27 maio, 2011

CINTO, LOGO EXISTO


                                                                  Jean Michel Basquiat

Há dias, numa aula, um aluno já com idade para votar, trabalhador-estudante, riu-se do pai, chamando-lhe saloio, porque andava com a camisa para dentro das calças. Para reforçar a sua hilariante avaliação, lembrou ainda que até se via o cinto. Isto, claro, perante a gargalhada geral da turma. 
Mal acaba de falar, olho desconsolado para mim mesmo e dou por mim com uma camisa para dentro das calças. E com o meu cinto tão visível como o nariz mentiroso do engenheiro que pastoreia a pátria. Pensei então se me teria tornado num professor da triste figura, trocando apenas o fiel Rocinante pela minha ainda mais fiel 4L. Ora, em defesa da minha auto-estima, tenho a dizer o seguinte.
Eu sei que agora é moda andar com a camisa para fora das calças. O problema não é esse. A moda é uma coisa muito importante e tem que se andar na moda. O problema é um jovem de 18 anos estar convencido de que o centro do mundo está nos 18 anos.
Quando eu tinha 20 anos, andava com um casaco da tropa alemã, uma camisola grossa de lã saída das agulhas milagrosas da minha mãe, uma barba de padre ortodoxo e umas calças de ganga lavadas de mês a mês. Era assim que andava vestido, era assim que gostava de andar vestido e era assim que pensava ser vestir bem. Mas jamais me passou pela cabeça que o meu pai andasse assim vestido ou que a minha mãe, em vez de estar na mercearia com as vizinhas a falar das doenças, andasse com umas sandálias de cabedal e um lenço palestiniano ao pescoço, desenhando folhas de cannabis pelas paredes de Torres Novas.
Este jovem aluno, porém, não é de todo desprovido. Ele pensa assim porque a própria sociedade se tornou assim. Ser jovem já não é apenas uma fase transitória, um período probatório antes de se entrar na vida adulta. Ser jovem é um fim em si mesmo, um ideal que atravessa todas as idades. Hoje, um jovem de 20 anos já não observa os adultos para saber como, dentro em breve, se deverá vestir, pentear e falar. O que vemos são pessoas de 30, 40, 50, 60 anos, observando avidamente os garotos de 20 anos para aprenderem a perpetuar a juventude que teimam em não perder.
Ok, poder-se-á dizer que nada há de errado nisto. Não. Está tudo errado nisto. O mundo civilizado cristão precisa, como de pão para a boca, de adultos a sério e não de adultos de aparelho nos dentes. Projectar uma sociedade com base num paradigma juvenil é prepararmo-nos para cuspir milhares de anos de conquistas civilizacionais, em troca de pastilhas elásticas cujo sabor passa depressa e que depois de bovinamente mastigadas se deitam fora.
Podem chamar-me saloio, bimbo, barrão, foleiro, pindérico. Mas irei continuar a usar as minhas camisas para dentro e a mostrar orgulhosamente o meu cinto. Posso fazer uma triste figura. Mas do meu mundo ninguém me tira.

10 comentários:

jrd disse...

Coitado do seu aluno, que vai ter de andar sem camisa e com as calças na mão...

josé manuel chorão disse...

Totalmente de acordo, porra. Até que enfim que alguem diz (escreve) isto.
Uma sociedade que pauta os seus comportamentos por essa triste amostra de gente a que chamam "jovens" é uma sociedade doente, decrépita,moribunda.
Eu orgulho-me muito de ser velho, usar a camisa dentro das calças e o cinto à mostra. E malinhas daquelas dos velhos, de couro e tudo (não são cá aquelas mariquices em tecido). E corto o cabelo num barbeiro que tem as paredes cheias de posters do Benfica (não é cá em cabeleireiros...ora toma!).
E quem manda nas minhas aulas sou eu, não são os alunos, esses fedelhos mal-cheirosos, de ténis sebentos e borbulhas na cara. A democracia fica à porta da sala, lá dentro é a velha autoridadezinha professoral que impera.
Esse malandreco que, em público, goza com o próprio pai que o criou...não merece senão desprezo; pior: não merece ter um pai.
A sociedade faz-se de valores; da sua preservação e transmissão aos mais novos. Mas só pode transmitir valores quem os possui e não quem ainda mal sabe limpar o rabo e já se arma em dono da verdade. Humildadezinha e estudo, é o que faz falta a esta geração habituada ao facilitismo. Digo eu, que sou velho e me orgulho disso.

Helena Oneto disse...

Excelente!:)

José Trincão Marques disse...

Tens razão Zé Ricardo.

José Manuel Vilhena disse...

Por acaso reparo após o ler, deliciado, que tenho a camisa para fora.Outras vezes trago-a por dentro...e sempre adorei cintos.Tem dias...acho que o importante é ter dias...
:)

Anónimo disse...

quando conheci o meu marido, há 11 anos, ele também usava a camisa dentro das calsas mas fazia uma especie de fole com a mesma para tapar o cinto. Fui eu que o ensinei a usar a camisa por fora e, cai o carmo e a trindadde se o vejo com a camisa para dentro das calsas. No entanto não sei se vou pensar o mesmo quando ele tiver mais de 50 anos...
Agora que vejo os meus cabelos a ficarem brancos gosto desta mudança. Quando vou ao cabeleireiro ouço sempre comentários às brancas e até já me sugeriram que pintasse o cabelo. Tenho para mim que não as vou camuflar. Gosto delas e as cabeças com mais de cinquenta anos que não têm nem um cabelo branco parecem-me a falsas. Confio mais, ou sinto mais empatia por pessoas grisalhas.
Margarida Gramunha

m.a.g. disse...

Esta malta está perdida no tempo e no espaço. Farto-me de dizer isto por aqui, às vezes quase aos berros (admito que "me passo" ultimamente.
Penso que não é sintoma de velhice, lembrar-me de, nos meus dezoito anos, ter o meu estilo muito vincado, mas olhar sempre com admiração o dos meus pais, nomeadamente o da minha mãe e de até sentir um certo orgulho, apesar das abissais diferenças e das guerras relativas (entre outras) a uns malogrados jeans Lee que chegaram a ser depositadas por ela, duas vezes no caixote do lixo.

Anónimo disse...

Errata:
Onde se lê calsas deverá ler-se calças.

Maldita disgrafia. O melhor é voltar aos ditados ...

Margarida Gramunha

Carla Teixeira disse...

Calma gente, tudo passa. Vamos lá respeitar o rapaz, que daqui uns aninhos está ele a fazer a mesma crítica do Zé. Pensamento positivo!! É só uma questão de tempo. E vamos lá tentar não fazer comparações! A comparação atrasa a evolução, aumenta os complexos, provoca falta de auto estima...calma gente, calma...tudo passa! rs

Anónimo disse...

Deixe-me congratulá-lo por preservar um mundo a que chama seu !
Os dias dos ciclos que se sabem foram implodidos e resta a angústia do amanhã imprevisível, amanhã nem sequer é metafórico, é literal, é o tempo das próximas 24 horas.
Perante isto, somos chamados a manter uma capacidade de eternos recomeços, quem começa são os jovens, logo deveremos ser jovens sempre que falhamos para enfrentar o novo começo,
Talvez as camisas não sufocadas por um cinto escorreito ajudem a manter esta capacidade, ou então estamos doentes por não envelhecermos...
É quase sempre uma questão de fintas às mortes.