25 julho, 2011

GAUGIN - O CRISTO AMARELO



Para a Alice, que gosta de amarelo

Há muito que queria falar sobre esta pintura de Gaugin mas nunca consegui solidificar as minhas gasosas intuições na terra firme de um discurso inteligível. Ou melhor, as minhas intuições eram aparentemente claras. Porém, não deixava de sentir que eram insuficientes, que ficariam sempre aquém da sua verdadeira essência enquanto quadro.
O que via eu aqui? Para já, uma visão puerilizada da atroz crucificação de Cristo. Cristo está pregado na cruz com a expressão de um bebé que dorme serenamente depois de amamentado. Rodeado por três mulheres que o acompanham na sua agonia como se bordassem ou descascassem ervilhas ao fim da tarde. Ao fundo, um homem trabalha no campo, completamente indiferente ao motivo principal. Não há, portanto,  qualquer manifestação de emoções conturbadas, rostos que choram ou que transmitam uma dor lancinante. Um mero stabat mater bucólico que exibe um Cristo crucificado  como se fosse um processo tão natural como as vindimas, as sementeiras ou a colheita dos cereais, seguindo os procedimentos formais clássicos ao projectar um acontecimento histórico no seu próprio tempo.
Ora bem, mostrará esta representação da paixão de Cristo, o plano idiossincrático do pintor? Eu não sei nada acerca do pintor. Não sei se é religioso. E, se for, se é muito ou pouco. Não sei se é ateu. E, se for ateu, se é um ateu indiferente ou um ateu enraivecido e anti-clerical. Não posso dizer, por isso, o que pretende ele com este quadro. Tudo leva a querer que é ateu, pintando com desdém a morte horrível de um deus remetida para o imaginário infantil, para uma pré-racionalidade infantil que retira naturalmente densidade ao insuportável peso da realidade. Mas também poderei pensar que se trata da representação mística ou fervorosamente religiosa de alguém que desvaloriza a agonia, a dor, o sangue, fazendo-nos mostrar a aparência disso face ao mais importante de tudo: a ressurrreição, a subida de Jesus Cristo ao céu a caminho da eternidade .
Mas será que um pintor pensa como um teólogo, um filósofo das religiões, um sociólogo das religiões? Claro que um pintor pode interessar-se pela abstracção das teorias. Mas, enquando pintor, um pintor é, acima de tudo, um pintor. A sua estrutura mental não é feita de teorias, conceitos, de princípios, de argumentos, de fórmulas. A sua estrutura é feita de cores, de texturas, de linhas, de formas, de perspectivas. E será com este pressuposto que deveremos tentar entender este quadro.
O que Gaugin quis aqui fazer foi salvar, enaltecer, dignificar o amarelo. O mundo do pintor é um mundo de cores e, nesse mundo, não são as cores que existem para explicar as coisas mas as coisas que existem para explicar as cores. Ora, ao pintar um deus de amarelo, o nosso deus e não uma qualquer sincrética divindade do Taiti, está a divinizar o amarelo, uma cor que muito dificilmente será a cor preferida de alguém.
Ninguém escolhe o amarelo como cor preferida. Pode ser o azul, o castanho, o preto, o branco, o verde, o vermelho, enfim, muitas cores. Mas dificilment alguém assumirá o amarelo como cor preferida.
 E apesar do amarelo na bandeira do Vaticano, para o senso comum, é quase sempre sentido como uma cor pouco séria, infantil, algo regressiva. Nunca associamos o amarelo a momentos solenes, a momentos de felicidade ou de sofrimento. Não é espiritual mas também não é sensual. Será quase aquela cor que resta depois de termos preferido as outras.
Esta pintura será, pois, sobre a possibilidade do amarelo, a salvação absoluta do amarelo consubstanciado numa entidade absoluta. A possibilidade do amarelo para além das cores do campo ou do Sol. Pintar um deus de amarelo, ou um deus no amarelo, numa linha de continuidade entre o primeiro e o segundo plano do quadro, eleva portanto o amarelo a cor tanto do profano como do sagrado. A cor que tanto simboliza a renovação da natureza como a renovação de um homem que morre para ressuscitar como um verdadeiro deus.
Como se pronuncia amarelo em francês?

5 comentários:

josé manuel chorão disse...

Tudo é estranho e anacrónico neste quadro: as casas, as roupas das mulheres, por exemplo.
Mas olha que o homem lá atrás não trabalha o campo; a mim parece-me que ele salta um muro, perseguindo duas mulheres que se afastam dele. Cristo, indiferente a tudo isto, teima em permanecer morto.
A vida continua, indiferente à morte de Cristo.
Todos morrem, excepto a morte em si. A vida, porém, prefere ignorar esse facto.Interessante...
Estranho, no entanto, a tua estranheza em relação à cor amarela; amarelo sempre foi a minha cor favorita; e não a escolhi depois das outras, escolhi-a antes de qualquer outra.
As outras cores parecem-me ridiculamente pobres, face à riqueza do amarelo: amarelo é luz, alegria (mas alegria contida, não a alegria parola que nos levaria, por exemplo, a cantar ou a dançar, como bêbedos; antes uma alegria consciente, interiorizada, sábia). Amarelo é a cor da sageza, da literatura, da espiritualidade. Amarelo é a cor da revelação, dos segredos que se desocultam ao nascer do Sol, suprema fonte da cor.
Amarelo é a cor do olhar de quem sabe guardar um segredo que não revela.
Já a minha mãe, em criança, me chamava 'amarelo', a brincar; e não era porque eu fosse fura-greves, era pela minha preferência.
Não te moverei um processo judicial por isto, mas gostava que repensasses essa tua estranheza pelo facto de haver alguem que prefira o amarelo a todas as outras cores.Há gente capaz de tudo, acredita, meu amigo.

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Ricardo Costa disse...

Zé, quem te manda a ti estragar a minha teoria? Bolas, pá.

Alice, obrigado pelo belo comentário. Amarelo não fico nada, deixo a cor para os artistas. Fico é vermelho com o exagero do elogio.

josé manuel chorão disse...

Podes sempre contar comigo para te estragar as teorias.
Não é por mal nem para ser chato; é porque acredito, sinceramente, que é da oposição de ideias diferentes que pode nascer algum equilíbrio.
Ninguem, por si só, é dono da verdade; muito menos eu, que só possuo erros e dúvidas. Mas, pela discussão, talvez me aproxime dela um pouco mais.
Alem disso, gosto de facto do amarelo, na arte e na vida (cada maluco sua mania, que se há-de fazer?...)

Ana Paula Sena disse...

José Ricardo, eu sempre adorei amarelo, e depois de o ler, não podia deixar de o assumir :)