06 julho, 2011

CURA DE ALDEIA

                                                     Pierre Charroux|Une leçon Clinique à la Salpêtrière

Falemos de doenças. E falemos de doenças através de duas notícias. É de doença que se fala nesta notícia, é também de doença que aqui se fala.  Comecemos por esta segunda.
Pode passar despercebido afirmar publicamente que Maria José Nogueira Pinto morreu com cancro no pâncreas. Mas não deve. Ainda há muito pouco tempo toda a gente que morria com cancro, morria, oficialmente, de "doença prolongada". As pessoas tinham medo de invocar o nome da doença e os familiares um enorme pudor relativamente à inclusão da doença no seu elemento familiar. Como se fosse uma doença impura, uma mácula, uma lepra interna que, apesar de não ser contagiosa, exilava o doente num estado de impureza e alteridade. Morrer de cancro seria, pois, mais impuro ou menos limpo do que, por exemplo, de ataque de coração. Cada cancro teria o seu rol de impurezas: o cancro do fígado (álcool) seria diferente do cancro de pulmão (cigarros, tosse, escarros), o cancro da pele (manchas, erupções) não se confundia com o cancro do intestino (sacos, maus cheiros). O sofrimento prolongado, a dor do tratamento, as consequências fisicamente repelentes da doença, levavam os seus mais próximos a assumir um certo pudor e os jornais uma espécie de respeito e distância perante aquele que já estava morto ainda antes de o ser.
Felizmente, a nossa percepção do cancro mudou bastante. Tornou-se uma doença mais curável, os tratamentos mais limpos, o doente com cancro continua muitas vezes a fazer a sua vida normal e as pessoas falam dos seus cancros como doentes e não como miseráveis condenados nas sinistras e esquálidas galés da vida. Como chegámos aqui? Não sei bem, nunca pensei nisso nem tenho competência para isso. Mas presumo que se deve a processo natural, espontâneo, resultante do modo como a própria evolução das coisas condiciona o modo como as pensamos e sentimos.
Ora, já o que se passa com a primeira notícia é de uma ordem completamente diferente. Neste caso temos um político que declara publicamente que um tipo de comportamento (a homossexualidade) é uma doença.
Não me interessa agora discutir se a homossexualidade é ou não uma doença, se o homossexual é ou não uma pessoa normal. Amanhã ou coisa assim talvez venha aqui reflectir sobre o conceito de normalidade. O que para já apenas me interessa é o modo como uma disposição mental e física pode ser politicamente definida como doença e anormalidade. Ou seja, contrariamente ao caso do cancro, não se trata de um processo espontâneo e que resulte de uma "ordem natural das coisas". Trata-se, sim, de um programa, de um juízo contaminado ideologicamente que irá servir de base a uma "concepção moral oficial", regulada por decreto-lei, gerida por pessoas que ocupam cargos de chefia num país.
O que é deveras preocupante. Como se o Estado tivesse legitimidade para decidir sobre a vida boa, a felicidade, o bem, a normalidade, o desejável. É claro que o funcionamento  político ou jurídico do Estado pressupõe sempre uma concepção de bem. O Estado jamais poderá ser neutro. Tornando-se neutro entregaria os cidadãos à sua sorte, anulando a sua própria razão de existir. Só que essa concepção de bem deve ser suficientemente ampla e elástica para que todos os cidadãos se possam sentir abrigados debaixo do seu chapéu de chuva.
 E o problema é que declarações como a deste ministro indiano não se ouvem ou lêem apenas em países do terceiro-mundo. Em Portugal, por exemplo, seja através dos programas com um forte cunho ideológico a respeito da alimentação, da saúde, do sexo, do desporto ou de certos valores associados à cidadania que são verticalmente impostos aos cidadãos, seja através da legislação, o Estado pretende ir muito mais longe do que seria sensato numa sociedade de pessoas livres e com direito à sua própria concepção de bem, de felicidade, de vida boa.

5 comentários:

True smile disse...

ao longo dos séculos muitas foram as ideologias concebidas por mentes fechadas, por pessoas que desejavam a inaceitável rigidez de costumes. tal como mudam as ideias também mudam os costumes e, apesar de não ser dono do saber, arrisco dizer que a homossexualidade, comparável a muitos outros tabus humanos dos séculos passados, terá, mais cedo ou mais tarde, de ser aceite com toda a normalidade. veremos se não passa ela mesma, como já li em alguns locais, a ser a regra. nessa altura poderemos olhar para trás e pensar o quanto eram retrógrados as pessoas que ousavam chamar-lhe doença.

Artes e escritas disse...

A medicina existe para salvar vidas e garantir uma qualidade de vida razoável aos enfermos. Mas todos tem um medo que é o comércio da medicina, de haverem remédios para alegrias e tristezas, etc. Um abraço, Yayá.

josé manuel chorão disse...

É bem verdade que os políticos, sejam eles quais forem, se arrogam o direito de determinar o normal e o anormal.
Ao cidadão resta a capacidade de os mandar dar uma volta e pensar pela sua própria cabeça.Quem pensa não precisa que lhe digam o que deve pensar ou em que acreditar.

Anónimo disse...

Desculpe, mas o penúltimo parágrafo de seu texto é muito complicado. Por exemplo, o que fazer com os fumantes? Não tenho nada contra os fumantes e acho frescura esse negócio de não poder fumar em bar (não sou fumante). Mas é fato que eles congestionam o sistema de saúde. Acredite, custa muito caro tratar um câncer no pulmão. O Estado não devia intervir nessas coisas... Mas como administrar a escassez? Vale também para os motociclistas. A pessoa faz suas opções (direito delas), mas quando dá tudo errado é toda comunidade quem paga? Que bode! Já não sei o que fazer, quero incluir na minha lista de vidas desregradas um monte de gente: escafandristas, alpinistas, bêbados, maconheiros, adeptos de pasteis e lingüiças, etc. Talvez o Obama esteja errado: na questão da saúde cada um deveria cuidar da sua? Caramba, vai ver que Friedrich Hayek não era tão maluco assim. Mas também iria ser complicado ver pessoas morrendo pelas calçadas. Devolvo-lhe aliviado a bola filosófica.

José Ricardo Costa disse...

Mas o meu caro tem câmaras ocultas aqui em minha casa? Ainda ontem à noite estive a ler o Hayek. Não é a minha chávena de chá mas os livros também não queimam os dedos.
Eu penso que estamos a falar de coisas diferentes. Eu falo de ética, o meu amigo fala de economia. Eu não sei se o Estado terá a obrigação de gastar dinheiro do seu serviço nacional de saúde para tratar um tipo que tenha bronquite asmática e que recusa deixar de fumar. Ainda não sou capaz de contra-argumentar se vierem com essa conversa. Outra coisa é o Estado tomar partido por posições ideológicas que vão para além das referências morais básicas, objectivas e universais da sociedade. Aqui, deve ficar mesmo de fora. Por exemplo, na minha escola havia uma sala para fumadores onde só entrava quem precisasse de fumar. O Estado proibiu essa sala, obrigando adultos de 30, 40, 50, 60 anos a virem fumar para a rua, ao sol, à chuva e ao frio, mais parecendo pessoal do bas fond fazendo o seu trottoir. Absurdo. (nota: não sou fumador)