13 agosto, 2011

ALBRECHT DÜRER | JESUS COM DOZE ANOS ENTRE OS DOUTORES


Lucas não nos diz grande coisa sobre o encontro de Jesus, ainda criança, com os doutores. Do que verdadeiramente interessa, apenas isto: “Volvidos três dias, encontraram-n’O no Templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos quantos O ouviam estavam estupefactos com a Sua inteligência e as Suas respostas.” Mais nada.

Ainda assim, existem muitas representações deste encontro. Representações convencionais que seguem, literalmente, o sugerido no texto: um debate, uma conversa, uma discussão entre um jovem e um grupo de adultos.
Mas o que Dürer faz é outra coisa completamente diferente. Repare-se bem: ninguém fala, discute, argumenta. Há apenas uma amálgama de rostos e de mãos. Afinal, o que está verdadeiramente a acontecer aqui? Nada, absolutamente nada. Nao há comunicação, interacção, perguntas, respostas. Jesus está bem no meio dos doutores mas, ao mesmo tempo, ausente, com um olhar evasivo, vendo o que os doutores jamais conseguirão ver. Os doutores, por sua vez, exprimem diferentes estados: desconfiança, perplexidade, arrogância. Mas nada de diálogo. Arriscaria dizer que, ao retratar os doutores, o pintor alemão estaria a pensar naqueles cães que encontram um outro pela primeira vez e começam a farejá-lo para o estudar. O que os doutores aqui fazem é apenas farejar aquele jovem imberbe, de olhar limpo e expressão inocente.
Onde estão aqui as referências de Lucas? Ninguém ouve ninguém. Jesus não faz perguntas, não responde, não revela a sua inteligência. O mesmo se passa com os doutores. Será que Dürer está aqui a deturpar grosseiramente o que se encontra em Lucas? Será que desprezou o texto, fazendo um exercício completamente livre?
Não, pelo contrário. O que Dürer pretende mostrar é o que verdadeiramente se passou naquele momento entre Jesus e os doutores: nada.  Ora, não mostrando nada do diálogo, do debate, das perguntas e respostas, acaba por mostrar o mais importante: dois níveis de realidade jamais coincidentes. Se pudéssemos geometrizar esta imagem, reduzi-la o mais possível a uma pura abstracção, em vez desta aglomeração de rostos iríamos ficar com duas linhas parelelas, duas linhas que, por muito próximas que se encontrassem uma das outra, jamais se iriam encontrar. Jesus representaria uma linha, os doutores a outra linha, separadas até ao infinito. Frente a frente mas distantes, como dois países vizinhos mas cuja fronteira delimita claramente dois sistemas, duas línguas, duas culturas.
Não há aqui qualquer diálogo entre Cristo e os doutores porque, apesar de Lucas sugerir um diálogo, Dürer entendeu, e muito bem, não haver qualquer diálogo. Ou haver apenas uma aparência de diálogo.
Os doutores reflectem, pensam, estudam, analisam, tentam decidir, tomar opções. Têm nas suas tortuosas cabeças séculos de sabedoria que parece querer soltar-se dos livros entreabertos.  Mas na cabeça daquele menino nada disso existe. Naquela cabeça sucedem-se apenas estranhas parábolas, metáforas cuja evidência reduz a pó todos aqueles quilos de sapiência e erudição.
Cristo não precisa de pensar. E não precisa de pensar pois, como muito bem entendeu Pascal que, por sinal também era matemático e, tal como aqueles doutores, possuia a sapiência própria do seu tempo, o coração tem as suas razões que a razão jamais entenderá. Pois, por muito que se esforce, a razão jamais entenderá o essencial, aquilo que só se compreende quando nada se quer explicar, pois o que melhor se compreende é precisamente o que não precisa de ser explicado. A simplicidade das metáforas e parábolas de Cristo só fazem sentido para os pobres de espírito que pensam com o coração. Os doutores são demasiado complicados, tortuosos e o reino deles não é o do límpido céu mas o pedregoso e sinuoso reino da Terra, no qual será sempre preciso pensar para se poder sobreviver e não se perder. No reino dos céus vive-se, no reino da Terra sobrevive-se. E quem vive num dos mundos nada terá para dizer a quem vive no outro, pois não existem dicionários para traduzir a língua do céu para quem vive na Terra, e a língua da Terra para quem vive no céu.
Eis, pois, porque nesta cena montada por Dürer, o verdadeiro ar que se respira é o silêncio, a incomunicabilidade. Se virmos bem, ainda há dois pares de mãos que se chegam a tocar, ou seja, há ali um vislumbre de contacto, de comunicação, de um pequeno e subtil diálogo gestual. Mas não passa de uma ilusão. Se virmos mesmo bem, percebemos que as mãos do menino estão mais em contacto entre si do que com as mãos do doutor. E as mãos do doutor, ao mesmo tempo que parecem caminhar para as mãos de Jesus, como se quisessem agarrá-las, acabam por falhar a aproximação. Até porque o doutor olha em frente. Como se nem desse sequer pela presença do jovem que ali se encontra. E  o mesmo acontece com todos os outros.
Poderíamos cortar esta tela em sete partes distintas. E ficaria tudo na mesma. Parece a cena de um filme de Antonioni.

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