23 julho, 2011

PAULO NOZOLINO | MY FATHER'S SCAR



Vemos aqui um corpo velho, carcomido, enrugado e que parece adivinhar a morte que se aproxima. Faz lembrar os corpos dos velhos nas enfermarias dos hospitais ou nos campos de concentração. Já vi em documentários corpos nus de velhos em campos de concentração nazis. O que mais impressiona é a naturalidade com que a sua nudez é filmada. Corpos que se tornaram assexuados, desvitalizados. Estão nus mas a sua nudez passa despercebida, é ignorada, como se fossem objectos já previamente preparados para morrer e já sem qualquer memória biográfica do esplendor juvenil de outros tempos.
Estou a pensar nas vezes, e foram já várias, em que vi corpos de velhos, demasiado expostos, em hospitais. Sou quase obrigado a lembrar-me da Lição de Anatomia, de Rembrandt. Um corpo reduzido a um nível puramente clínico, um corpo tão absolutamente exposto como na pornografia mas, ao mesmo tempo, absolutamente anti-pornográfico. Enquanto na pornografia o corpo se expõe para ser visto, no hospital, os velhos podem expor os corpos porque já não são vistos. Enquanto na pornografia, o corpo, enquanto objecto de desejo, atinge uma radical e luxuriante visibilidade, no casos dos velhos, o corpo transforma-se num objecto opaco e invisível.
É por isso que eu gosto desta fotografia. Revela um corpo que surge perante os nossos olhos com uma enorme dignidade. Tendo certamente consciência da decrepitude e ausência de sensualidade do seu corpo, este homem recusa a sua redução a um puro objecto. De um objecto exposto num clássico gabinete de curiosidades onde pode ser observado de um modo distanciado. Neste caso, exibindo intencionalmente a sua cicatriz enquanto marca de um corpo esquartejado por causa da doença, de um cirúrgico desventramento que, qual vanitas, nos remete para a nossa finitude e mortalidade condensadas no pó em que nos haveremos de tornar. Um corpo que foi esquartejado como se fosse o corpo de um animal, um corpo reduzido à sua mera condição de carne. 
Ora, como protege ele a sua dignidade no meio de tanta decrepitude, de tanta carne e pele definhadas e exibindo o seu fim? O que faz ele para tornar esta imagem de si não num cadáver anunciado mas numa still life? Numa natureza que morre mas que ainda vive?
 Escondendo o sexo com a mão. Esconder o sexo, aqui, significa um apego final a um corpo que parece querer deixar de existir mas que ainda é dominado por uma alma que o anima e que teima em resistir à decrepitude desse corpo. Um corpo que, por surgir ainda delicadamente tapado, é ainda um corpo orgulhoso e consciente da sua humana identidade.
Não dizem que a humanidade, a verdadeira humanidade, começou com uma maçã?

2 comentários:

josé manuel chorão disse...

Sim, claro que a Humanidade começou com a consciência. A consciência faz-nos humanos, faz-nos felizes. Mas é, simultaneamente, a fonte da nossa infelicidade, dos nossos problemas, angústias, sofrimento.
Seríamos mais felizes sem a consciência? Provavelmente sim, tudo seria mais fácil. Mas não seríamos humanos, seríamos uns palermas apenas felizes.
Prefiro a infelicidade, se assim tiver de ser. Porque sem consciência eu não era eu.

Anónimo disse...

A dignidade é provavelmente o que nos resta antes de morrermos.