17 maio, 2011

MUITO SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS E UMA NEGATIVA



Eu acho que sou uma pessoa normal. E também acho que o meu filho mais novo é uma pessoa normal. E embora nunca tenha sentido qualquer apetência para manter comércio com o sobrenatural, já começo a ter um razoável património de estranhas histórias com ele, como esta que aqui relatei em tempos.
Desta vez aconteceu o seguinte. Combinei com ele (quer dizer, obriguei-o) estudar um pouco de História para um teste. Sento-me ao lado dele com o livro aberto e pergunto-lhe o que já sabe da matéria. Perante a minha vil e despudorada pergunta limita-se então a apontar o dedo para uma ilustração da batalha de Poitiers que está no livro e que aparece reproduzida ali em cima.
Conhecendo bem o meu filho, percebi de imediato querer isso dizer, como era previsível, que não sabia nada. Ou seja, a única coisa que sabia sobre Mouros na Península Ibérica e sua caminhada para norte, o Condado Portucalense, o Tratado de Zamora ou a economia na Idade Média, era uma colorida, dramática e emocionante imagem de uma batalha medieval.
Ok, mas que tem isto tão de especial? Acontece que minutos antes de me sentar com ele para lhe ensinar a história da qual ainda nada sabia, tinha estado a ler um texto de Isaiah Berlin sobre Winston Churchill, onde, a páginas tantas, diz o seguinte:

«Churchill vê a história – e a vida – como um grande cortejo Renascentista: quando pensa em França ou na Itália, na Alemanha ou nos Países Baixos, na Rússia, na Índia, na África, nos países Árabes, aquilo que vê são imagens históricas vivas – qualquer coisa entre as ilustrações vitorianas de um livro de história infantil e a majestosa procissão pintada por Benozzo Gozollo no Palácio Riccardi. O seu olhar nunca é o olhar puramente classificador do sociólogo, minuciosamente psicológico do analista, preserverante do antiquário, paciente do estudioso de história».

Eu vinha ainda com estas palavras na minha pobre cabeça quando aquela criatura que é carne da minha carne e sangue do meu sangue me diz que a única coisa que sabe de História é aquela imagem. Ou seja, muito sangue, suor e lágrimas à frente dos olhos e uma tremenda ignorância sobre o assunto.
Porém, se ele tiver negativa no teste, onde irei eu arranjar legitimidade para o criticar, se Winston Churchill via assim a história e chegou a primeiro-ministro? E, tendo sido um homem tão independente, o seu Inglês até nem era propriamente técnico.

3 comentários:

jrd disse...

Por vezes uma negativa pode resultar positiva.
A visão do seu filho dá-lhe, ao menos, a tranquilidade de saber que, sempre que ele ouvir Wagner, não vai ter vontade de invadir a Polónia.

Ivone Costa disse...

E, como ele em Londres se sente em casa, tudo indica que poderá seguir os passos do velho Winston ... muito borgesiano esse menino!

Margarida disse...

LOL!