20 julho, 2011

A EXPLICAÇÃO DOS PÁSSAROS

         

Acordo todas as manhãs, não com as notícias da TSF, mas embalado por um sinfónico esplendor ornitológico. Eu sei que o que se passa no mundo é importante. As agências de rating, as escutas ilegais do jornal do Murdoch, possíveis novidades a respeito da avaliação dos professores, as contratações do SLB, eu sei lá.
Mas é lixo. Um lixo importante, mas lixo. Um lixo que todo o cidadão consciente, informado e responsável deve tratar diariamente, mas lixo. Porque, no fundo, a informação não passa de um conjunto de despojos abruptamente despejados todos os dias na minha consciência. O Eduardo veio para o Benfica e o Murdoch está a ser investigado. A minha consciência está a ser preenchida pela vinda do Eduardo para o Benfica e pelo ar arrependido do Murdoch. Mas quem raio são o Eduardo e o Murdoch para formarem os conteúdos da minha consciência? E se o Eduardo não tivesse vindo para o Benfica? Se não tivesse vindo, eu não estaria a pensar agora nisso. Eu não pensei na vinda do Rui Patrício para o Benfica. E, não pensei, porque, de facto, o Rui Patrício não vem para o Benfica. Mas qual é a diferença entre pensar que o Eduardo vem para o Benfica e não pensar que o Rui Patrício não vem para o Benfica? Se o Eduardo não viesse para o Benfica eu não estaria a pensar nisso do mesmo modo que não penso na vinda do Rui Patrício. A ordem de realidade é a mesma, só que um facto é positivo e o outro negativo. E o que é negativo podia ser positivo, o que é positivo bem podia ser negativo.
Agora, porque devo eu acordar com notícias destas? Com o que é e poderia não ser, em vez de acordar com o que não é só porque não chegou a ser mas bem poderia ter sido? Com a gasolina que subiu mais dois cêntimos, que o Macário Correia já concorda com as portagens na Via do Infante, que o sr Kohl desancou na sra. Merkel ou que fechou mais uma fábrica em Alguidares de Baixo. Lamento muito que a fábrica tenha fechado, lamento muito pelos trabalhadores, pelos filhos dos trabalhadores, pelas merceeiros onde os trabalhadores fazem as despesas mensais e já devem há dois meses, pelos delegados sindicais e assim. Eu não sou insensível, bolas. Lamento mesmo.
Mas não quero acordar com isso. Tenho o direito de não acordar com isso. Eu quero, sim, acordar com os passarinhos, ser embalado pela genésica linguagem dos passarinhos, limpar a consciência com flutuações melódicas que desinfectam o mundo.
O importante, como a rosa, são os passarinhos. O Eduardo há-de um dia deixar de jogar, a gasolina há-de voltar a subir ou a descer ou até o petróleo acabar, a fábrica de Alguidares de Baixo há-de ser substituída por uma agência imobiliária ou um supermercado em Alguidares de Cima ou por uma fábrica na China ou na Indonésia ou na Roménia, mas os passarinhos continuarão a cantar e isso é que importa.
Eu só quero que os pássaros continuem a traduzir nos meus ouvidos as felizes e coloridas harmonias de Matisse condensadas no ar fresco de todas as manhãs do mundo, que me desenhem nos ouvidos as dúcteis e silenciosas personagens de Matisse metamorfoseadas em cor, e me expliquem diariamente o que têm para explicar. Não peço mais nada. Quando acordo é só mesmo isso que preciso de saber.

7 comentários:

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Artes e escritas disse...

O cravo me caiu bem esta noite, com todas as coisas que eu não entendo, mas que levo adiante de acordo com os meus pensamentos. Você não imagina o bem que me fez com esse post! O show tem que continuar. Um abraço, Yayá.

José Ricardo Costa disse...

:)Obrigado, Yayá, fico contente por si.
JR

Rita TSBGC disse...

Emily Dickinson
THESE are the days when birds come
back,
A very few, a bird or two,
To take a backward look.

These are the days when skies put on
The old, old sophistries of June,--
A blue and gold mistake.

Oh, fraud that cannot cheat the bee,
Almost thy plausibility
Induces my belief,

Till ranks of seeds their witness bear,
And softly through the altered air
Hurries a timid leaf!

Oh, sacrament of summer days,
Oh, last communion in the haze,
Permit a child to join,

Thy sacred emblems to partake,
Thy consecrated bread to break,
Taste thine immortal wine!

Pássaros e slêncios são privilégios !!!

ANA disse...

que bom ler este post a meio da semana, fez-me lembrar que dentro em breve estarei isolada no cimo da Gardunha a acordar com o cantar dos passaros e a adormercer com a voz das rãs, dos grilos e de tantos outros animais da noite... E vou poder olhar o céu e ver todas as estrelas a brilhar na noite escura...

josé manuel chorão disse...

Exactamente.
Há uma ditadura das notícias que acaba por dar um tremendo poder aos jornalistas, o poder de influenciar o que pensam as outras pessoas. Por mim, há anos que não ouvia falar da TSF, até pensava que já não existia. Eu tenho direito a não saber o que eles querem que eu saiba.

jrd disse...

Excelente.

É por isso que eu opto por ouvir essas notícias antes de dormir, porque na manhã seguinte já as esqueci.
Quanto à explicação dos pássaros, que lástima, só às vezes, quando vou para o meu refúgio.
Aqui, na grande urbe, só escuto o piriquito da vizinha, que deve estar cansado de explicar que quer sair da gaiola e ser livre, mas a dona, carcereira cruel, não o liberta.