21 junho, 2011

LA PENSÉE SAUVAGE


                                                                              Joey L.

O grande tema político de ontem, pelo que deu para ver nos jornais de referência, foi a não-eleição de Fernando Nobre para presidente da AR.
Hoje ia de comboio para Lisboa e a meu lado estava um fulano a ler o Record, no qual se destacava a ida de André Villas Boas para o Chelsea. Entretanto, do outro lado, ia uma senhora, com ar simples mas urbano, provavelmente funcionária pública, a ler uma revista dedicada a telenovelas.
De repente dou por mim a pensar sobre a grande diferença entres estes três níveis de realidade. O que leva uma pessoa a comprar o Record? E o que leva uma senhora a comprar uma revista sobre telenovelas? Estamos certamente perante duas áreas cuja dignidade social intelectual é completamente diferente da que encontramos num jornal como o Público.
Mas será mesmo? Haverá assim tanta diferença entre os três níveis informativos?
Pensemos na telenovela e imaginemos a seguinte história. O dr. Vasconcelos, homem rico e prestigiado, tem um filho, o Martim, que se apaixona pela Cátia, filha da empregada lá de casa, a Maria Fernanda. O pai não quer o namoro mas o filho tenta resistir. Resiste, resiste, resiste até chegar a um ponto em que se deixe vencer pelo dinheiro do pai, dizendo a si mesmo que a sua paixão por Cátia não passa de um capricho passageiro.
Pensemos no caso Villas Boas. Tem um contrato do Porto. É adepto do Porto, o seu grande sonho era treinar o Porto. Mas perante o dinheiro do Chelsea, não resiste, traindo o clube do seu coração.
Ora, o que tem isto em comum com a candidatura de Nobre? Tudo: relações de poder e de força, de fidelidade e de traição, relações de amor-ódio.
Embora estejamos perante conteúdos completamente diferentes, a estrutura formal é a mesma. Se desbastarmos o que é acessório e circunstancial, e ficarmos reduzidos apenas a esquemas conceptuais interligados entre si numa estrutura formal, iremos ver uma identidade entre eles.
Se compararmos certas letras das canções de Ágata com certas passagens de Shakespeare, apesar de podermos encontrar muitas semelhanças na invocação de certas emoções, vamos encontrar dois mundos estética e culturalmente completamente diferentes. Ler Shakespeare é muito diferente de ouvir uma canção da Ágata.
Mas, se formos para o jornalismo, haverá tanta diferença assim entre ler a notícia sobre Fernando Nobre, a notícia sobre Villas Boas ou acompanhar o drama de Martim e Cátia? Não se trata de literatura, música, arte em geral, mas apenas de acompanhar três episódios nos respectivos contextos.
É claro que, simbolicamente, são completamente diferentes. Socialmente, apresentam uma dignidade e valor completamente diferentes. Mas não será isso uma convenção social? Um pouco como a diferença simbólica entre apanhar uma bebedeira num casamento ou numa cervejaria ou ficar ganzado depois de fumar um charro às escondidas no silêncio da noite? O processo é muito diferente mas os mecanismos psicológicos e emocionais serão tanto assim?

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

Discordo.
Com algum esforço,é verdade,mas consigo descortinar ligeiras diferenças entre uma canção da Ágata e a hegeliana Fenomenologia do Espírito.
Continuando a esforçar-me, tomo consciência de ligeiros pormenores que distinguem o 'Memorial do Convento' da revista sobre telenovelas.
E são os pormenores que fazem a diferença. Sempre os pormenores...

jrd disse...

Aproveitando Shakespeare e o "seu" Hamlet, bem poderiamos dizer que seja qual for o tema, tudo não passará de: Words, words, words.

Mar Arável disse...

Obvia mente

que não