02 maio, 2011

O SUBLIME COMO CATEGORIA POLÍTICA


Vale a pena prestar alguma atenção à  presença da montanha no processo de mistificação de um regime político como a Coreia do Norte. Um simples efeito estético? Uma questão de gosto? Um pormenor geográfico associado ao relevo do país? Devemos ir mais longe para compreender o seu verdadeiro alcance.
A primeira ideia que me vem à cabeça quando vejo os dois ditadores rodeados por montanhas é a de um romance escrito por James Hilton, escrito em 1925, chamado Horizonte Perdido, que fala de um lugar paradisíaco, perdido nos Himalaias, isolado de tudo o resto. Como se esse "resto" pudesse infectar a pureza do lugar, pôr em causa a sua imaculada perfeição social e política.

Mas podemos recuar ainda mais no tempo. Vejamos o modo como Thomas More apresenta a sua utopia:

"Nem sempre a Utopia foi uma ilha. Chamava-se outrora Abraxa e estava ligada ao continente; Utopos apoderou-se dela e deu-lhe o seu nome. Este conquistador teve génio bastante para humanizar uma população grosseira e selvagem e formar dela um povo que hoje ultrapassa em civilização todos os outros. Logo que pela vitória se tornou senhor do país, mandou cortar um istmo que o ligava ao continente, e a terra de Abraxa tornou-se deste modo a ilha da Utopia." (A Utopia, Livro Segundo).

Estamos, com estes dois exemplos, no domínio da ficção. Mas infelizmente nem todos os textos obedecem a essa natureza ficcional. Passemos agora a outros dois textos e percebe-se onde quero chegar. Comecemos por este:

"Nunca será demais sublinhar a importância da geopolítica para um movimento cujo centro é fisicamente vital. A existência de tal lugar, imbuído como deverá estar por uma atmosfera mágica e encantada como as que rodeiam Meca ou Roma, a longo prazo consegue incutir num movimento essa força que reside na sua unidade interna".

Passemos agora a este:

" Estaline o arquitecto do novo mundo esteve na origem de um processo fantástico que é quase um conto de fadas, fazer de Moscovo uma nova Meca para onde acorrerá, vindo de todos os cantos da terra, o fluxo dos que combatem pela felicidade da espécie humana"

O primeiro texto é de Hitler, sendo retirado do Mein Kampf (1925). O segundo é de Nikolai Bukharin, tendo sido escrito 10 anos mais tarde, em 1935. Ambos mostram precisamente a importância do lugar, de um imaginário espacial subjacente à nova e perfeita sociedade que se pretende edificar, impondo-se uma descontinuidade espacial entre a normalidade, a vulgaridade de uma sociedade imperfeita e impura (por exemplo, uma democracia parlamentar) e a socidedade resultante do laboratório ideológico e religioso dos engenheiros sociais de Estaline (em sentido estrito) e de Hitler (em sentido lato), transformando uma simples cidade no centro simbólico do mundo. Em nenhum deles é sugerida a existência de uma montanha mas lá se encontra o princípio que lhe está subjacente.
Das quatro imagens expostas em cima, a minha preferida é a última. Porque para além da montanha temos ainda o nevoeiro que isola ainda mais os protectores e os protegidos do resto da humanidade. Como um raptor que rapta a sua vítima e depois faz-lhe crer que a verdadeira realidade é a sua e que lá fora existe um mundo cheio de perigos, insegurança, imprevisibilidade. A montanha é, pois, como um casa isolada, sabendo-se quem lá vive, como vive, sem quaisquer supresas. Um mundo no qual temos os pés na terra mas em que a cabeça já está próxima do céu, do qual os grandes ditadores são os guardiões.

Mas podemos ir ainda mais longe na compreensão do impacto da montanha, através da exploração de conceito de sublime analisado por Kant na sua Crítica da Faculdade de Julgar e cujo impacto na estética romântica do século XIX foi assinalável. Veja-se, por exemplo, isto:


Uma flor, um lago tranquilo, a sonata "Mondschein", uma pintura de Vermeer, uma criança podem ser "objectos" belos. Mas não são sublimes. Sublime será uma tempestade no mar, um vulcão, a altitude de uma montanha. Enquanto a beleza está ligada a uma harmonia, a um equilíbrio, o sublime está ligado ao que é absolutamente grande e escapa à capacidade de medida dos conceitos. O conceito compreende a beleza da flor, do que é tangível, mensurável. Mas não tem capacidade para compreender o que é absolutamente grande. O conceito perante o sublime é como o pequeno barco de um pescador na imensidão do oceano.

É com este espírito do sublime que Hitler surge com ar grave e imponente em Berghof,  a sua residência de férias,


como o homem da pintura de Caspar David Friederich que contempla a imponente montanha.Só que Hitler não surge de frente para a montanha como nós, vulgares mortais. Hitler é um prolongamento da montanha, faz parte do seu cenário. Hitler é um homem sublime, um homem imenso cuja natureza esmagadora está para lá da nossa compreensão conceptual. E do mesmo modo que o sentimento estético induzido pelo sublime é diferente do sentimento estético induzido pelo belo, também o impacto de Hitler em nós é completamente diferente do impacto de um político comum e banal como Churchill, Roosevelt ou De Gaulle. 

Do mesmo modo, a Alemanha nazi, o novo mundo em que um povo perfeito é guiado por um fuhrer iluminado, não é um mundo marcado pela vulgaridade da planície. Não é um mundo belo, sequer. É um mundo sublime, maior, mais imponente, mais empolgante do que qualquer outro. O novo mundo não tem a monótona beleza de uma flor. É como uma tempestade no mar. Neste caso, como a imensidão de uma montanha que nos esmaga, aterroriza, que nos reduz à nossa pequenez mas, ao mesmo tempo, nos conforta e protege na sua imensidão. Como um desfile em Nuremberga no qual o indivíduo se confunde com a imensidão protectora da uniforme massa humana que o rodeia.
Como nas Três Irmãs de Tchekov, Moscovo é, para o Partido Comunista da União Soviética, um lugar místico. Mas quem diz Moscovo, diz Nuremberga, Berghof, a Coreia do Norte, por onde comecei. O isolamento, visto assim, não é um pesadelo, uma distopia onde se sobrevive à custa de máscaras de oxigénio. Como na síndrome de Estocolmo, será, neste caso, um privilégio, apenas acessível àqueles que tiveram a sorte de serem guiados por um pai, um messias político, um César.

O problema é que a altitude da montanha rouba-nos o oxigénio. Queremos um ar tão puro que acabamos por não conseguir já respirar. E quando o cérebro deixa de ser oxigenado, deixa igualmente de trabalhar. E do mesmo modo que na Alegoria da Caverna há um prisioneiro que consegue escapar para o exterior, também nas imensas montanhas da utopia, há sempre aqueles que conseguem rebolar de novo para a planície e tomarem consciência do pesadelo. Aconteceu na União Soviética, aconteceu na Alemanha. Na Coreia do Norte, pelos vistos, está a ser complicado.
O sublime deve ficar mesmo reduzido ao plano da natureza. Deixemos a Deus o que é de Deus, aos políticos o que é dos políticos.

5 comentários:

josé manuel chorão disse...

Acho que a ideia é apresentar estes energúmenos como visionários. E, como tal, veriam mais longe e melhor a partir das alturas, acima dos homesn vulgares.
Pela mesma ordem de ideias, um outro energúmeno contemporâneo, o auto-denominado engenheiro, andou este fim de semana pelo Alentejo. Almoçou ontem na Serra de Ossa, um dos pontos mais altos aqui da região.
Quererá ele ir pelo caminho megalómano dos ditadores que tu aqui apresentas? Não me parece, é demasiado tacanho e de sublime este pseudo-engenheiro não tem nada...

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O Puma disse...

No sistema terrorista

só alguns canalhas morrem com balas

os outros

de morte natural

José Trincão Marques disse...

Este post lembrou-me alguns aspectos do pensamento de Miguel Torga.
Torga definiu-se como um «geófago», pela importância que a terra e a paisagem tinham na sua vida: «Sou na verdade um geófago insaciável necessitando diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de agua e sal, e atiro-me às serranias como à broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes e de montanhas, e quase me sinto depois uma província suplementar de Portugal». A obra de Torga é um estudo e uma reflexão permanente sobre as relações que os homens têm com a terra e a paisagem que habitam e acerca das marcas culturais e psicológicas que estas imprimem naqueles. A propósito das montanhas escreveu o seguinte: «Estas serras são nossas até na pequenez. Como nunca sobem mais acima do que as possibilidades de certas raízes teimosas, a vida tem sempre nelas uma espécie de calma remediada. Falta-lhes aquela zona de esterilidade altiva, onde a morte se coroa de flores de neve. Nesses cumes alpinos que a natureza ofereceu a outros povos, apenas as sementes metafísicas da inquietação podem germinar. E o vento do espírito tenta afanosamente semeá-las, a golpes de ascese.»

Rita TSBGC disse...

Obrigado ! Por ser um "Agitador com senso estético"!
Tenho andado a pesquisar ( mestrado oblige) a utopia, Monte Veritá, o Laban e a Mary Wigman, o eco de Wagner ( via Cosima) na proposta estética NAzi, confesso que é um mergulho complexo, que obriga a esforços de isenção, e a uma capacidade de não implicação que me é alheia. Sucumbe.se perante o sublime, extasia-se perante o belo.