20 maio, 2011

SANGUE VERDE



No Público de ontem, Pedro Lomba, contrariando a indignação de intelectuais europeus perante o facto de a polícia americana tratar Dominique Strauss Kahn (algemado, barba por fazer) como se de um vulgar cidadão se tratasse, recorreu a Tocqueville para justificar (e legitimar) esse tratamento.
Depois da sua viagem à América em 1830-31, para conhecer o seu sistema penitenciário,  Tocqueville explica a diferença entre a velha cultura europeia e a cultura americana. E diz que, contrariamente ao que se passa na velha Europa, onde as práticas de punição diferem de acordo com o status da pessoa, havendo, por isso, criminosos de primeira, de segunda e de terceira, na América não existe uma aristocracia ou verdadeira hierarquia social.
Muito bem. Mas, então, o que dizer sobre isto? O que aconteceria se, pelo contrário, fosse a empregada do hotel a tentar agredir sexualmente DSK? Certamente que não pagaria a caução para ficar em prisão domiciliária, significando isto que, muito provavelmente, a justiça americana não será assim tão insensível às diferenças entre um aristocrata que dorme num hotel de luxo e a empregada preta do Bronx que limpa o quarto do hotel de luxo.
O processo pode ser diferente (algemas perante as câmaras e barba por fazer). Mas a substância é a mesma.

(Livro a ler: Império, de Gore Vidal)

4 comentários:

josé manuel chorão disse...

Esse é precisamente um dos grandes problemas da Humanidade: a justiça, o que é exactamente isso e como se aplica.
Desde que os homens começaram a pensar, que não há acordo sobre o que seja a justiça. E, assim sendo, não há confiança em quem aplica o que não sabe o que seja. E, não havendo confiança em quem aplica a Justiça, como pode haver confiança em qualquer que seja a instituição do Estado?
Por mim, há muito que deixei de confiar na Justiça ou em qualquer outra instituição estatal.

jrd disse...

Eu também não estou a ver a empregada do hotel com a barba por fazer e, muito menos, a pagar um milhão de dólares de caução.

Anónimo disse...

Acho que este caso está mais para "Fogueira das Vaidades" de Tom Wolfe e o "grande réu branco". Mas um homem com tanta necessidade física deveria ser lúcido o bastante para procurar auxílio profissional...

Rita TSBGC disse...

Aqui a questão éum homem que se julga individual e não compreende que numa sociedade de caracteres ( US) o comportamento não tem fronteiras entre o público e o privado ( de um se infere o outro) DSK não compreende nada sobre o mundo das identidades e das suas lógicas...
( além disso é um tipo nojento.)