31 julho, 2011

DOS CONSERVADORES


Há coisas na vida que parecem ter sido feitas umas para as outras: o sol e a praia, as ruínas e as heras, Sintra e o romantismo, os quartetos de Mozart e as manhãs de Primavera, o branco e o azul das casas alentejanas,  Fred Astaire e Ginger Rogers.
Um outro bom exemplo de casamento perfeito é  o do café com o pastel de nata. Há muitos anos que assim é. Como se fosse uma verdade intocável e absoluta, um eidos platónico inteligivelmente saboreado na boca dos portugueses. Um casamento perfeito, não porque os portugueses gostam dele. Pelo contrário, gostam dele precisamente por ser perfeito.
Pelo Fugas de ontem fiquei a saber que alguém se lembrou de que podem existir outras bebidas que combinem bem com o pastel de nata, nomeadamente vinhos generosos. E da ideia se passou à prática, organizando-se uma prova em que 24 jurados (jornalistas, gastrónomos, escanções, chefs) irão avaliar se o pastel de nata combina melhor com um Taylor's Tawny 20 anos, um moscatel Bacalhôa 2005, um Abafado Quinta de Alorna 5 anos, entre outros vinhos seleccionados.
Ora bem, eu sou conservador mas não um conservador tirânico e casmurro. Era só o que faltava vir agora negar o prazer de comer um pastel de nata com vinho do Porto a quem sente esse prazer. A minha questão não é a liberdade individual para fazer o que mais se gosta mas o modo como, na história, muitas vezes se perdem no poço do tempo coisas perfeitas, seja por interesses económicos, seja por uma obsessiva e ansiosa necessidade de fazer coisas diferentes ou uma espécie de neura face ao passado, ainda que se trate de um passado que não apenas funciona mas funciona muito bem.
Significa isto que, nas próximas gerações, em virtude de certos mecanismos sociais bastante subtis entre as classes altas e médias, podemos vir a encontrar pessoas para quem o pastel de nata pede naturalmente um vinho generoso em vez de café tal como hoje no cinema um filme pede uma caixa de pipocas e o interior de uma loja pede música em altos berros. Não por uma questão de gosto ou porque seja melhor, mas porque uma tradição perfeita foi ficando esquecida no fundo do poço até ficar completamente seca.
Neste caso o meu problema é em relação ao café com o pastel de nata mas, no fundo, é em relação a tudo o que já perdemos de bom sem nunca termos chegado sequer a conhecer. Sacanas.

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

A nostalgia do que nunca foi chega, normalmente, pela meia idade. A mente humana tenta, assim, fazer escolhas para a próxima metade da vida.
Inútil. Sairemos sempre a perder. O final será sempre a morte, escolhamos aquilo que escolhermos.

Artes e escritas disse...

Concordo com você, prefiro o café. Um abraço, Yayá.

Anónimo disse...

Sem dúvida! Também prefiro o café.