16 junho, 2011

A BELEZA DO DESERTO OU O DESERTO DA BELEZA


       
      Yves Klein
Se eu disser que o Yesterday dos Beatles é uma bela canção toda a gente percebe o que quero dizer com isto. E percebe, mesmo que não goste da canção. Eu abomino as baladas do Richard Clayderman mas se uma pessoa com expressão apaixonada me disser, ouvindo uma delas, "Que bela música", eu entendo perfeitamente o que isso significa. Embora o Yesterday e as baladas do pianista sejam diferentes, haverá semelhanças melódicas entre as duas. Poderá ser essa a resposta. 
Então, e se eu disser que a 4ª sinfonia de Mahler é uma bela sinfonia? Qual a relação entre as duas anteriores e esta?
Mas vou complicar a coisa um pouco mais. Toda a gente percebe o que quero dizer com a frase "Este soneto de Camões é um belo poema". Ou quando digo " A serra de Sintra é mais bela com nevoeiro", ou quando digo "Teresa Salgueiro tem um rosto belo". Toda a gente percebe, certo? Não, nada certo. Não percebe nada. Como pode perceber?
Que familiaridade existe entre um conjunto de sons propagados no espaço, um conjunto de palavras, uma massa verde rodeada de nevoeiro e o rosto de uma mulher? Não se pode tratar do mesmo tipo de familiaridade que podemos encontrar em rostos completamente diferentes. Olhemos para os rostos de Alberto João Jardim e de Teresa Salgueiro. São rostos completamente diferentes mas em ambos vejo dois olhos, um nariz e uma boca. Há uma enorme semelhança em toda aquela enorme diferença. Um dos rostos é horrível e o outro é belo mas são dois rostos, e dois rostos que eu vejo com os meus dois olhos e não com os meus ouvidos.
Mas que semelhança existe entre um rosto e uma massa verde rodeada de nevoeiro? Pior: entre um rosto e um conjunto de sons agudos e graves? Ou entre uma massa verde e a frase "Leonor vai para a fonte"?
Daí eu perguntar: o que quer dizer uma pessoa quando diz que uma coisa é bela? E como pode a outra que ouve, afirmar de imediato que entende o que isso signfica? É assim porque fomos educados assim e é assim que temos pensado desde os gregos.
Quando Platão afirma que a ideia de cadeira, a cadeira pura, formal, una, imutável e incorruptível é mais real que a cadeira onde eu estou agora sentado, que é diferente da cadeira que vejo ali ao fundo que, por sua vez, é diferente da cadeira onde está sentado quem lê este texto, está a preparar o terreno para uma relação com o mundo marcada por um vazio formal que, embora nos dê a ilusão da objectividade, não tem qualquer significado.
Quando falamos uns com os outros, sobretudo quando transmitimos sentimentos, emoções, estados de alma, a respeito da nossa relação com objectos ou acontecimentos, pensamos estar a entender-nos, envolvidos no mesmo comprimento de onda. Não estamos nada.
Pensar e comunicar é quase sempre um deserto no qual conseguimos sobreviver graças às miragens com que nos enganamos a nós próprios e enganamos os outros.

3 comentários:

Mar Arável disse...

É preciso aprender

a ouvir o silêncio

josé manuel chorão disse...

É belo o que me dá prazer (sensorial ou intelectual).
E isso é pessoal, incomunicável, intransmissível.
Portanto, toda a comunicação é ilusão, todo o diálogo é aparência. Até connosco próprios, por vezes.
Estamos condenados à solidão. E isso é tão bom...

addiragram disse...

De miragem em miragem até ao encontro possível, que nada tem de perfeito...