27 julho, 2011

A CELA

        Daniel Boudinet |Ombre d'un Personnage et Rideau Rouge Drapé

Estive hoje 3 horas fechado, em silêncio, na vigilância de um exame de matemática sem de lá poder sair. Não há televisão, não há telemóveis, não há música, não há internet, não se pode ler, não se pode conversar. Três horas do mais puro e coercivo silêncio. O que se pode fazer durante 3 horas em que não se pode fazer mais nada? Pensar. Simplesmente pensar. Fazer vigilâncias deve ser o serviço que a maior parte dos professores mais detesta fazer. Eu, pelo contrário, juntamente com o dar aulas, é aquele de que mais gosto.

13 comentários:

Anónimo disse...

Que eu saiba o Ministério paga-lhe para efectuar vigilância o que , tanto quanto me parece, é algo mais do que "não fazer nada".

jrd disse...

Essas vigilâncias destinam-se a evitar que os alunos "fujam", ou servem apenas para refinar a arte e o engenho de copiar, sem incomodar o vigilante.
:)

José Ricardo Costa disse...

Car@ anónim@

Mesmo após algum esforço continuo sem entender o seu comentário. Eu limitei-me a dizer que estou 3 horas parado. Não questionei se sou ou não pago para o fazer.

JR

Anónimo disse...

Tinha ideia , e tenho, que uma das funções do professor numa vigilância era evitar que os alunos copiassem. Percebi pelo seu esclarecimento que não é. OK. Eu que sou mãe de dois alunos percebo agora porque é que eles me dizem nas vésperas dos exames, com toda a normalidade, que têm que ir fazer as cábulas...Não é que não as fizéssemos no tempo em que eu estudei. Mas naquela altura vivíamos no terror de ser descobertos porque havia vigilãncia efectiva e consequências. Ao que nós chegámos! A vigilãncia serve e cito: "para refinar a arte e o engenho de copiar." Esclarecida.

josé manuel chorão disse...

O professor é um comunicador, um pedagogo.
Ter 20 alunos à sua frente, durante 3 horas e não poder ensinar-lhes nada, apenas vigiar em silêncio...é como colocar um osso à frente da minha cadela e proibi-la de o comer = custa muito.
Não há dinheiro que o pague (principalmente quando, como a mim aconteceu ontem e hoje, se está de férias e nos voluntariamos para fazer vigilâncias de exames durante as mesmas férias, sem que nada nos obrigue a isso; a alternativa seria os alunos não poderem fazer exame; o caro anónimo, antes de ironizar com o trabalho dos outros, faria bem em pensar se, no seu trabalho, faz o mesmo).

José Ricardo Costa disse...

Minha senhora, pelo que me diz sou forçado a concluir que pensar é uma actividade realizada com os olhos fechados. Ou seja, pensar e olhar serão actividades incompatíveis. Se olho, não penso, se penso, não olho. Acontece que terei tido o raro privilégio de poder ao mesmo tempo olhar e pensar, certamente resultante de uma disfunção do meu corpo caloso.
Enfim, não é para todos. Por exemplo, os insectos seriam incapazes de o fazer.

Cumprimentos,

JR

Rita TSBGC disse...

o nome " fazer vigilâncias " é desagradável, pressupõe uma cultura orwelliana, e com a tecnologia actual, se os meninos estivessem ligados a uma máquina central através de fios( tipo esgrima de competição) serviria melhor os anseios de quem, sendo Mãe, tem por aliado imaginário, um polícia e não um mestre...
Mas enfim, nada melhor do que as ânsias controladoras para tranquilizar quem tem dificuldade em aceitar que o pensamento não é um terreno obscuro, que pode ser feito à claras e de olhos bem abertos!!!
( invejo o silêncio!!! )

José Ricardo Costa disse...

Rita, aqui não concordo consigo. Vigiar os alunos (sim, é esta a palavra)é fundamental para salvaguardar a justiça no processo de avaliar os alunos. Se os alunos não fossem vigiados copiariam desalmadamente, copiando desalmadamente far-se-ia entrar o arbítrio e o caos no modo de avaliar os alunos, pervertendo por completo a justiça que lhe deve ser inerente. Desculpe, mas têm que ser mesmo vigiados e de olhos bem abertos. Mas com a cabeça a funcionar, claro. O professor pode ser um ali um vigilante mas continua a ser um professor.

True smile disse...

Cara Anónima,

como ex estudante, filho de professora tenho a dizer que as cábulas são muitas vezes a única forma de estudo dos alunos mais preguiçosos. tenho também a dizer que você, como mãe, faz parte do grupo que educa o seu filho/a. pode dizer aos presentes que atitude tomou perante o "flagelo" da criação de cábulas? na minha opinião, nós como pessoas temos responsabilidade pela maioria da nossa educação, pela forma como olhamos a sociedade e o partido que tiramos dela. os professores, sem querer negligenciar a sua imagem que considero muito importante, têm hoje em dia pouco peso na educação de uma criança. cada vez mais, devido às psicologias proteccionistas das criancinhas indefesas, os professores têm um estatuto mais fraco nessa tão importante educação dos meninos de amanhã. cabe aos pais dar peso aos professores, em vez de "falar" como a cara anónima faz. e sim, você é responsável, mais do que o professor, pela educação do seu filho, por ser um exemplo para ele, o exemplo materno que é bem mais importante que um estranho com quem passa meia dúzia de horas por semana. ainda sobre o texto do professor José Ricardo, que com muita pena minha não foi meu professor, apenas quero dizer que invejo profundamente essas 3 horas em que pode pensar envolto em silêncio, porque silêncio é algo praticamente impossível nos dias que correm. enquanto escrevo isto vou ouvindo mais novidades do mundo na radio e falando com as pessoas que estão à minha volta... 3 coisas ao mesmo tempo, incríveis capacidades do cerebro humano.

Rita TSBGC disse...

Ok, o multitasking está a prejudicar as tarefas mais simples, como fazer-me entender com clareza. Longe de mim ser anti Vigilância, o facto é que a palavra me é avessa, questões de vocábulos, uns são redondos e outros são angulosos.
Como Mãe, ensino aos meus filhos que copiar é fazer batota connosco próprios e que na altura em que o saber copiado for mesmo necessário ( na vida para além da escola) não há espaço para batotas.
Isto não tem nada de hiper-protector é apenas ensinar que os actos e escolhas têm consequências e que nem todas são imediatas.
Desculpe se usei excesso de ironia...

Zekzander disse...

O bacana de blog é isso: o comentário mais inocente pode virar uma grande tempestade! Cábula... Por aqui, chamamos essa bela prática de “cola”. Infelizmente - até onde posso perceber - a cábula (de onde terá vindo essa palavra?) é o único momento realmente criativo dos alunos. O tempora, o mores!

efelima disse...

Há sempre gente palerma em todo e qualquer lugar. Aqui encontram-se alguns. Julgam que tudo gira à volta do dinheiro. Enfim!...

José Ricardo Costa disse...

Dizia-me hoje um amigo, indignado com o comentário da anónima, que do mesmo modo que um polícia não é responsável pela existência de um crime, também o professor não é responsável pelo facto de os alunos copiarem. O trabalho deve começar em casa. Os pais, de facto, deverão ser os primeiros a fazer a pedagogia do não copiar. A Rita TSBGC, neste sentido, mete o dedo na ferida.