14 junho, 2011

ONDE ESTÁ A ETIQUETA?



No Público de ontem, dizia João Carlos Espada que se Portugal quiser andar para a frente tem que ultrapassar a dicotomia dogmática que opõe o bem comum a esforço de melhoria individual. E dá como exemplos, a pontualidade, o saber vestir-se formalmente de acordo com o contexto, atender os telefones em vez de os deixar tocar, responder a e-mails em vez de não responder.
Tem toda a razão. E aproveito para falar da realidade que conheço melhor: a escola.
Um dos grandes problemas do ensino em Portugal (falo de Portugal pois é o que conheço) é a falta de formalidade. Os alunos entram nas salas de aulas como os bois e as vacas entram na arena de uma praça de touros. Vão vestidos para a escola como se fossem o Robison Crusoe um mês depois de ter chegado como náufrago à sua ilha. Falam com os professores como se estivessem a falar com o colega de carteira, estão sentados nas cadeiras como em casa quando vêem os Morangos com Açúcar. Falam quando não deveriam falar e não se calam quando se deveriam calar. Ainda hoje estive sentado num espaço exterior da escola a corrigir testes e a meu lado um grupo de alunos dizia, de 3 em 3 segundos, as asneiras mais comuns do nosso vernáculo, arrotavam e diziam enormidades. Eles estavam a poucos metros de mim, sabiam que eu ali estava mas era como se eu fosse invisível. Eu, um professor, 50 anos, pai de filhos, a corrigir testes.
Podia aumentar a lista mas não vale a pena.
Mas que relevância terá isto para o futuro de Portugal? Será que o desenvolvimento de um país tem alguma coisa que ver com questões de etiqueta e de caprichosas formalidades?  Sim, tem. E não se trata de uma busca da perfeição. Aproveito para dizer que tenho horror à perfeição. Sou mesmo um fanático da imperfeição, lido muito bem com o erro, com o disparate, e dou-me muito bem com as minhas  próprias limitações, que são imensas e algumas delas graves.
Acontece que para um país se desenvolver como um todo, precisa do esforço individual de cada um de nós. Ora, para nos esforçarmos, precisamos de ter a consciência de que as expectativas a nosso respeito são elevadas. Que existe exigência. Que ter a consciência de que o meu respeito pelos outros aumentará o respeito que os outros terão por mim mesmo. Ora, se eu marco um encontro com uma pessoa e chego 15 minutos atrasado, isso significa que para mim foi mais importante o que estive a fazer do que o tempo que fiz perder àquela pessoa. Ou seja, é uma enormíssima falta de respeito pelo outro. Primeiro eu, depois os outros. Se entretanto toda a gente pensar assim, primeiro eu, depois os outros, a medíocre soma das partes dará um todo medíocre.
Eu detesto usar gravata. Casei duas vezes e em nenhuma delas usei gravata. Diria mesmo que das duas vezes fui vestido como se fosse tomar café e ler o jornal numa esplanada. Mas se no sistema de ensino português passasse a ser obrigatório os professores usarem gravata, eu seria o primeiro a aceitar. Porquê? Porque através da roupa podemos igualmente mostrar respeito pelo espaço onde nos encontramos e, ao respeitar e valorizar esse espaço, acabo também por valorizar os alunos e a mostrar-lhes o valor que tem aquele espaço e induzo-os a respeitar também.
Depois, porque a formalidade é também um processo importante para domesticar os nossos instintos. É isso que distingue uma pessoa educada de um bárbaro. E um povo que consegue controlar os seus instintos, seja a trabalhar, a marcar encontros, a conduzir um automóvel, a comprar e a vender, será certamente um povo com mais condições para se desenvolver.
Não se trata, pois, apenas de uma questão de etiqueta. É precisamente uma das portas por onde devemos entrar para que deixemos de ser, de uma vez por todas, um povo de marca branca ou contrafeito para passarmos a ser vistos com uma etiqueta colada à nossa pele que seja sinónimo de qualidade.

12 comentários:

Anónimo disse...

O nosso problema (de todos que estão com seus 50) é que fomos nós que acabamos com essas formalidades que o Sr. fala.
Tive um professor que fez mestrado em Portugal na época de Salazar e contava que todo mundo andava de paletó (acho que os Srs dizem "fato"). Os pobres, andavam com paletós cheio de remendos e com uma quantidade mínima de dinheiro no bolso, senão eram preso por "vadiagem".
Dizia também que era de praxe os alunos levantarem quando o professor entrava na sala, mesmo no mestrado.
Não sei se isso é verdade, só sei que nós, "que amávamos os Beatles e os Rolling Stones", achávamos tudo isso extremamente bizarro...
Bom, abrimos a porta da "autenticidade" e chegamos onde estamos e, acho eu, não tem volta.

josé manuel chorão disse...

Pode ser que sim. Mas de pouco valem as etiquetas exteriores se não houver uma enorme mudança interior.
De acordo quanto à necessidade de todas essas mudanças que dizes. Mas, se um dia isso fosse alcançado, se os portugueses passassem a ser pontuais, rigorosos, formais...tenho a impressão que olharíamos à nossa volta e... não veríamos portugueses, os seres que nos rodeavam seriam outra coisa qualquer que não portugueses.

jrd disse...

Subscrevo.
O problema é que a "etiqueta", normalmente, está no forro e o português (tuga) não consegue "virar-se do avesso" e prefere manter a falsidade das aparências.

PR disse...

JR, está 12 dias sem colocares um post e depois surges a concordar com o João Carlos Espada... Meu caro amigo....! - Estou sériamente preocupado contigo. Cumprimentos e as tuas melhoras,PR

José Ricardo Costa disse...

Mas qual é o problema de concordar com o JCE? Se o JCE disser que a capital de Espanha é Madrid tenho que discordar dele só porque é o JCE? Deverá haver poucas pessoas no mundo que estejam sempre certas ou que estejam sempre erradas. O JCE, como qualquer outra, por vezes erra, por vezes acerta. As pessoas imperfeitas são assim.

Mar Arável disse...

Um dia seremos

de novo

crianças

Rita TSBGC disse...

A etiqueta faz parte da colecção de coisas que deveriam ser tomadas cedo na vida, como a vitamina D, o solfejo, a gramática, o óleo de fígado de bacalhau e a exposição prolongada a manifestações de arte.
Infelizmente, quase todas adquiriram o estatuto de inutilidade pública desde há várias décadas.

m.a.g. disse...

Nem mais.
Eu neste aspecto sou conservadoríssima: a forma como nos apresentamos e como tratamos o nosso semelhante, não só nos dignifica ou não, como dignifica também os espaços onde estamos e os que nos rodeiam (já vi gente de saltos altos em Vilar de Mouros e de sapatilha na Ópera).
Cada vez acho mais que apenas mudámos a fatiota e qualidade dos automóveis e algumas casas. E como por aí já disse; passámos da naftalina para o pot-pourri. Vivemos uma aparência de evolução, mas cá dentro continua o bom e velho portuguesinho que ao fim de décadas ainda escarra no chão, palita os dentes, mastiga de boca aberta, tem um ar encardido e metamorfoseou-se passando do estado do fato domingueiro para um mais piroso e grunho ainda; do exibir da marca da T-shirt e do telemóvel, óculos de sol a servir de bandolete, etc., (deslumbramentos lusitanos) - agora acompanhado pelo cãozinho de marca defecante(pobres rafeiros) - eu tenho e sempre tive cães, mas apanho os dejectos - que só dá o litro (pois sofre de preguicite crónica), de chibata no lombo, sendo que encara isso com toda a naturalidade, até ao momento em que acha que a chibata lhe anda a bater mais a ele do que aos outros. Não vislumbro melhorias nas gerações mais próximas.

Helena Oneto disse...

Tem imensa razão.

Anónimo disse...

Conheço uma escola a 10 minutos da Artur Gonçalves que não corresponde ao figurino que traça do ensino em Portugal:
1. Todos os dias, toca pontualmente às 8h25;
2. Os alunos organizam-se por turma, em filas e por ordem alfabética, e seguem com o professor para a sala de aula;
3. Aí ficam perfilados atrás das mesas e cumprimentam em coro o professor;
4. Rezam a oração da manhã e só se sentam quando o professor o manda fazer;
5. No final da aula, levantam-se quando o professor ordena, perfilam-se atrás das mesas e só se encaminham para a porta quando tudo estiver arrumado e houver silêncio, formando fila para descerem em ordem para o recreio;
6. Todos se levantam e cumprimentam quando o Director entra na sala ou qualquer outro professor;
7. Levantam-se quando são chamados oralmente na sala de aula e intervêm só quando o professor o permite;
8. Cultiva-se com empenho a imagem do professor como mestre e autoridade solícita;
9. As cadeiras estão preparadas para que não possam estar penduradas para trás, obrigando os alunos a estarem correctamente sentados;
10. Os alunos usam pólo azul e, portanto, não há lugar a tops com o umbigo de fora ou camisolas de alças tipo trolha e evitam-se mini-saias demasiado acentuadas;
11. Os professores são também incentivados a usar uniforme que muitos vestem com gosto;
12. A linguagem de caserna é severamente reprimida nos rapazes e sobretudo nas meninas;
13. Não se tem pejo de educar os rapazes para serem bons pais de família e as meninas boas mães de família (nas férias há lavores femininos e trabalhos manuais para os rapazes);
14. Por toda a escola se respira uma ambiente de trabalho e vontade de aprender;
15. Por isso, este ano, nas provas de aferição de Português e Matemática, os alunos do 6º ano realizaram o feito de obter entre 80 e 90% de Bons e Muito Bons em ambas as disciplinas e os do 4º cerca de 75%, numa turma com 4 alunos ao abrigo da Lei 3 / 2008.

José Ricardo Costa disse...

A utopia a 10 minutos da ESAG?

Anónimo disse...

Colégio dos Navegantes