29 junho, 2011

ÉDENBOOK

                                                                Jacopo Bassano|Jardim do Éden

Pensar no Panóptico é pensar em vigiar e punir. Para quem não sabe, o Panóptico é uma estrutura arquitectónica circular e transparente, imaginada por Jeremy Bentham no século XVIII, para ser aplicada em prisões, de maneira a que todos os presos sejam permanentemente vistos. Falar no Panóptico, neste sentido, é falar numa visibilidade absoluta, num excesso de luz sem quaisquer sombras, refúgios ou intimidade.
Ao ser aplicado em prisões, locais de trabalho ou escolas permite criar uma sociedade da culpa, formatando os comportamentos dos seus habitantes a partir de um controle social que penaliza o desvio face à norma.
Neste sentido torna-se interessante analisar o Facebook. O Facebook funciona como um panóptico virtual só que sem uma consciência da culpa, sem mácula e punição. Trata-se de uma rede imensa, circular e transparente, que permite que todos vejam todos, que todos sejam vistos por todos, como se vivêssemos num enorme edifício no qual podemos circular livremente por todos os apartamentos, sem portas ou sem janelas com cortinados ou persianas, um prédio onde tudo se sabe de todos, estando essa omnisciência dependente de uma omnivisão.
Ora, como explicar o facto de as pessoas assumirem livremente este controlo? Como explicar que pessoas que assumem reservas relativamente à sua vida pessoal, aceitem livremente viver neste prédio onde se perde privacidade, acedendo às fotografias de todos os jantares, de todos os aniversários, de todas as praias, de todas as famílias, de todos os casamentos e baptizados, de todos os beijos dados por namorados ao pôr do Sol?
Talvez se explique devido a uma certa inocência edénica sugerida pela virtualidade da net, anterior a qualquer contacto ou penetração na verdadeira realidade.
Quando vivemos na realidade pura e dura, assumimos naturalmente uma total visibilidade. Andar na rua, jantar num restaurante, estar na praia ou numa festa de casamento, significa ver e ser visto. A visibilidade é, repito, total. Mas, curiosamente, não gostamos de ser observados. Se estivermos num café e alguém não nos largar com os olhos, ou nos fotografar, ou filmar, ou falar explicitamente sobre nós com outra pessoa, não iremos gostar. Porquê? Porque temos a noção do bem e do mal, do pecado, do correcto e do incorrecto. Enfim, porque temos uma consciência que nos guia para o que é desejável e repele o indesejável. E observar e ser observado, sabemos todos, não é nada bonito e desejável.
Ora, como explicar que uma pessoa que deteste ser obervada no restaurante ou na praia, ou que entraria em pânico se soubesse que o interior da sua casa estaria transformado num palco iluminado para o exterior, aceite lançar para o panóptico fotografias suas a comer no restaurante, na praia ou no interior da sua casa? Cá está. Porque a sua casa, na rede, deixa de ser a sua casa empírica para passar a ser uma casa virtual, num mundo que perdeu a sua realidade, magicamente transformado num jardim do Éden anterior a qualquer culpa, pecado, consciência moral. Um mundo onde as coisas são o que são e não o que valem. Eu observo-te, tu observas-me, nós observamo-nos, como Adão e Eva observavam a sua nudez antes da queda. Ou seja, observar sem consciência da observação, o que não é verdadeiramente uma observação. Também no Facebook as pessoas se expõem à observação porque não entendem isso como uma verdadeira observação, idêntica ao do mundo real. Viver no Facebook é, por isso, viver na presunção da inocência do olhar sem mácula.
Ter percebido tudo isto foi uma das razões que me levaram a sair do Facebook. Eu sou ateu e seria incapaz de praticar qualquer culto religioso. Mas sou bem filho da religião judaico-cristã e sei que a partir do momento em que se é expulso do paraíso nunca mais é possível lá voltar.

6 comentários:

CF disse...

Julgo que tem muito a ver com a necessidade que temos de mostrar aos outros factos da vida, sejam eles muito bons, ou muito maus. A ausência de olhos, e a possibilidade de todos entrarem e todos sairem, sem serem vistos, é um chamariz, claro. Ainda assim, a necessidade de se expor o grande amor, o grande carro, as grandes férias, parece-me importante para muita gente. Ou, ao invés, alguma coisa menos boa, mas à qual se resiste. Parece-me que tudo o que refer, juntamente a isto, anexando ainda a necessidade de retribuição de atenção constante, que todos carecemos, e que nem sempre temos, faz o facebook o sítio ideal para se curarem males de alma que ninguém vê. Cumprimentos. E parabéns pelo Blog.
Carla Ferreira

josé manuel chorão disse...

Vaidade.
É a vaidade e nada mais que leva as pessoas a achar, alarvemente, que a porcaria das fotos do seu estúpido aniversário interessam aos outros. Ou que a seca da viagem que fizeram a Palma de Maiorca é digna de ser mostrada ao mundo inteiro.
Vaidade, triste vaidade. Associada à (enorme) estupidez.É o que faz o sucesso do Facebook. E das telenovelas da TVI...

jrd disse...

Excelente!
Nunca aderi ao Facebook -Panóptico-que considero uma espécie de bigbrother colectivo em que as pessoas se expõem mutuamente para se 'esconderem' delas próprias.

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, Carla, volte sempre.

JR

Rita TSBGC disse...

As pessoas revelam-se e camuflam-se nas ágoras disponíveis.
PArece-me que que o problema é procurarmos verdades, linearidades, na casa dos espelhos. O Facebook é uma ficção, cada um narra-se como sabe ou como pode. A verdade é a desculpa para as pessoas com falta de imaginação ( acho que o Wilde disse algo assim).

helena disse...

Sim, o facebook é uma janela que nos remete para uma realidade bastante distorcida. Também sai!