27 junho, 2011

AS MOSCAS


Hoje de manhã tomei banho e vim sentar-me ao computador para trabalhar numa coisa muito importante. Poucos instantes depois dou por mim a ser perseguido por várias moscas. Contrariamente ao que é habitual, desta vez não desejavam pousar nos braços, nas mãos, nas pernas, na ponta do nariz mas, invariavelmente, na minha cabeça.
Eu já sou, por natureza, um tipo completamente desconcentrado. Sento-me para trabalhar e 10 minutos depois já estou a ir à janela ver o limoeiro, à casa de banho para aparar a barba, à cozinha para beber um copo de água ou dar uma simples volta pela sala, sem pensar em nada, antes de regressar para mais 10 minutos de intensíssimo trabalho.
Ora, o meu desespero chegou, por isso, a ser total, dando por mim a gesticular de tal modo que mais parecia, salvo seja, a Tippi Hedren a ser atacada por furiosas e tresloucadas gaivotas, só que desta vez pelas moscas do Sartre.
Eis senão quando se acende uma luz na parte interna da minha cabeça, a única ainda inacessível ao poder invasivo das moscas. Pensei que pouco antes tinha estado a tomar banho e, por isso, o que estaria a chamar a atenção do raio das moscas só poderia ser o aromático champô que me permtiu mais uma vez, dentro da banheira, passar da animalidade à civilização. E é precisamente este fantástico facto que me traz agora aqui.
Depois de ter chacinado as moscas dei por mim a pensar no seguinte. Sabendo eu, como toda a gente, da romântica atracção das moscas pelo lixo, pelo esterco, pela podridão, como é possível que essas mesmas moscas se sintam atraídas pela minha cabeça suavemente aromatizada com champô de manga e flor de tiaré? Como é possível esta desorientação bipolar num ser vivo que circula entre o esterco e a minha cabeça, a minha cabeça e o esterco? E digo isto, partindo naturalmente da presunção de que a minha cabeça, embora nalguns dias esteja melhor do que noutros, estará longe de se confundir com o esterco.
Mas aí é que está. Eu também poderei perguntar como é que o mesmo Adolf Hitler que adorava lindas criancinhas e cães, mandava milhares de pessoas para campos de concentração para serem dizimadas como frangos num aviário. E como é que o mesmo Bin Laden que pregava contra a decadência ocidental andava ao mesmo tempo a ver filmes pornográficos, com actrizes e actores que, certamente, não passavam os filmes a dizer Allah u Akbar. E como é possível que o engenheiro Sócrates que durante anos tudo fez para estupidificar estudantes e professores, queira ir agora para Paris estudar Filosofia.
Das duas uma, ou são as moscas que se aproximam da racionalidade humana ou então são os seres humanos que se aproximam da irracionalidade das moscas. Enfim, o mais certo é a clássica distinção entre racionalidade e irracionalidade não ser assim tão óbvia quanto parece à primeira vista.
Se eu perguntasse a uma mosca o que lhe cheira bem, ela bem poderia responder-me: "Tanto adoro os restos do teu almoço como o champô de manga e flor de tiaré do teu cabelo".
Pronto, ok, é impossível as moscas falarem. Mas existem seres humanos que, embora pareça que falem, o que fazem mais é zumbir.

9 comentários:

josé manuel chorão disse...

"Em cada momento
Sou eu mesmo
E o Outro"
(desculpa, mas não me lembro do autor)
___________
Post-Scriptum: tinhas prometido que não voltavas a falar do pseudo-engenheiro...

José Ricardo Costa disse...

Estarás a pensar no Rimbaud, que dizia "J'est un autre"? Daí podermos falar num Rimbaud 1 e num Rimbaud 2. Não chega aos calcanhares do Rambo 5 mas também naquele tempo, e apesar de ele ser um aventureiro, as viagens eram mais difíceis.

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mar Arável disse...

Varejeiras ao poder

antes que deem cabo disto

jrd disse...

Ainda ontem estive a ouvir o Medina Carreira a zumbir no meu televisor
E que bem que imitava a mosca residente...

m.a.g. disse...

Elas (as moscas) adoram-nos pela nossa semelhança genética. E se pensarmos bem, os humanos por vezes também se sentem atraídos por bostas :)

Carla Teixeira disse...

AHAHHAHAH Tão engraçado que tive de partilhei no facebook

Carla Teixeira disse...

Gostei do meu "tive que partilhei! eheheh

Carla Teixeira disse...

Ainda não acertei ahahah "...que tive de pertilhei..." ( isto, porque estou a estudar português!)