22 junho, 2011

TANTO MAR


Será que a história tem uma finalidade? Assim como um fio de água que sai da nascente para se tornar um rio que se dirige para o imenso oceano? O rio, na verdade, tem um caminho traçado, um rumo, uma lógica hidrográfica que une o seu princípio ao seu fim num todo coerente. Mas passar-se-á o mesmo com a história? O que há por detrás de uma revolução, seja esta política, social ou económica? Serão momentos em que a corrente do rio tem mais força a fim de avançar mais rapidamente para o oceano? Ou, no fundo, não passam de meros acasos, contingências, coisas que acontecem e poderiam não acontecer?
Vejamos, por exemplo, notícias como esta. Ou esta. Ou isto. Comecemos pelo último link. O comunismo morreu de podre, contrariamente ao capitalismo. No final do século XX, não foram os países capitalistas que se tornaram comunistas mas os países comunistas que se tornaram capitalistas. Porquê? Por que motivo foi assim e não o contrário? Será o rio da história a caminhar para o oceano? Ou trata-se apenas de um erro de perspectiva, de uma ilusão, de um retrocesso, fruto de acasos e acidentes históricos irracionais?
Mas vejamos. Será o comunismo tão racional como o capitalismo? Tratar-se-á apenas de um simples confronto ideológico entre dois modelos ou perante um abismo entre um modelo racional e outro irracional ou, dito de outro modo, entre um modelo que faz sentido e outro que não faz qualquer sentido de acordo com o que consideramos ser uma vida normal e desejável?
Mas, se assim for, por que razão no século passado havia tanta gente a querer fugir da RDA para a RFA e não havia ninguém a livremente sair (não fugir) da RFA para a RDA? Porquê? E por que razão foi necessário roubar a liberdade às pessoas para lhes impor um sistema enquanto no nosso, independentemente da satisfação pelos resultados eleitorais, há uma aceitação tácita desse sistema? E por que razão os alemães de lá festejaram tanto a morte desse sistema, sabendo, ainda assim, o que lhes poderia trazer a decadência e os riscos do capitalismo?
E em relação às outras duas notícias? Por que razão é legítima a luta das mulheres sauditas para poderem conduzir e não faria qualquer sentido nos países ocidentais proibir agora as mulheres de conduzirem? Porque querem aquelas mulheres conduzir e as nossas não querem deixar de conduzir, exigindo serem proibidas de conduzir? Será apenas um problema de relativismo cultural, de choque de culturas? Ou haverá efectivamente um modelo mais racional do que outro? 
O que eu penso é o seguinte. Não vejo que haja na história um qualquer sentido traçado a priori. Como se o fim da história fosse como uma jarra para o artesão: antes de começar a fazê-la já sabe o que irá ser o produto final. A história não pode ser isto. Ninguém sabe o que vai acontecer, prever os acasos, os ziguezagues, os retrocessos que irão baralhar todas as nossas contas a respeito do futuro. O futuro, na verdade, nem a Deus pertence.
Mas acredito que não deixa de haver uma certa racionalidade no processo histórico, uma certa "lógica dos factos".
Por que razão faz sentido passar da escravatura à não escravatura em vez de passar da não escravatura à escravatura? Poderemos regressar à Idade Média depois das revoluções inglesa, americana e francesa? Por que razão não voltámos ainda? Por que razão não desejamos voltar? Porque queremos ficar assim. E porquê? Porque será mais racional, porque estará mais próximo, apesar de todos os defeitos de que padecem as nossas sociedades contemporâneas, do que consideramos uma vida decente ou uma vida boa.
E nos países muçulmanos? Bem, o Irão já foi um país ocidentalizado e regrediu. A Argélia também, e regrediu.
Mas será que a Turquia, tal como a conhecemos,  não passa de uma excepção devida a certos acasos históricos ou a Turquia é assim porque há uma racionalidade subjacente à sua emancipação face aos outros países islâmicos?
Será que estas reacções das mulheres sauditas ou dos jovens iranianos, são meros e inconsistentes impulsos de gente insatisfeita ou, pelo contrário, uma tentativa de ficarem em dia com uma racionalidade que dá um sentido ao processo histórico, impedindo de olhar para ele como um amontado de estados acidentais e arbitrários? Eu arrisco esta segunda resposta.
Podemos não saber onde está o oceano para onde caminha a história, e a sua dimensão é tão grande que nos impede de  olhar para ele como se de um pequeno lago se tratasse. Mas podemos pelo menos perceber que estamos a caminhar bem. E quem caminha mal, mais cedo ou mais tarde irá perceber que caminha mal.
Terá razões filosóficas para o explicar? Não necessariamente. Mas irá perceber. Muitas vezes o que não se consegue explicar é o que melhor se consegue perceber.

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