entretanto, caí em mim. Pensei que não éramos sátiros nenhuns. Pensei que estávamos em Torres Novas, que não sou nenhum bode mas professor de filosofia numa das escolas cá da terra, o meu filho passou para o 8ºano, aquelas figueiras têm dono, estão inscritas no Cartório do Registo Predial, comer os figos dos outros é crime, eu sou pai da criatura a meu lado e tenho que dar o exemplo sobre regras de boa conduta moral. Enfim, em três miseráveis e implacáveis segundos viajei de uma idílica Arcádia para o sombrio divã de um psicanalista, lutando ingloriamente com as minhas pulsões que, neste caso, já não eram pulsões de amoras mas pulsões de morte.
Comemos ou não comemos? Comemos ou não comemos? Comemos ou não comemos? Comemos. Pronto, comemos. Claro que, pedagogicamente, expliquei à criatura a meu lado que só estávamos a comer aquela meia-dúzia de figos porque, para quem tinha tantas figueiras à sua disposição o prejuízo não seria grande. E que se estivesse ali e nós lhe perguntássemos se poderíamos comer, não iria dizer que não. E que é como ir ao hipermercado e comer uma uva ou uma cereja para provar.
Transgredimos mas foi uma transgressão bem pesada e medida, saindo de lá com a consciência de que ninguém ficou prejudicado com a nossa transgressão. Mas, mais importante, terá sido para o petiz ainda em crescimento, o elevado significado antropológico da transgressão. Ficou a saber que o pai, se não é um criminoso só por ter roubado meia-dúzia de figos onde existem milhares, também não é um santo por não ter kantianamente resistido à tentação de os comer. Ficou a saber que o pai, como quase todos os seres humanos, é simplesmente uma pessoa normal. Espero que tenha aprendido bem a lição e que a normalidade seja a sua grande conquista como ser humano. 

9 comentários:

josé manuel chorão disse...

Um pássaro teria pousado tranquilamente num ramo e teria comido os figos que lhe apetecesse comer.
Um professor de Filosofia tambem come, mas apenas após se ter angustiado com o dilema e, depois de comer, ficam-lhe dúvidas sobre a (in)correcção do seu acto e, até, sobre as possíveis consequências na educação do seu filho.
Na próxima vida, quando Deus te perguntar o que queres ser, talvez devesses escolher ser pássaro.

José Ricardo Costa disse...

Boa ideia, mas só na condição de Deus me garantir que acaba com as gaiolas.

jrd disse...

Pois eu também me deliciei com umas cerejas que hoje retirei de uma taça de vidro colocada à disposição dos passantes, num supermercado aqui do burgo.
Eu e mais 50, com a diferença de que os outros gostaram foram comprar das ditas e eu, que também gostei, saí pela porta de entrada com as mãos vazias, porque não me dou bem com preços de ourivesaria, até porque não uso brincos...

José Ricardo Costa disse...

Neste caso, não lhe ficou cara a brincadeira.

Ana Paula Sena disse...

Em vez da sesta dos faunos, esse deambular de ambos entre amoras e figos irresistíveis, ainda me pareceu ter mais encanto!

José Ricardo, diverti-me imenso a ler o seu relato. Achei-o, por isso mesmo, extremamente profundo.

...boas férias... e que assim continuem...

José Ricardo Costa disse...

Ana, profundas foram as marcas dos espinhos.

Boas férias também para si nem que seja Espinho com água gelada e manhãs de frio e nevoeiro.

estela disse...

Excelente post, Zé.
Embora eu acreditasse que lhes resistias ;)
e gosto do comentário do José Manuel Chorão, embora devas considerar a possibilidade de seres "figo" na próxima vida ;)

addiragram disse...

Que saudades tinha de o ler...O que tenho perdido. Algum dia fomos todos faunos pelos bosques...

José Ricardo Costa disse...

Estela, simpática a ideia de me transformares em figo. Mas, confesso, prefiro mesmo ficar do lado dos sátiros ;)

Ó addiragram, há quanto tempo, grande abraço!