14 julho, 2011

DE OLHOS BEM FECHADOS


Gosto muito deste retrato de Ingmar Bergman feito por Irving Penn, em 1964. E gosto pelo aparente paradoxo de ver um realizador de cinema de olhos fechados. E, mais até simplesmente do que de olhos fechados, tocando-os mesmo com os dedos para os proteger da visão. Se fosse um músico não teria qualquer impacto. Ou um perfumista, ou um enólogo. Mas um cineasta é alguém que nos empresta os seus olhos para nos dar a ver o que nós não conseguimos ver com os nossos. Daí a estranheza de vermos o seu exercício para os fechar.
Esta fotografia faz-me lembrar o que disse um grande pintor português chamado Francisco de Holanda. Como bom platónico e homem do Renascimento, dizia ele que o pintor deve vendar os olhos para não perder as imagens das ideias. Ou seja, o mundo não deve ser visto com os olhos do rosto mas com os olhos da alma. O nosso mundo não passa de uma cópia impura e imperfeita de uma realidade ideal projectada por um Artífice apaixonado pela matemática e geometria e à qual o pintor deve aceder para depois a reproduzir visualmente. Daí o nosso Franscisco de Holanda defender que quanto mais o pintor usar os olhos do rosto menos verá com os olhos da alma.
Eu tenho uma visão diferente. Penso que os pintores, de facto, devem vendar os olhos. Muito tempo, se possível. Mas para que, depois, quando voltarem a ver o mundo o possam ver melhor, embora nunca como Adão, que de geometria devia entender pouco mas poderia ter sido um bom pintor.
Com um realizador de cinema pode passar-me um processo idêntico. Fechar os olhos para melhor poder ver a realidade. Tal como o pintor, não necessariamente como Adão a via. O olhar de Adão não é ainda um olhar humano mas o olhar da natureza, vendo-se a si mesma. Um olhar já impossível para qualquer pintor ou cineasta.
Nos olhos de um cineasta, contrariamente aos de Adão que só vivem para o que existe lá fora, há que procurar o olhar que vem de dentro, o olhar que vem da alma, o tal olhar de que falava Francisco de Holanda. Só que, neste caso, não para ver perfeições geométricas mas para sentir e compreender melhor a complexa textura de que é feita a realidade: a sua rugosidade mas também a sua polidez, as suas saliências e as suas depressões, a sua uniformidade mas também a sua diversidade.
A realidade é o que é mas somos nós que a compreendemos. E filma-se a realidade para a compreender, não para a copiar ou imitar. Por isso, para filmar a realidade há que começar sempre primeiro por filmar o nosso interior.  Com a ajuda preciosa dos dedos para não deixar abrir os olhos.

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

Sempre achei que é de olhos fechados que podemos ver melhor o essencial. E para dormir a sesta tambem dá jeito...

Rita TSBGC disse...

Fechar os olhos para anular o ruído e ver mais longe, como se pudéssemos focar por cima da realidade. A realidade é confusa e caótica, realizar, tal como encenar, é escolher uma tomada de vista, um ponto a partir do qual se observa/ constrói uma ficção. O tempo de cerrar os olhos é como respirar à tona de ´´agua,entre mergulhos.

Sob o Mar Azul de Ádria disse...

Nunca imaginei ver-me ainda mais encantada por Bergman.

Nunca sonhei ser seduzida por olhos tão fechados.

Fabulosa e eloquente captura. Repleta de significâncias.

Acabo de roubá-la, confesso-te, de olhos igualmente cerrados.

AGR