26 julho, 2011

FRAGONARD | O BALOIÇO


Para o PR, que ainda há-de vir a gostar de Fragonard

Eu juro que não sou um daqueles freudianos exacerbados que transformam uma escova de dentes num símbolo fálico ou que vêem num sonho com ouriços-cacheiros a expressão de uma infância sexualmente recalcada. Mas eu não consigo olhar para O Baloiço, de Fragonard, sem deixar de ver um dos quadros com mais densidade erótica da história da pintura.
Ter densidade erótica não é necessariamente uma qualidade. Não é por ter densidade erótica que gosto dele. Mas porque é uma densidade erótica elegantemente depurada, como uvas esmagadas transformadas num bom e raro vinho.
Eu sempre gostei de Fragonard, especialmente deste quadro, e até já fui gozado por causa disso. Em Londres, quis ir propositadamente à Wallace Colection só para o ver. E vi-o. Vi-o com olhos de ver. Com o mesmo inebriamento e devoção com que também já vi o Enterro do Conde de Orgaz ou As Meninas.
Com alguma imaginação, podemos vislumbrar sinais eróticos onde, à primeira vista, não parecem existir. Refiro-me ao movimento do baloiço ou ao sapato que salta. Mas a chave, para mim, está numa área aparentemente neutra ou inocente: na folhagem que envolve o homem que se encontra deitado.
Estarei a exagerar? Repare-se então na diagonal que vai desde o chapéu da mulher ao braço direito do homem. A folhagem, na parte superior, começa precisamente onde acaba o espaço ocupado pelas pernas da mulher. Por sua vez, na parte inferior, as pernas do homem vão desaparecendo por uma fenda cuja área é delimitada pela folhagem.
Vamos agora pôr o baloiço a andar para a frente e para trás. Quando a mulher chega à frente, ao ponto máximo de aproximação do homem, não chega a tocar nele. Mas também não precisa. Rodeado de toda aquela folhagem e já com parte do corpo absorvido pela subtil fenda que limita, no plano inferior, a diagonal que atravessa as pernas da mulher, assume-se uma unidade entre ambos. Uma unidade alcançada sempre que o baloiço desce, reforçando, desse modo, o ar deleitado com que estas criaturas de Deus regressam ao jardim do qual os seus remotos e bíblicos antepassados foram expulsos por um Deus casmurro e com mau feitio. Um Deus feito para figuras feitas para viver no deserto, entre a areia e o vazio, como Moisés, Abraão ou Jacob, mas não para quem aspira à felicidade num inebriante, luxuriante e imaculado jardim.
Fragonard é muito mais do que um simples e vazio rococó para aristocratas galantes. Fragonard é a reconquista da felicidade.

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

Eu hoje até estava tentado a concordar contigo.
Mas, depois dessa tua interpretação psicanalítica, reparei no homem que, atrás da mulher e armado de cordas, empurra o baloiço, oferecendo, assim, a mulher aos devaneios do outro homem, o que está deitado.
E então, se há um homem a oferecer uma mulher a outro homem, para mim acabou-se já aqui a beleza, o romantismo. Ficou o deboche, a depravação.
A seguir, reparei na cara de parva da mocinha(alem de feia), parece uma das minhas alunas de curso profissional, burra todos os dias...e acabou-se de vez o devaneio.
Uma mulher, para ser Mulher, tem de ser inteligente. E bela.
Bela por si só, sem acrescentos artificiais. Sem empurranços. Senão, não é bem mulher.
Por mais que se ponha em bicos de pés ou que a balanceiem para trás e para a frente.
Trata-se, então, de um estafermo que se tenta prostituir.
(Desculpa lá se choquei a tua sensibilidade, eu vejo a coisa assim...)

PR disse...

Obrigado Zé, eu só não gostaria de estar no lugar do anjinho que a todos o momento vai levar com o “delicado” chinelo da senhora…
Cumprimentos PR

José Manuel Vilhena disse...

...e quanto tempo se aguenta uma "felicidade" assim?