20 junho, 2011

9 ANOS DE RAZORA


                                                                       Goya

Há interrogações angustiantes que me perseguem há anos, sem que eu saiba o que fazer com elas: Deus existe? Qual a razão da minha existência? Porquê o mal? Há vida para além da morte? O Benfica voltará a ser campeão nos próximos 10 anos? Tudo questões insolúveis, tirando a última cuja resposta pode ser obtida daqui a 10 anos.
Há uma outra que também me persegue há anos e que embora tenha um conteúdo menos metafísico,  pareceu-se sempre tão insolúvel quanto as outras: como é possível chegarem ao 10ºano alunos sem saber ler e escrever? Hoje, porém, tive finalmente a resposta: não aprendendo.
Quis o destino que eu fosse hoje vigiar a prova de Português do 9ºano. Abri a prova e quase de imediato fiquei em estado de choque. Aquela prova é um insulto à inteligência do ser humano e a negação da teoria da evolução das espécies.
Vejamos dois exemplos.

O primeiro grupo da prova traz um texto de José Mário Silva escrito no Expresso, ao longo do qual vai comentando 8 célebres inícios de 8 romances. Ora, qual é o exercício do aluno? Fazer corresponder 8 pistas dadas pelos examinadores aos 8 comentários do autor do texto, para descobrir o romance em questão.

Exemplo 1: O aluno teria que descobrir a que comentário de José Mário Silva corresponde a seguinte pista: "uma obra-prima de um autor galardoado com um Nobel e cuja primeira frase expressa um sentimento de melancolia".

O aluno só tinha que olhar para a folha e encontrar esta opção com o seguinte comentário de JMS a respeito do início de Morte na Catedral: "Quarenta e um anos antes de ganhar, com inteira justiça, o Nobel da Literatura, Vargas Llosa começava assim, em tom melancólico, a sua obra-prima".

Exemplo2: "Narrativa que apresenta marcas da ironia do seu autor e cuja primeira frase é desconcertante para o autor".

O aluno teria apenas que olhar para a folha e encontrar o comentário de JMS a propósito de Memórias Póstumas de de Brás Cubas: "Mestre da ironia e da invenção narrativa, o maior escritor brasileiro de todos os tempos diverte-se a desconcertar (...)".

E assim sucessivamente com as outras  seis misteriosas pistas para seguir. Nove anos de aprendizagem da língua materna para chegar este terrível imbróglio linguístico-policial.

Depois, na gramática, também após 9 anos de escolaridade pede-se ao aluno para aplicar os tempos dos verbos da seguinte maneira:

1. Os actores dessa peça____________  (obter) grande reconhecimento do público pelo seu trabalho (Pretérito Perfeito).

2. A representação dessa peça ____________ (trazer) muito sucesso à companhia de teatro (futuro do indicativo).

3. Os actores esperaram que os espectadores ___________(parar) de aplaudir. ( Pretérito Imperfeito do conjuntivo).

4. Se essa companhia de teatro _________(vir) a Portugal, quero assistir ao seu espectáculo. (Futuro do Conjuntivo).

No fim da prova, um aluno chamou-me porque se tinha enganado a escrever o número do BI. Como é da praxe, fi-lo rasurar e disse para escrever essa informação no local próprio da folha para esse efeito. E lá escreveu: "razorei o numero do BI".
Estou ansioso por saber que nota irá ter no exame. A partir de Setembro, no 10ºano, em filosofia, irá começar a ler textos de Platão, Aristóteles, Kant, Stuart Mill ou Rawls. Desta vez irei entendê-lo um pouco melhor.
A ilustração de Goya não serve para humilhar os alunos. Serve apenas para denunciar o que alguns teóricos e políticos pretendem fazer dos nossos jovens que, depois de 9 anos de escolaridade, são tratados como indigentes.

5 comentários:

Fred disse...

Mas esse exame mais parece da 4ª classe...lol


Um abraço!

josé manuel chorão disse...

Totalmente de acordo.
tambem lá estive, a vigiar esse exame. No final, uma aluna disse-me: " Para um exame destes escusava de ter estudado"; outra acrescentou: "Os testes, durante o ano, foram todos muito mais difíceis, ainda bem que a minha professora é exigente."

Ou seja, os alunos até estudam, até querem saber mais. Os professores até exigem, até tentam ensinar. Mas vem, depois, o Ministério da (des)Educação provar aos alunos que melhor fariam em ter ido para a praia, que quem estudou esteve a perder o seu tempo.
É muito triste e preocupante o que esta gentalha tem feito ao ensino em Portugal.
Estão a estupidificar as gerações jovens, estão a torná-los cada vez mais ignorantes e incapazes, sequer, de ler e escrever, quanto mais de pensar de modo crítico.
E muitos professores já desistiram, cansados de ser penalizados por tentarem fazer o que melhor sabem: ensinar.
O Ministério da (des)Educação não quer que ensinem, quer apenas que os alunos passem.
Tu, meu amigo, tens alguma esperança no novo Ministro. Espero que as coisas possam melhorar de facto, espero que tenhas razão e que a montanha não venha... a parir um Crato.

José Ricardo Costa disse...

Se este ministro conseguisse o milagre de trazer alguma decência à educação, passaria a venerá-lo e a chamar-lhe o Prior do Crato.

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fred disse...

De facto, isto é mesmo uma estupidificação.

Um insulto até para os próprios alunos.

Ou então, será perfeitamente normal, visto que pelo nível de conhecimentos mais baixo de uns se tem que baixar o grau de exigência...lol