04 julho, 2011

MONEY MAKES THE HEADS GO AROUND, THE HEADS GO AROUND, THE HEADS GO AROUND


No post anterior tentei contrariar a ideia de que as conversas a respeito do tempo são mera tagarelice para preencher o vazio entre pessoas que nada têm para dizer entre si.
Desta vez, faço o percurso inverso. Vou invocar um tipo de conversa para a qual não tenho a menor paciência mas que a maior das parte das pessoas considera normal e até pratica com uma voluptuosa imaginação. Refiro-me ao clássico "O que eu faria se tivesse muito dinheiro?" ou " O que fazias se ganhasses o Euromilhões?".
Naturalmente que as pessoas têm direito às suas excitações pequeno-burguesas. Mas não deixa de ser uma excitação regressiva falar do Mercedes, da "bruta" vivenda com piscina, da viagem às Caraíbas ou de cobrir o corpo com os trapinhos que acendem a inveja quando se folheiam as revistas sociais. E regressiva porque faz infantilmente depender a sua identidade, do desejo do que poderá vir a ser ou a ter, projectando a felicidade, não na satisfação dos seus desejos, mas no desejo propriamente dito. Desejar é desejar alguma coisa. O que acontece com os delírios financeiros de quem deseja o que à partida não irá possuir, é infantilmente eleger o próprio desejo em objecto do desejo. A pessoa deseja como um peixe de boca sempre aberta.
Um exercício demasiado raso para quem há milhões de anos se emancipou da restante natureza, até porque quase todos os seres vivos não-racionais vivem e agem em função do que não têm. Ser animal significa viver permanentemente com o que não se tem e agir para poder alcançá-lo. Ser animal é estar à procura.
Considero por isso muito mais interessante um ser humano falar de si a partir do que tem do que do que não tem. Muito mais estimulante do que pensar no que eu faria com muito dinheiro ou como seria a minha felicidade com muito dinheiro, é fazer o seguinte exercício: como posso construir a minha felicidade com o que tenho? Como iria viver se tivesse apenas o indispensável para poder existir? Por exemplo, o que deveria tentar fazer para ser feliz se, amanhã, acordasse desempregado, ou a ganhar 400 euros por mês, ou a viver num T1 na Baixa da Banheira? Para o fazer não basta a imaginação, será precisa também alguma inteligência.
No seu diário, no dia 23 de Agosto de 1949, Pavese escreve o seguinte: "Em arte não se deve partir da complicação. Não partir da fábula simbólica de Ulisses, para despertar espanto; partir, sim, do homem comum e, pouco a pouco, dar-lhe o significado de um Ulisses".
Ele fala da arte mas eu falo da vida. E sabemos que, na vida, há sempre uma criança em cada adulto. É verdade. Mas convém não exagerar.

4 comentários:

Anónimo disse...

Chama-se a isso o "SE Mágico", imaginar.se sem as comodidades parece-lhe interessante por ser apenas um exercício de imaginação.
Exercer essa imaginação fora da ficção é desgastante, não sei se particularmente fecundo.Para muitas pessoas A identidade é assegurada por acessórios que atenuam o pânico do ridículo da alma nua, o despojamento é uma desconstrucção e não uma construcção.

Apesar disso tenho um plano secreto para a eventualidade de ganhar o Euromilhões, quer dizer não é secreto, os meus filhos conhecem-no bem, implica viagens, malas Louis Vuitton ( os baús) Expresso do Oriente, a contratação de um Astrónomo, um Biólogo, um Historiador, um Filósofo, um Poliglota e algumas baby-sitters, o percurso está todo na minha cabeça e é fasbuloso : 2 anos de viagem !!!
Mas enfim, eu não vivo na baixa da banheira mas sou precária ...

José Ricardo Costa disse...

Bem, astrónomo, historiador, biólogo e poliglota, não sou. Mas percebo qualquer coisa de filosofia. Mas tem que me dispensar da corte itinerante quando for de viagem, pois viagens não é comigo. Para compensar pode levar o Alain de Botton.

Rita TSBGC disse...

Obrigado pela sugestão ( Alain de Botton) e pela disponibilidade ( em terra) , já usei o AB para outros fins!!! Académicos, obviamente.
Mas sempre num modo unidireccional !!!
Dilemas inúteis, pois não ganhei o Euromilhões ( talvez por não ter jogado ).

José Ricardo Costa disse...

Ups, não fazia ideia de que o comentário era seu. Hummm, penso que teria que me preparar bem na área da Estética e Filosofia da Arte.