11 maio, 2011

GILDA


"Os homens vão para a cama com Gilda, mas acordam comigo", Rita Hayworth



Li em tempos uma pequena biografia de Rita Hayworth. O que mais me impressionou foi o comentário da actriz perante o facto de os stripteases que fazia para os seus amantes e maridos nunca serem levados até ao fim: “Todas as mulheres têm uma certa elegância que é destruída quando tiram a roupa”.
Temos, pois, a roupa como uma segunda natureza ou uma segunda fisionomia que se sobrepõe à verdadeira. A roupa, tal como a maquilhagem, permite assim criar um ser humano idealizado, que se aproxima de uma perfeição que esconde a verdadeira identidade de cada um.
É por essas e por outras que Platão, num texto chamado Górgias, diz preferir a ginástica à cosmética. Porque enquanto a ginástica torna o corpo verdadeiramente bonito e saudável, a cosmética fá-lo de uma forma falsa e ilusória.
Mas é a própria Rita Hayworth que, referindo-se à mais emblemática das suas personagens, Gilda, diz numa simples frase algo que o próprio Platão não deixaria de aplaudir: “Os homens vão para a cama com Gilda, mas acordam comigo”.
Num livro chamado Introdução à Mediologia, Régis Debray ajuda a perceber o populismo vazio que hoje inunda cada vez mais a política. Pensemos, por exemplo, em José Sócrates ou Passos Coelho. Quem são estes homens? Ou melhor: o que são? Tirem-nos da televisão e o que fica, afinal? Tal como Gilda, são produtos criados para serem apenas vistos e, a partir dessa visão, criam uma mitologia que alimenta devoções à volta de heróis virtuais e de pacotilha.
Uma das coisas que Debray faz no livro e que permitem compreender o modo como são construídos muitos mitos modernos é transferir elementos das antigas sociedades tradicionais para a sociedade contemporânea, através de uma lista de substituições:
A escrita substituída pelo audiovisual.
O estatuto social do ancião substituído pelo do jovem.
A verdade que é conferida por Deus, substituída pela verdade como sendo o que aparece na televisão.
Os dogmas substituídos pela informação.
A fé como motor de obediência, substituída pela opinião.
O santo como mito de identificação, substituído pela vedeta.
O rei como princípio de unidade social, substituído pelo líder, a sondagem, a audiência.
A alma substituída pelo corpo.
O eterno substituído pelo acontecimento e culto do presente.
Os sujeitos substituídos por consumidores.
Sócrates e Coelho são apenas stripteasers que, com as suas maquilhagens, roupas e poses fatais, mostram apenas o suficiente para pôr o eleitorado a arder de desejo, evitando sempre, tal como Rita Hayworth, levar o espectáculo até ao fim.
A verdadeira nudez é só mesmo para alguns.

9 comentários:

naji disse...

Grata pela partilha,da nudez dos seus textos.

Fernanda Brito

Anónimo disse...

José Sócrates e Passos Coelho não valem a sua atenção! Pague os seus 700 euros e saia para outra.

Anónimo disse...

Por favor, aceite uma sugestão e de uma passada no blog:

http://cyberdemocracia.blogspot.com/

jrd disse...

O meu comentário deve ter sido cortado pela troika.
Vou tentar repô-lo de memória:
O Sócrates nu, só se fosse rei e ele não passa de primeiro-ministro.
Quanto ao Passos Coelho?... Nem o La Féria conseguiu fazer dele um streapper, quando lhe fez um casting.

José Ricardo Costa disse...

Caro, jrd, agradeço a reposição do comentário. Aproveito para lamentar os comentários apagados. Apesar de não ter qualquer responsabilidade nisso, as minhas desculpas.

Anónimo disse...

gosto mt de cinema , dos clássicos(?), dos " a preto e branco", do Gilda, um dos filmes da minha vida, Com um Glenn Ford a levar estalo e de estalo.Seria possível pedir-lhe a refª da biografia da Rita? Obg.

José Ricardo Costa disse...

Rita, as minhas desculpas mas não consigo dar-lhe a referência. Já foi mesmo há bastante tempo que li. Terá sido numa revista ou suplemento que já não consigo identificar.

Anónimo disse...

Evitando sempre (...) levar o espectáculo até ao fim" (neste pormenor de JS e PC)... Não sei.
Acho que a comparação com os políticos não pode encarar-se do mesmo jeito.
jl

Anónimo disse...

Nem tudo está perdido:

"E já que falamos de livros, se passarem pelo Chiado, em Lisboa, não deixem de espreitar a livraria Bertrand. Está aberta desde 1732. Entrou para o "Guinness" como a livraria mais antiga do mundo ainda em atividade.
Não é a "livraria mais bonita do mundo" porque essa -para mim e para o escritor espanhol Enrique Vila-Matas -fica no Porto: é a Lello. Mas tem o peso da história", Isabel Coutinho para Folha de S.Paulo.

Tudo está perdido:

"O meu país é uma ficção. Quando Otelo Saraiva de Carvalho, o capitão da Revolução dos Cravos, dá entrevistas a dizer que "se soubesse como o país ficava, não tinha feito a revolução", ou que "precisávamos de um homem com a inteligência e a honestidade do ponto de vista do Salazar", ou que nos "falta quem saiba orientar o povo (...) com espírito de missão", acho que já nada se salva", Isabel Coutinho, para Folha de S.Paulo.

PS: Não se dê ao trabalho de postar. É apenas para lhe alegrar e enfurecer.Equilíbrio é tudo!