24 julho, 2011

O ROSTO SEM ALMA

                                                                 Lucien Freud | Auto-Retrato

Tudo fazia querer que os atentados na Noruega tinham sido perpetrados por fundamentalistas islâmicos, sendo Mullah Krekar o principal suspeito. Nós olhamos para Mullah Krekar e percebemos logo que tem cara de terrorista. Não estou a ser irónico. Tem mesmo e, pelos vistos, vontade para o ser não lhe falta.
Desde o 11 de Setembro que passámos a achar que tem ar de terrorista qualquer tipo moreno de bigode  ou barba que fala como se estivesse a vomitar e a cuspir ou que reza de rabo para o ar. Por isso, mesmo que Mullah Krekar fosse um simpático ourives do Cairo, um divertido canalizador de Islamabad ou um adepto do Manchester United de Bagdad, teria sempre ar de terrorista.
Mas o que dizer de Ted Kaczynski, de Timothy McVeigh ou de Anders Behring Breivik, o jovem norueguês loiro e de olhos azuis de quem se fala? Que almas ocultam estes rostos? Que continuidade existe entre um rosto e a alma que o anima? Como pode o mal, a insânia, o fundamentalismo falarem inglês, como pode o fanatismo existir dentro de um rosto brando, polido, limpo e com dois olhos da cor do céu?
Será que as pessoas boas têm um rosto que traduza essa bondade e as pessoas más a mesma coisa a respeito da sua maldade? Claro que não.
O rosto humano é intrisecamente neutro, ainda que digamos existirem pessoas com um ar naturalmente bom ou naturalmente mau. Dizendo que é neutro não estou a pensar no facto de existirem movimentos e expressões do rosto que, teatralmente, sugerem um exterior que não tem correspondência no interior, concluindo então que nunca podemos estar absolutamente seguros a respeito do rosto que se encontra perante nós.  
Falo mesmo da estrutura do rosto, do rosto reduzido aos seus elmentos morfológicos e anatómicos, do rosto em si, o rosto pré-social, o rosto anterior a qualquer condicionamento cultural, social, económico ou intelectual. Haverá rostos intrinsecamente inteligentes e intrinsecamente estúpidos? Rostos intrinsecamente ricos ou pobres? E rostos intrinsecamente vaidosos, invejosos, orgulhosos? Claro que existem expressões que revelam vaidade, inveja ou orgulho. Mas não estou a pensar nisso, estou a pensar mesmo no rosto em si, o rosto sem alma.
Pensemos no actor Peter Lorre. Parece apresentar, independentemente dos papéis que representa, um rosto intrinsecamente demoníaco. O rosto de um demente, de um psicopata, de um assassino de crianças. Sim, parece, é verdade. Mas se virmos o seu rosto aqui


que homem demoníaco encontramos? E digo isto independentemente de qualquer maquilhagem que certamente o prepara para os seus papéis mais perversos. Ora o rosto aqui vemos é exactamente o mesmo rosto que vemos aqui:


Existe aqui, no entanto, uma subtil mutação relativamente às fotografias anteriores. Não vemos, é verdade, nada que indicie o que quer que seja de maligno. Mas já não se trata do "mesmo homem", do "mesmo rosto", ainda que anatómica e morfologicamente seja precisamente o mesmo. Se víssemos este homem num café, já não olharíamos para ele do mesmo modo que para os anteriores. Porquê? Há alguma coisa nele que assuste? Não, nada. É apenas um homem triste, preocupado, melancólico, aborrecido. Acontece que no caso de um actor como Peter Lorre, sentimentos como estes não podem ser manifestados como se se tratasse de um outro homem qualquer. Porque são sentimentos que num actor como Peter Lorre sugerem de imediato pensamentos ardilosos ou malignos, associados às habituais máscaras que lhe conferiram uma identidade na história do cinema.
Vejamos agora o caso de um actor como Harrison Ford. Harrison Ford porquê? Porque nos habituámos a olhar para o seu rosto, extraindo dele apenas elementos positivos: coragem, bravura, abnegação, humor, inteligência, amor, amizade.
Vejamos então agora o rosto de Harrison Ford nesta fotografia, abraçado a Michelle Pfeiffer:


Eis o mesmo Harrison Ford de sempre, um rosto que facilmente associamos ao que dele disse há pouco, sem qualquer truque, sem qualquer maquilhagem. E é assim que começamos a vê-lo neste filme, é assim que o vamos vendo ao longo do filme. Acontece,  porém, que, mal começamos a entender o tipo de homem que se esconde por detrás deste rosto, o próprio rosto começa a adquirir um outro significado. Harrison Ford não é Peter Lorre mas facilmente podemos passar a olhar para o seu rosto, atribuindo-lhe o mesmo tipo de identidade que atribuímos a um rosto como o de Peter Lorre.
Os exemplos que acabo de dar servem para jogar com a ambiguidade do rosto ao nível do bem e do mal. Mas podemos ir mais longe.
Por exemplo, nós olhamos para o ex-ministro Mariano Gago e vemos o rosto inteligente de um cientista. Aquele rosto, porém, noutro contexto, poderia ser o rosto de um indigente e vê-lo-iamos precisamente desse modo. Nós olhamos para José Gil e achamos que tem o rosto inteligente de um filósofo, olhamos para Mira Amaral e achamos que tem o rosto típico do tecnocrata. Mas fosse José Gil (ou mais ainda, Fernando Gil) um merceeiro ou um engenheiro e fosse Mira Amaral um poeta e seria assim que os iríamos ver. Custa imaginar o rosto de Mira Amaral como rosto de poeta? Mas será que Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral ou Vasco Graça Moura têm rostos de poeta? E não olhamos para eles e vemos naturalmente três bons (no caso do primeiro, grande) poetas? Porquê? Onde está o rosto de poeta do poeta?
Não me parece, pois, que o rosto humano esteja envolvido por uma capa objectiva que lhe confira uma identidade. Será sempre a alma que o anima a conferi-la. Um rosto sem alma é um rosto morto, um rosto neutro.

3 comentários:

Alice N. disse...

O rosto não diz nada, de facto. São as palavras e os actos que nos revelam a alma. Antes dos actos, a palavra é a primeira arma de destruição maciça ao serviço do terrorismo ou da ilusão. Exemplos não faltam.

Alice Nascimento

josé manuel chorão disse...

Pois é, não se deve julgar um livro (ou um rosto) pela sua capa, antes de o ler. E, para alem de o ler, antes de o sentir, de o pensar, de o reescrever na nossa mente.
Acho mesmo que só se leu verdadeiramente um livro quando invejamos o seu autor, quando gostaríamos de ter sido nós a escrevê-lo.
Só se leu verdadeiramente um livro quando se viveu com ele, quando se dormiu com ele.
O que é que interessam as capas, os rostos? Não passam de máscaras.

Rita TSBGC disse...

( nota prévia : habitualmente comento com desfazamento temporal, quando as ideias me inquietam, guardo-as e sou ruminante, o automatismo, nem sempre produz pensamentos, revela somente o quadro mental prévio, ainda não contaminado pela provocação da leitura)
Este texto força-nos a olhar. A enfrentar o rosto de alguém que pelas suas acções e pressupostos ideológicos, encarna por estes dias a ideia de Mal.
Mas se o Mal for a ausência (Santo Agostinho) então o mal pode ser branco, branco como a cor que reflecte todas os raios do espectro, não absorvendo nenhum.
Num plano muito distante de tudo isto se encontram os actores, e foi aqui que o texto me deu um nó, daqueles que demoram dias a desatar, um actor transfigura-se, utiliza o seu corpo ( ferramenta) para expor alteridades, claro que muitos actores são apenas ferramentas em exposição,mas os mais interessantes, são que que vão de uma ponta à outra do espectro, adquirindo luminosidades e sombras conforme os desafios.
Os actores não pertencem a esta equação.
Anders Breivick tem um rosto, agora com marcas dos seus actos, ainda que sem cicatrizes aparentes, vê-lo-emos sempre associado aos vidros estilhaçados eaos corpos espalhados numa enseada verdejante, ainda que um dia deixemos de o reconhecer.O mundo não tinha qualquer narrativa prévia acerca dele, ele será apenas os seus actos do dia 22 de Julho.
Um rosto, tal como uma pessoa, é a narrativa que se constrói ao seu redor.