26 maio, 2011

A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR KADAFI


                                                                      Caravaggio

«É um facto indiscutível que tanto o homem como a mulher são seres humanos»

«A mulher é uma fêmea e o homem é um macho. De acordo com os ginecologistas, a mulher é menstruada ou está doente todos os meses, enquanto que o homem, sendo macho, não é menstruado e não está sujeito ao período mensal de hemorragia»

Fui dar, oculto numa prateleira, com um dos volumes do Livro Verde, do Coronel Kadafi. O livro é muito pequeno e fininho, daí estar numa espécie de purgatório sem que eu disso tivesse consciência desde os anos 70 do século passado.
Expressões como as que transcrevi são muito interessantes. Não pelo conteúdo mas pela forma. Dizer "é um facto indiscutível que", para lembrar que o homem e a mulher são seres humanos, ou apoiar-se nos ginecologistas para dizer que a mulher é menstruada todos os meses, pode ajudar a compreender como funcionam as cabeças de pessoas que não têm nada para dizer mas que falam como se fizessem as mais espantosas revelações.
Pega-se na maior banalidade para transformá-la numa verdade que pertence ao iluminado que a profere. Dizer que o homem e uma mulher são seres humanos é uma verdade evidente. Mas se alguém que tem poder sobre nós afirmar que se trata de um "facto indiscutível", passa a fazer parte de outra ordem de verdade.
Nós sabemos que o círculo é redondo. Mas se num texto sagrado surgir um deus, afirmando que "é um facto indiscutível que o círculo é redondo", isso significa que o seu nível de consciência dessa verdade é diferente do nosso.  É como se fosse o responsável por essa verdade, o detentor dessa verdade, aquele que sabe que é verdade e percebe melhor do que ninguém por que é verdade. Sim, pode parecer estúpido no caso do coronel. Mas o seu efeito psicológico não pode ser desprezado, sobretudo quando o processo de idolatração está em marcha ou já consumado.
Na segunda frase encontramos outra tremenda banalidade. Mas, neste caso, surge a ciência como uma espécie de ubíqua consciência do real que lhe dá uma superioridade científica que, ao mesmo tempo, reforça a grandiloquente identidade do grande pensador. O coronel não é um cientista, neste caso, um ginecologista, mas socorrer-se da ginecologia para afirmar o que toda a gente sabe, induz nas pessoas a ideia de que não lhe basta dizer o que toda a gente sabe, afirmando-o com base numa espécie de omnisciência resultante de uma relação próxima com a ciência. Mais uma vez, ele sabe o que toda a gente sabe mas sabe-o num outro nível de consciência. Uma pessoa normal dirá que a mulher é menstruada todos os meses. Mas dizer que "segundo os cientistas a mulher é menstruada todos os meses" confere ao seu autor um suporte científico apesar de não ser cientista. Não é cientista mas fala como se a ciência fosse a sua língua natural, dando-lhe um estatuto superior.
Estas duas frases podem parecer avulsas e inócuas. Mas se pensarmos em muitos ditadores, políticos paternalistas, "pais dos povos", veremos que é precisamente isto que acontece. 
Mas não é só na política. Lembro-me de uma reunião em que eu discutia um assunto com uma colega especialista em Ciências da Educação. Ao perceber que estava a perder, não resistiu e disse finalmente "X é verdade porque fulano Y (um americano qualquer) escreveu no livro Z que X é verdade".
Eu nunca tinha ouvido falar no fulano Y. Provavelmente, hoje, ninguém ouvirá também já falar dele. Os cemitério estão cheios de pessoas que disseram verdades e coisas muito importantes. 

3 comentários:

Ega disse...

E depois vem a catrafada de aduladores comentadores que irão debruçar-se, escrevendo intermináveis tratados, comentários ou glosas, sobre semelhantes verdades, para chegarem à singular conclusão de que tudo aquilo é genialidade.

jrd disse...

O rigor cientifico desse volume do Livro verde de "Ernesto" Kadafi, pode e deve ser posto em causa, no que respeita à ginecologia.
A saber: A mulher, sendo fêmea, quando está grávida deixa de ser menstruada, logo, deixa de estar doente e depois da menopausa fica definitivamente saudável.
O homem, sendo macho, não tem menstruação, mas lá que tem hemorragias, disso ninguém duvide, nos últimos tempos, então, tem sido cá uma sangueira!...
Já agora, as mulheres da guarda pessoal do Coronel serão humanas e terão hemorragias?...

josé manuel chorão disse...

É a velha questão do modo como cada um se posiciona em relação à realidade.
Aquilo que é verdade para um, será falso para outro, aquilo que é óbvio para um, será uma descoberta maravilhosa para outro (pelos vistos, o Coroné terá descoberto, em algum manual de ginecologia, que as mulheres menstruam, algo que antes não saberia e o terá maravilhado...).
A cada um o seu nível de realidade (o problema é termos de nos aturar uns aos outros...).