02 junho, 2011

SEIOS FLÁCIDOS E PÉS MUSICALMENTE NUS SOBRE O ESTERCO PARA LEMBRAR QUE HOJE É QUINTA-FEIRA DE ASCENSÃO, FERIADO EM TORRES NOVAS, DIA DE PEREGRINAÇÃO AO CENTRO COMERCIAL

 
Fotografia de Heinrich Kühn com a preciosa contribuição final de Johannes Vermeer)



Parece que um dia uma senhora com um filho pequeno pediu a Albert Einstein que lhe sugerisse três livros que contribuíssem para o petiz desenvolver a sua inteligência e vir a ser um grande cientista. A resposta não se fez esperar: contos de fadas, contos de fadas, contos de fadas.
Lembrei-me desta história quando estava a ler a biografia do compositor Adrien Leverkühn, escrita pelo seu amigo Serenus Zeitblom, no Doutor Fausto, de Thomas Mann.
Para se ser compositor é necessário passar horas, dias, meses, anos, em frente a um piano. É preciso estudar bastante. E ter uma vida mental marcada por uma complexidade criativa que faz com que o que sai da sua cabeça seja bastante diferente do que sai da cabeça de um contabilista numa empresa de metalomecânica ou de um ministro do Emprego e Segurança Social.
Porém, ao descrever a infância de Adrian, Serenus, durante a qual já era seu amigo, vai invocar experiências que,  embora sugerindo alguma volatilidade e evanescente dispersão soterrada na espuma dos dias, virão a ser determinantes na organização mental e formação estética do futuro compositor.


Começa pela mãe:

"Não lhe assentavam os atavios das grandes damas, muito ao contrário da vestimenta rústica, de carácter quase folclórico, com que a costumávamos ver(...). As mãos trigueiras, habituadas ao trabalho, mas nem toscas nem excessivamente manicuradas, com a aliança na destra, revelavam, se cabe formulá-lo assim, um quê de segurança humana, a inspirar tamanha confiança que dava prazer observá-las tal como também aos pés bem-feitos, nem muito grandes nem demasiado pequenos, que caminhavam energicamente nos confortáveis sapatos de salto baixo e nas meias de lá verde ou cinzenta. Tudo isto era agradável de se contemplar, mas o que havia nessa mulher de mais lindo era a voz, um meio-soprano de timbre cálido, e, quanto à dicção, a denotar um ligeiro acento turíngio, que era extremamente simpático. Não digo «insinuante», porque  esse adjectivo implicaria algo de propositado ou inconsciente.  O encanto dessa voz tinha a sua origem numa musicalidade intrínseca, que de resto permanecia latente, já que Elsbeth não se interessava pela música e, por assim dizer, não acreditava nela.(...) Em todo o caso, nunca ouvi ninguém falar de modo mais encantador, embora aquilo que ela dizia fosse sempre sumamente singelo e prosaico; e, segundo a minha opinião, é significativo que esse som melodioso, puramente natural, determinado por um bom gosto instintivo, tenha alcançado maternalmente os ouvidos de Adrian desde a primeira hora da sua existência."



Depois, há as recordações da sua infância rural:

"Também me lembro de uma criada que se chamava Hanne e trabalhava nos estábulos, uma criatura de seios flácidos e pés nus, sempre sujos de esterco, e com a qual o menino Adrian, por motivos que explicarei mais tarde, mantinha igualmente uma amizade carinhosa; e ainda me vem à memória a senhora Luder (luder = canalha, em alemão), que admnistrava a casa e, sendo viúva, andava de touca, arvorando uma fisionomia singularmente cerimoniosa, talvez em protesto contra o seu nome, mas que também podia resultar do facto de ela ser perita no fabrico de queijos de cominhos reconhecidamente notáveis. Na ausência da dona da casa, era ela quem nos levava à vacaria, esse lugar acolhedor, onde a criada Hanne, agachada num mocho, espremia para dentro dos nossos copos o leite morno, espumoso, que ainda exalava o olor dos bondosos animais que o davam.


De seguida, vamos encontrar uma referência explícita à importância da paisagem na infância de Adrian:

"Eu não me perderia de forma alguma em detalhadas reminiscências desse rústico mundo infantil, com aquele singelo cenário de campos, bosques, açudes e colinas, se não fosse justamente esse o ambiente original de Adrian até à idade  de dez anos: a casa de seus pais, a paisagem natural, que tantas vezes percorri na sua companhia" .


"Juntas, nós, as crianças, mirávamos a lamacenta barafunda da pocilga, bem lembrados das velhas histórias contadas pela criada, segundo as quais aqueles pensionistas imundos, com os astutos olhinhos azuis debruados por pestanas loiras, os corpos grassos, de cor humana, devoravam às vezes criancinhas.  Forçávamos então as nossas gargantas a imitarem os guturais grunhidos desses animais, enquanto observávamos a mamadura dos leitões rosados, que se grudavam às tetas da  porca. Sempre juntos, Adrian e eu divertiamo-nos com as actividades pedantes, acompanhadas por exclamações dignamente comedidas, do povo de galináceos, que só de vez em quando rompia em acessos de histeria colectiva. Também fazíamos ocasionais visitas às colmeias, que se encontravam nas traseiras da casa, embora conhecêssemos bem a dor não insuportável, mas, mesmo assim, latejante que se sofria, quando uma das colhedoras de mel, extraviando-se, pousava no nosso nariz e estupidamente se sentia obrigada  a dar uma picada".

"Recordo as groselhas do pomar, cujos cachos, com os talos passávamos pela boca, e as azedinhas dos prados, que degostávamos. Relembro certas flores, de cujo interior sabíamos chupar gotinhas de fino néctar, as glandes, que pisávamos, deitados no solo do bosque, e as purpúreas amoras, que colhíamos nos arbustos ao longo das veredas e cujo sumo acre saciava a nossa sede infantil".

Depois desta descrição da bucólica infãncia de Adrian, especula o amigo:

"Aquela era uma vida de artista. (...) Muito embora o artista em todos os períodos da sua vida permaneça mais próximo da infância , para não dizer mais fiel do que o homem especializado na realidade prática, muito embora se possa afirmar que ele, ao contrário deste último se mantém continuamente no estado sonhador e puramente humano da criança brincalhona, o caminho que transpõe a partir dos primórdios intactos até às fases tardias, jamais imaginadas do seu devir, é infinitamente mais longo, mais aventuroso, mais emocionante para o espectador, do que o do homem burguês, para o qual a reminiscência de também ter sido criança em outros tempos nunca fica tão prenhe de lágrimas".


Entretanto, e para terminar o capítulo, regressa a Hanne, a criada de seios flácidos e pés nus, sujos de esterco, que trabalhava no estábulo:

"Ensinava-nos cânones [musicais], naturalmente os mais adequados à compreensão infantil, como, por exemplo, «Que prazer me causa a noite», «Cantigas ressoam», ou também aquele sobre o cuco e o asno; e as horas do crepúsculo, durante as quais assim nos recreávamos, gravaram-se-me por isso profundamente na memória, ou melhor, a sua recordação obteve posteriormente maior importância, porque foram elas que, até onde sou testemunha, puseram o meu amigo pela primeira vez em contacto com música de certo modo artisticamente organizada na sua progressão, mais do que seria o simples canto em uníssono. Havia nos cânones um entreleçamento no tempo, com entradas  imitadoras, para as quais, no momento preciso, nos convidava uma cotovelada de Hanne, quando o canto já estava em andamento e a melodia avançara até determinado ponto, mas ainda não chegara ao fim. Existia ali uma presença das partes melódicas, arranjadas em diversos planos, que, no entanto, não resultava em caos, mas, pela repetição da frase inicial, através da voz do segundo cantor, se inseria muito agradavelmente tintim por tintim, na continuação do trecho iniciado pelo primeiro."




A descrição continua mas, como o post já vai longo, salto mais rapidamente para o fim do capítulo:

"Nenhum de nós se dava conta de que, orientados pela criada dos estábulos, já havíamos galgado um degrau muito alto da cultura musical  iniciando-nos no campo da polifonia imitativa, que o século XV tivera que descobrir, a fim de nos proporcionar esse prazer. Mas, ao relembrar essas risadas de Adrian, percebo posteriormente que havia nelas algo de sapiência e de iniciação irónica. Ele conservou-as sempre e ouvia-as frequentemente, quando me encontrava num teatro ou numa sala de concertos na sua companhia, e o chocava algum truque artístico, um procedimento engenhoso, não notado pela multidão, no íntimo da estrutura musical ou uma fina alusão psíquica no diálogo de um drama. Naqueles dias, isso não condizia ainda com a sua idade, mas o riso era o mesmo do homem adulto;


1 comentário:

Ana Paula Sena disse...

Mas que belo feriado! Em melhor companhia, seria difícil!

Gostei muito.