24 maio, 2011

EDUCAÇÃO SEM SINAIS DE ESPERANÇA


Por ter andado a leccionar a experiência estética no 10ºano, aproveitei, como sempre faço, para mostrar alguma pintura, fotografia, música e cinema, analisando as obras a partir de referências ensinadas (peço desculpa pela fascista violência da palavra) nas aulas. No caso do cinema, resolvi este ano passar um dos filmes do Decálogo, do Krzysztof Kieslowski, o 1º Mandamento.
É sempre arriscado passar a garotos de 15 anos um filme que não tem crimes, perseguições, monstros, sexo ou comédia. E um filme com uma respiração europeia passado numa Polónia fria e cinzenta. Com uma história profundamente dramática mas explorada com uma discrição e uma estratégia estética muito longe daquela dos filmes de domingo à tarde.A verdade é que os garotos gostaram. Uns mais do que outros, claro, mas a reacção geral foi bastante positiva. E falaram com bastante interesse sobre o filme.
Conto isto para dizer que uma das coisas que mais falta faz na educação são os desequilíbrios. Mas é precisamente o contrário que se está a passar. Sentindo-se legitimados por doutrinas idiotas das Ciências da Educação, muitos professores com um instinto maternal e paternal algo exagerado, acabam por infantilizar os alunos, não permitindo a sua evolução natural.
Vemos hoje cada vez mais alunos com comportamentos e processos mentais regressivos, resultado desse letal casamento. Os alunos não podem esforçar-se, têm que ser protegidos, poupados, adiados, desresponsabilizados. A florzinha tem que crescer com o tempo que a natureza lhe deu.
Só que a natureza é estúpida, tendo que ser o homem a contrariar essa estupidez. Educar uma criança consiste precisamente em educá-la contra a natureza. Como está a ser feito o contrário, muitos alunos chegam ao fim da sua escolaridade, estando mais aptos para viver numa selva do que no mundo civilizado.
A educação em Portugal ainda espera pelo seu Decálogo. Assemelha-se mais a um monte dos vendavais do que a um monte Sinai.

8 comentários:

Anónimo disse...

Recentemente assisti toda a serie em um festival. Gostei bastante de uns e menos de outros. Mas duvido que gostasse de qualquer um deles com 15 anos. Gostava do usual: pancadaria, carros velozes, tiroteio e mulher pelada. Não me arrependo: tudo tem sua hora.

josé manuel chorão disse...

A educação, neste país, tem sido vítima de uma pseudo-pedagogia de cariz socialista, cujo único fim é a estupidificação dos alunos. Através do facilitismo, da desculpabilização da burrice, das passagens de ano forçadas,da intimidação aos professores, estes energúmenos do Pê Ésse têm conseguido criar uma geração acéfala e acrítica. Que se prepara para os reeleger.
Quanto mais estúpidos, mais chuchialistas.
É a política da aparência, que fez deste país uma terra de doutores e engenheiros (nem que os diplomas sejam obtidos ao domingo, que interessa isso?) mas sem capacidade para interpretar um texto ou para olhar o mundo à sua volta e dele ter uma opinião própria e fundamentada.
Orwell escreveu 'O triunfo dos Porcos', sócrates (minúscula propositada) impôs o triunfo dos burros.

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rita TSBGC disse...

DE tanto se falar de emoção e compreensão, a experiência educativa tornou-se anestética, não consegue provocar os sentidos pois estes estão entupidos pela falsa experiência ( a virtual)...
(oops! Platão em excesso é o que dá, grutas e sombras por todo o lado)
Falta convocar para a educação um dos intervenientes : O EDUCANDO, ele está implícito mas não se inscreve ( numa perperpectiva Giliana /José Gil) na sua própria educação. SEm compromisso, não há responsabilização nem hipótese de contrato...
A Educação não serve apenas para perpetuar os modelos, serve para provocar as sinapses a fazerem ligações perigosas, inusitadas, mas para isso é essencial conhecer o canone/matrizes e namorar as suas derrocadas.
( nota a regressão também pode ser consequência da apreensão face ao futuro e a mutação em curso...)

Anónimo disse...

Talvez o tão maltratado Ivan Illich (1926-2002) estivesse com razão.

Anónimo disse...

Escola é um problemão. Qual era a educação de um menino ateniense? Até onde sei - e sei muito pouco - era aprender a ler e decorar a Ilíada e a Odisseia. No entanto... Um cara como Paster estudou em que lugar? Não foi no MIT. O povo mais educado da Europa elegeu Hitler. Shakespeare e Mozart tiveram que tipo de educação? Também tem esses pintores maravilhosos da Renascença italiana e holandesa. Deixando de fora o aprendizado técnico, onde eles aprenderam os temas dos quadros. Veja as sutilezas da Escola de Atenas, para ficar no mais óbvio. Japão e Coréia do Sul estão no topo da educação mundial, mas de lá não sai nada a não ser quinquilharias. E a Suíça, que em 500 anos só produziu o relógio cuco? Nem tudo está perdido e Portugal não vai interromper a marcha da civilização. Talvez, nos aqui, consigamos, mas vocês? Sem chance!

José Ricardo Costa disse...

Pelo que me é dado ver, desconfio que Portugal ainda vai ter que aprender muito com o Brasil. Isto por aqui anda com bastante falta de sal. Na minha área, a filosofia, somos mesmo uns anões ao vosso lado.

Carla Teixeira disse...

Anónimo chegou e disse tudo!