17 junho, 2011

ASSINATURA



Há palavras que estão para o meu discurso como a impressão digital para o meu dedo indicador. Uso e abuso de palavras como "inerente", "intrínseco", "pressupõe", "legitimar". Se me irrito, o que é tão raro acontecer como as vezes em que o engenheiro Sócrates falava verdade (adoro este "falava"), também sou capaz de dizer "merda" várias vezes seguidas.
Agora, uma coisa que ainda não consegui entender é a propensão contemporânea de inúmeros mortais portugueses para começarem cada frase com um "É assim:   ". Conheço algumas pessoas que, quer digam as coisas mais simples, quer digam as maiores solenidades, começam sempre as suas frases com um "É assim:   ".
Vamos lá ver o seguinte. Imaginemos que o presidente Reagan, depois de três seguidos no Pentágono sem comer e dormir, decide enviar para o centro de Moscovo meia-dúzia de Pershing e vai à televisão avisar a humanidade do seu gesto. Então, com aquela expressão grave e séria, tipo read my lips, depois de alguns segundos de pesados silêncios, embaraços, pânicos, antes de chegar à frase letal, será normal iniciar as hostilidades com um "É assim:   " que permita adiar por uns centésimos de segundo o inadiável.
Não entendo, porém, mas não entendo mesmo, o que leva uma pessoa, quando marca encontro com outra, a dizer: "Então é assim: fica amanhã para as 5 horas". Ou, num restaurante, perante o empregado: "É assim: para mim pode ser um arroz à valenciana".
Dizê-lo, é como dizer a alguém a quem vou dizer alguma coisa, que vou dizer alguma coisa. Mas por que razão hei-de dizer a uma pessoa a quem vou dizer alguma coisa, que vou dizer alguma coisa? Por que razão não dirá logo alguma coisa? Sei lá, "Amanhã às 5 horas", "Apetece-me ir ao cinema", "Comprei este vestido em saldo e ficou bastante em conta".
Eu só consigo encontrar duas explicações.
A primeira, e mais óbvia, é que se pode tratar de um mero tique oral, como estremecer o ombro de 3 em 3 segundos, ou piscar o olho como o professor Malaca Casteleiro. só que, neste caso, através da expectoração de uma frase.
Mas há ainda uma outra explicação: trata-se de mais uma (entre outras 87 ou 94) manifestação do narcisismo contemporâneo. Uma pessoa que diz: "É assim:   ", fala como se estivesse a ser fotografada. Uma pessoa que gosta de ser fotografada está a assumir a sua importância. Eu, quando aceito ser fotografado, estou implicitamente a admitir perante quem me fotografa, que tenho suficiente importância para ser fotografado.
Só que aqui não se trata de um "olha para mim para me fotografares" mas um "olha para mim porque eu vou dizer uma coisa e prepara-te para o que eu te vou dizer". Se é importante ou não é importante o que a pessoa vai dizer é absolutamente irrelevante. O que importa é que as pessoas dizem. E dizem, e dizem, e dizem, e tudo aquilo que cada pessoa diz é a coisa mais importante do mundo.
Houve quem, no século XIX, tivesse previsto tudo isto. Foi mesmo assim.

8 comentários:

josé manuel chorão disse...

Na minha opinião, são pessoas inseguras ou mentirosas que iniciam as suas falas com um "É assim:".
Os inseguros assumem inconscientemente que, dada a irrelevância do que vão dizer, necessitam de chamar a atenção dos outros para que os escutem, já que as suas afirmações não valerão nada por si mesmas.
Os mentirosos porque, sabendo que o que vão dizer é mentira, inconscientemente assumem a fraqueza das suas declarações e, portanto, chamando a atenção para elas, procuram evidenciá-las, como se isso lhes acrescentasse verdade.
Não acredito em tiques, dizia o velho Mestre (Freud) que "Nada é por acaso".
Inseguros ou mentirosos. Ou ambas as coisas.

Rita TSBGC disse...

Happy days : Samuel Beckett.
A entrada anterior tinha um cheiro a " Ohio impromptu", ou o encontro de Joyce com Beckett...
Tomar fôlego, antes de atacar a frase pode soar de muitas formas, eum É Assim, é mais convicto que um grunhido ou um portanto...
Mas talvez não seja assim...

Fred disse...

Realmente essa mania do é assim é no minimo estranha. É assim ou é assado!


Um abraço!

Anónimo disse...

se fosse esse apenas um!, dos bordões irritantes...e aquelas pessoas que , à medida que nos ouvem, vão dizendo, "claro, claro", arrastando a voz nasalada.... como se estivessem a ver mais !!! , todavia de forma clarividente o que nós,por vezes, preenchemos de hesitações puras... ?
Que dizer da nova moda do " sendo que", do "realizei que tudo era horrível", ( anglicismo favorito M.do Sousa Tavares, já agora), em vez de constatei.... Há mais. Colecciono-as e afago-as. Raivinhas de estimação. Sim, é assim....
P.S. esteve muito tempo sem escrever. É assim: não devia!!!!!LOL!

jrd disse...

Reconheço que a expressão é irritante, não obstante ter de admitir que, provavelmente, já a usei, mas nunca num restaurante, porque aí disse: É assado...

Anónimo disse...

jrd, isso é que é boa-disposição!


Um abraço!

jrd disse...

Meu caro anónimo,
Depois dos dois discursos do 10 de Junho, 'refinei' a minha boa-disposição.
Abraço

CAL disse...

É isso mesmo.Correto?