02 julho, 2011

FRAGONARD OU A INOCÊNCIA PERDIDA







Um dia andava eu num dos meus habituais passeios matinais pelo campo e, ao passar por uma quinta, fui dar com dois porcos num intenso e empenhado processo de acasalamento. Talvez atraído pela raridade da situação ou então por uma simples curiosidade científica a respeito da vida animal, decidi interromper o passeio para observar aquele momento de suína paixão.
Mas eu sou de filosofia, não cientista, e, mais do que me concentrar na observação do processo, dei por mim a olhar para dentro da minha consciência. De imediato, deixei de reparar na complexidade ergonómica do acto suíno, substituída pela consciência do meu face a face com o apaixonado casal. Eu olhava para eles, eles olhavam para mim. Eu, na situação de espectador, eles, na situação de actores de um acto biológico, forçado pela sua natureza.
O que achei mais inquietante nesta situação foi eu estar a olhar para eles, sabendo que eles sabiam que eu olhava para eles, mas continuando a praticar o seu acto como se eu não estivesse a olhar para eles. No fundo, um brutal contraste entre a total visibilidade dos animais e a minha total invisibilidade. Eu estava ali como se fosse um fantasma. Estava lá, é verdade, eles viam-me, mas despojando-me da minha consciência, dos meus quadros mentais e morais, roubando-me a minha identidade moral através da violenta inocência do seu olhar sobre mim. De repente, senti-me como Ulisses cuja vida iria estar em risco por causa do canto das sereias, só que, neste caso, sentindo que o olhar inocente dos porcos sobre mim estaria a roubar-me a humanidade, 2000 anos depois de valores morais e de referências culturais sobre os meus ombros. Olhando para o olhar dos porcos, senti vagamente a possibilidade de, como na ilha de Circe, me transformar igualmente num deles, reduzindo o meu olhar a uma pureza e inocência que tinha tanto de atractivo como de repulsivo.
A experiência por que passei naquele dia é muito parecida com a minha experiência perante alguns quadros de um dos meus pintores preferidos: Fragonard. Estes quadros que seleccionei para vos mostrar, apesar de muito diferentes, apresentam um denominador comum: o conflito entre a leveza ou inocência da inconsciência e o peso da consciência. Vou dividi-los em três partes.
A primeira parte engloba os dois primeiros quadros, tendo ambos como protagonistas uma rapariga e um cão (ou cadela, neste caso é indiferente).
As raparigas estão ambas deitadas na cama, muito provavelmente acabaram de acordar e brincam com os seus cães. A sua sensualidade é por demais evidente. Não apenas na pose dos seus corpos mas também pelo modo como esses corpos são parcialmente descobertos. No primeiro quadro há ainda um pormenor que faz com que a sua sensualidade atinja um plano que tem tanto de elegante subtileza e finura como de erotismo quase grosseiro: a coincidência entre os pelos da cauda do cão com a zona púbica da donzela.
Mas apesar da forte sensualidade de ambas as situações, tal sensualidade só existe na nossa consciência. O que nós ali vemos nas brincadeiras entre as raparigas e os cães, são dois seres vivos precisamente no mesmo plano de existência e de inconsciência. Uma brincadeira sem culpa, sem mácula, dois corpos que se desnudam perante o olhar de dois cães que não vêem qualquer nudez pois só há nudez onde há consciência da nudez.
Ora, é também isso que se observa na série cujos actores são raparigas e figuras angélicas. Os anjos não são cães mas, na sua inocência e inconsciência, estão exactamente ao mesmo nível. No primeiro quadro, o seio de Vénus surge como verdadeiro centro de gravidade da imagem, do qual não podemos escapar. Mas enquanto somos atraídos para esse centro que tem tanto de natural (a amamentação, o leite, o vínculo entre mãe e bebé) como de erótico e de sensual, o olhar de Cupido apenas se dirige para o alto, ignorando por completo o que nós, enquanto espectadores, não conseguimos ignorar.
No terceiro quadro desta série, o choque entre a nossa consciência do corpo e a inocência de uma consciência sem olhar é ainda maior. Neste quadro, a pose erótica atinge o seu esplendor, estando os anjos numa comunhão quase carnal com a jovem mas, certamente, sem a consciência dessa comunhão. Curiosamente, a inocência dos anjos e da jovem aumenta ainda mais a sua carga erótica e sensual. Como se a nossa consciência da sua inconsciência nos fizesse aumentar ainda mais a consciência da nossa consciência. Quanto mais sentimos a inocência dos anjos perante o corpo nu da jovem, mais sentimos a presença desse corpo nu na nossa consciência sem inocência. E a tensão erótica do quadro joga-se toda neste jogo entre dois distintos planos de consciência.
A última série, que inclui os dois últimos quadros, sendo completamente diferente não deixa de ser interessante. Entramos, digamos assim, num plano mais romântico, cujo pathos erótico é nulo mas onde o jogo entre dois níveis de consciência permanece decisivo.
No primeiro quadro temos uma rapariga com uma carta de amor. No segundo quadro, chamado "Le Souvenir", vamos encontrar uma outra rapariga numa pose de nostalgia perante um encontro amoroso ocorrido anteriormente. Mais uma vez, a oposição entre o plano da consciência humana e da inconsciência animal é evidente. Só que, neste caso, os próprios actores humanos, as raparigas, adquiriram a consciência que nós já possuíamos antes enquanto espectadores.
A primeira rapariga está apaixonada, tendo certamente consciência da sua paixão. A segunda rapariga está triste e obviamente que tem a consciência da sua tristeza. Nós, espectadores, como seres humanos que já se apaixonaram e que já se entristeceram, estabelecemos desde logo, através de uma imaginação empática, uma identificação com ambas as raparigas, entrando directamente na intimidade da sua paixão e da sua tristeza e nostalgia. 
Ora, e os cães? Mais uma vez os cães. Os cães assistem às manifestações emocionais das raparigas mas sem nada entenderem. Os cães podem sentir atracção pelo sexo oposto, podem entristecer-se quando vêem partir o dono ou alegrar-se quando vêem o dono chegar, mas não sabem o que é a tristeza e a alegria. Uma coisa é estar alegre ou triste, outra será ter a consciência da alegria e da tristeza. E é esta descontinuidade que, mais uma vez, Fragonard nos consegue mostrar, só que, neste caso, mais no plano das emoções e dos sentimentos e não dos corpos, da sensualidade e do erotismo.
Ver estes quadros representa entendermos o que somos como seres humanos e o que já não somos capazes de ser, ainda que o quiséssemos Podemos tentá-lo através da pornografia, do amor-livre, da provocação pura e dura, de uma auto-marginalização face às convenções morais. Só que reagir face à norma continua a ser uma dependência face à norma. Ser reactivo continua a ser uma acção consciente, no mesmo plano da acção que queremos rejeitar.
Não há hipótese. A maçã foi trincada e, a partir daí, já ninguém consegue parar a sua digestão.  

1 comentário:

josé manuel chorão disse...

O tema da inocência tem muito que se lhe diga.
Fragonard sabia-o bem...