07 julho, 2011

HOMOGENEIDADE


                                                                    Nikolai Bakharev

Cá estou eu de novo, desta vez, tal como disse ontem, para reflectir sobre a noção de normalidade. Mais concretamente, tentar perceber se a homossexualidade será ou não uma doença e se deverá ser encarada como algo de normal ou de anormal. Irei defender que  não se trata de uma doença, nem de uma anormalidade.
Eu não sou médico e, por isso, não sei definir tecnicamente o que é uma doença. Mas, intuitivamente, parece-me que será todo o estado físico que retira à pessoa a possibilidade de levar uma vida normal, isto é, sem dor ou limitações causadas por este estado físico embora tais dores e limitações possam ser disfarçadas ou superadas através de intervenções farmacológicas ou cirúrgicas. Isto é válido para a diabetes, hemofilia, constipação, cancro, bronquite asmática ou coluna torta, tudo o que implique dor ou limitação e que, nalguns casos,  na ausência de um tratamento eficaz, pode levar à morte. De acordo com esta definição não me parece que um homossexual seja um doente. Gostar de pessoas do mesmo sexo não provoca  dor nem tem que estar na origem de limitações. E  mesmo que estivesse, temos que perceber que uma limitação não é necessariamente sintoma de uma doença. Ser limitado para aprender línguas, fazer o triplo mortal ou cozinhar não faz da pessoa um doente. 
Poder-se-á dizer que há homossexuais infelizes por o serem, do mesmo modo que um tuberculoso também o poderá ser em virtude da sua doença. Mas não é correcto pensar assim. Não é ser ou não ser homossexual que faz uma pessoa feliz ou infeliz. Poder-se-á dizer que há pessoas infelizes por serem homessexuais. Sim, é verdade. Mas dizer que alguém é infeliz por ser doente é muito diferente de dizer que a causa da infelicidade tem que ser explicada através da doença.
Imaginemos um estudante de Enfermagem infeliz porque queria ter entrado em Medicina e não conseguiu. Não entrar em Medicina não é uma doença, embora seja a causa da infelicidade deste jovem. Ele é infeliz porque faz o que não desejava e não faz o que desejava. Pensemos então agora num homossexual que é infeliz porque desejaria não o ser. É a mesma coisa. O facto de ele desejar ser heterossexual e rejeitar a sua homossexualidade não faz desta uma doença.
Em suma, não me parece, pois, haver motivos para considerar a homossexualidade uma doença. Agora, será a homossexualidade um estado normal ou anormal? A resposta a esta pergunta é mais complexa do que a anterior.
Começo por dizer uma coisa que será óbvia para toda a gente:  a normalidade não pode ser entendida com base num critério estatístico. Não é pelo facto de haver mais pessoas que gostam de X e menos pessoas que gostam de Y, que faz com que as pessoas que gostem de Y sejam anormais. O facto de haver um reduzido número de pessoas que gostam da música de Emanuel Nunes ou dos filmes de Manoel de Oliveira, não faz delas pessoas anormais. Podem ser pessoas diferentes mas não são anormais.
De um ponto de vista estrito, mas mesmo muito estrito, a homossexualidade é uma anormalidade. Por razões biológicas e evolutivas. Embora hoje se fale muito de sexo como factor de felicidade, de auto-realização, plenitude existencial, psicológica e o diabo a sete, o sexo, antes de mais e acima de tudo, serve para os animais e as plantas se reproduzirem. E para haver reprodução o elemento masculino tem que ser atraído pelo elemento feminino e não pelo masculino, o elemento feminino tem que ser atraído pelo masculino e não pelo feminino. Ponto final, parágrafo.
Porém, o facto de haver pessoas que não gostam das do sexo oposto e se sentem atraídas por pessoas do mesmo sexo, não faz delas pessoas anormais. É normal as pessoas não andarem constipadas. E se é normal não andarem constipadas, significa que não é normal andarem constipadas. E não o digo apenas porque a maior parte das pessoas não anda, de facto, constipada. Ou seja, por razões estatísticas.
Mas será mesmo uma anormalidade estar constipado? A constipação é, insisto, um estado anormal porque o normal é não andar constipado. Mas andar constipado não faz da pessoa um anormal, pois o ser normal pressupõe necessariamente elementos anormais, ou seja, um desvio face a um padrão, visto não sermos entidades perfeitas, ideais, mecanicamente reguladas, cujos comportamentos são rigidamente previsíveis de acordo com um plano idealmente estabelecido. E é pois neste sentido que a anormalidade faz parte da própria normalidade.
Há quem possa achar esta analogia má pelo seguinte. Todos nós já nos constipámos mas deixámos de estar constipados. É um estado temporário que se supera após alguns dias. Ora, ninguém é homessexual durante dois dias ou uma semana. Logo, não será correcto comparar uma simples constipação com a homossexualidade.
Então, e se for um diabético? Um diabético é sempre diabético. E é verdade que o normal é não ser diabético. As pessoas não nascem diabéticas e quase todas vivem a sua vida sem se tornarem diabéticas. Neste sentido, ter diabetes é anormal. Mas será que um diabético é um anormal só porque não é um não-diabético, isto é, normal? Não, é normal. Porquê? Porque a diabetes é uma doença normal, é normal as pessoas terem diabetes apesar de o normal ser efectivamente não os ter.
Penso que é isto que se passa com a homossexualidade. À partida parece-me mais normal os homens sentirem-se atraídos por mulheres e as mulheres por homens. Penso que é sensato dizê-lo, não por razões ideológicas, religiosas, morais, mas por uma constatação empírica sobre o que representa biologicamente o sexo, ser macho ou fêmea, masculino ou feminino, homem ou mulher. Mas isso não faz com que um homossexual seja um anormal. Porquê? Porque é normal haver pessoas que gostam de pessoas do mesmo sexo.
É normal as pessoas desejarem ter filhos? Sim, é normal. E será normal as pessoas rejeitarem a ideia de terem filhos? Provavelmente, não. Se fosse normal as pessoas não desejarem ter filhos, a natureza estaria a portar-se muito mal. Todos os seres vivos acasalam para terem descendência e os seres humanos não são excepção. Mas isso faz com que olhemos para uma pessoa que não quer ter filhos como anormal? Não, claro que não. Uma pessoa que não deseja ter filhos é tão normal como uma pessoa que deseja ter filhos apesar de desejar ter filhos ser mais normal do que não os desejar.
Só quem acredita numa humanidade perfeita, marcada por um padrão rígido e único, ousará falar de normalidade e anormalidade como conceitos disjuntivos. Quem compreender a humanidade tal como ela é, irá perceber que a anormalidade faz parte da própria normalidade, havendo um tipo de anormalidade que é absorvida pacificamente pela própria normalidade.
Agora, há ou não critérios para saber identificá-la, ou, pelo contrário, ficamos condenados a caír no domínio do arbitrário e do subjectivo? Há, claro que há.
Não é normal andar a matar pessoas para as guardar durante meses na arca frigorífica apesar de haver pessoas que o fazem. Não é normal desejar ter relações sexuais com crianças apesar de haver pessoas que o desejem. Não é normal sentir prazer em torturar pessoas apesar de haver pessoas que o sintam. Não é normal um milionário sentir necessidade de roubar chocolates no supermercado apesar de haver milionários que o fazem.
Ou seja, o simples facto de haver pessoas que façam X ou Y, não faz de X ou Y uma coisa normal. Porque há comportamentos e atitudes que interferem com o nosso sentido comum de decência, com a nossa sensibilidade moral relativamente ao que consideramos ser correcto ou incorrecto, justo ou injusto, desejável ou repugnante. Eu posso ser incapaz de beijar uma pessoa do mesmo sexo mas entendo que haja pessoas que o desejem e não considero isso anormal. Porém, no que diz respeito a matar pessoas para as congelar, não sou apenas incapaz de o fazer como considero aberrante haver pessoas que o fazem, apesar de saber que é normal haver pessoas que o fazem porque são doentes, psicopatas, loucas.
Como psiquiatra poderei explicar que é normal a pessoa X gostar de matar outras para as congelar. E que é normal a pessoa B precisar de matar outras para ter relações sexuais com elas. Mas o facto de ser clinicamente normal não faz dela uma pessoa normal.
Ora, a compreensão a respeito do que é a homossexualidade passa completamente ao lado destes casos, estes sim, verdadeiramente anormais. Estamos, a meu ver, perante pessoas normais que, com a sua anormalidade, se poderão perfeitamente confundir com todas as outras pessoas que terão, cada uma à sua maneira, as suas igualmente anormalidades. E ainda bem que assim é.
Uma sociedade composta de pessoas absolutamente normais seria um verdadeiro pesadelo.

2 comentários:

josé manuel chorão disse...

Quando chegará o dia em que todos seremos livres de fazer o que bem entendermos, sem termos de prestar contas nem ao vizinho do lado nem ao Estado?
Mas por que carga de água alguem se considera no direito de classificar esta ou aquela forma de sexualidade como 'normal' ou 'anormal'?
No meu entender, normal é o que cada um decidir praticar livremente, sem forçar ninguem a nada que seja contrário à sua livre vontade. Se é o que quero e me faz feliz, é normal; seja de que forma for, seja com quem for, por trás, pela frente, por cima, de lado ou com uma perna às costas. O problema é meu. E o Estado que vá para o raio que o parta, legislar para outra freguesia.

Mar Arável disse...

Obvia mente