31 maio, 2011

IDEOLOGIAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS



Ontem, deixei de dar a minha aula de filosofia para irmos para uma palestra sobre sexualidade. Hoje, estava numa outra turma a dar aula e falavam os alunos da palestra sobre sexualidade em que irão participar sexta-feira.
Estava eu a pensar na overdose de sexualidade a que têm estado sujeitos os alunos, e reparo num pormenor interessante. O sufixo da palavra sexualidade. O que significa, exactamente, sexualidade? Qual é a diferença entre sexo e sexualidade?
O sexo é uma prática social em que dois seres humanos interagem sexualmente. Nós sós existimos, eu só escrevo o que estou a escrever e o leitor só lê o que está a ler porque um dia dois seres humanos, os nossos pais, tiveram relações sexuais. Somos seres sexuados e, como tal, temos relações sexuais, independentemente de sermos ou não casados, de estarmos ou não apaixonados, de termos 1 ou 346 parceiros sexuais. E o que faz alguém que faz sexo, só a essa pessoa caberá saber. Pronto, isto é sexo.
Ora, o que acontece com a sexualidade é qualquer coisa de muito diferente e que pode ser visto de duas maneiras.
Por um lado, como um eufemismo. Quem fala de sexualidade não fala de sexo mas de sexualidade. A higiénica e depurada noção de sexualidade está para o sexo como antigamente a cegonha para as relações sexuais. Diz-se "sexualidade" como se diz sobre uma pessoa que morreu "que partiu". Admito lidar muito bem com esta noção. É uma questão de pudor, de abordar temas delicados com alguma elegância e elevação. Pacífico.
Mas há um outro sentido para sexualidade, este, sim, absolutamente nefasto e tenebroso: a sexualidade como ideologia ou como moral. Ou seja, a ideia de que o sexo é muito mais do que sexo, é uma realização do ser humano, uma forma de emancipação pessoal, afectiva, psicológica. Vamos lá ver o seguinte. No fundo, até o é. Nós não somos animais e o sexo entre seres humanos implica, de facto, um conjunto de pressupostos de natureza afectiva, emocional, interpessoal. Muito bem, de acordo.
Mas o problema não é esse. O problema é tornar o sexo num domínio em que o Estado se arroga no direito de doutrinar sobre comportamentos e valores, desconfiando das capacidades naturais dos individuos para viverem o sexo de um modo saudável (seja lá isto o que for).
Houve, desde sempre, a tentação de  domesticar politicamente os indivíduos, fazendo da sua felicidade uma questão política, gerida pela sabedoria e o conhecimento daqueles que possuem um melhor acesso à verdade. Foi assim, durante séculos, com a igreja.
Acontece que, hoje, a igreja foi substituída pela ciência e os sacerdortes e teólogos substituídos pelos técnicos, pagos por sua vez pelos políticos que confiam na sua capacidade para construir uma sociedade de seres humanos felizes.
Temos, pois, a sexualidade como um desígnio republicano, delegando-se na república a responsabilidade de incutir nas criancinhas e jovens o que é "boa sexualidade", uma "sexualidade saudável", uma "sexualidade responsável", uma "sexualidade dos afectos". Porquê? Porque se acredita que se não for esse poder paternal do Estado, iremos cair mais na tarde na violência doméstica, na pornografia, nas taras, na promiscuidade sexual, no indivíduo escravo dos seus instintos primários, na prostituição, na redução da mulher a um objecto sexual.
Ou seja, o indivíduo é infantilizado, menorizado, reduzido a uma condição de dependência face a um Estado paternal que nos salva através de livros didácticos, documentários giros, cartazes fixes, preservativos que vieram ocupar nas escolas o lugar antigamente ocupado pelos crucifixos, centenas de palestras nas quais se impinge pela 563ª vez a retórica dos afectos.
Estamos mesmo condenados a sermos transformados em ratinhos nos laboratórios das modernas democracias que zelam pela nossa felicidade.

4 comentários:

josé manuel chorão disse...

Vou contar-te uma história pessoal, fica aqui entre nós, que ninguém nos ouve:

Teria eu uns 8 anos, mais ou menos, andava portanto na escola primária, descobri uns livros de poemas do José Gomes Ferreira. Comecei a ler e adorei aquilo; eram poemas livres, abertos, que diziam as coisas de um modo bonito, imprevisível, livre, até me parecia que de um modo um pouco desbocado (o que me agradava muito, claro).
Durante uns bons tempos li José Gomes Ferreira um pouco às escondidas, guardei os livros por trás dos outros, era um segredo só meu.
Anos mais tarde, nas aulas de Português, aprendi a teoria da poesia, a divisão silábica, as regras da rima, as figuras de estilo, métrica, eu sei lá que mais. E a poesia perdeu, para mim, o maravilhoso, tornou-se institucional, aborrecida.
Durante uns bons tempos, a escola conseguiu estragar-me o prazer da poesia. Claro que, anos mais tarde, recuperei a poesia para a vida, agora por minha própria conta e risco.
Com a sexualidade talvez se passe algo semelhante: o Estado quer dar-nos cabo do prazer, ao institucionalizar a coisa. Ao torná-la consciente, pensada, higiénica, preservada,planeada, quer acabar com o prazer do sexo. É por isso que não levo os meus alunos a essas tretas, porque há coisas que dão muito mais prazer se formos nós a descobri-las do que se nos forem ensinadas; e porque não quero que eles venham, no futuro, a associar as institucionais ventas ministeriais à sexualidade, com todo o mal que isso acarretaria para a felicidade deles...

Fred disse...

Excelente leitura! Simplesmente!


Um abraço!

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Paula Sena disse...

Excelente crítica sobre um tema repleto de contradições.