06 maio, 2011

ANGELA SEM ASAS

                                             Tanja Ostojic, After Courbet, L´origin du Monde, 2004

Sinceramente, eu acho que há qualquer coisa de psicanalítico no modo como Portugal representa a sua relação com a  Europa.
Portugal nunca se sentiu um país verdadeiramente europeu. Quando, no século passado, um português ia a França, Inglaterra ou Alemanha sentia que ia à Europa. Um português não ia a França como um alemão vai a França, um português não ia à Alemanha como um Checo vai à Alemanha, um português não ia à Holanda como um austríaco vai à Holanda.
Portugal, entre o vazio infinito do Atlântico e a árida planície castelhana, sentia-se uma espécie de órfão europeu. Tirando as pessoas ricas e os meninos urbanos e universitários que faziam o interail ou iam apanhar um banho de modernidade a Paris ou Londres, os portugueses viraram-se para a Europa para que esta lhes matasse a fome em França e na Alemanha, em troca de trabalhos duros que os franceses e os alemães não queriam.
Ora, quando os portugueses entraram para a União Europeia sentiram-se como o menino que está no orfanato e de repente aparece um lindo casal loiro de olhos azuis para o adoptar e levá-lo para uma bela casa com um belo quarto cheio de brinquedos. O que têm feito os portugueses nos últimos anos? Serem responsáveis? Trabalharem a sério para subir na vida? Tornámo-nos verdadeiramente europeus para podermos ser como os outros? Não. Temos vivido deslumbrados num quarto cheio de brinquedos enquanto os nossos pais loiros de olhos azuis trabalham no duro para nos sustentar.
Temos um parque automóvel alemão, fazemos vivendas como se fôssemos dinamarqueses ricos, empregados de escritório vão a Praga e Viena com a mesma facilidade de um médico holandês, possuímos sempre o último grito em electromésticos e vestimos roupas de marca como se estivéssemos numa banca cigana na feira da Malveira.
Claro que os nossos pais loiros se zangaram. Mas são nossos pais e têm a obrigação de nos aturar e sustentar, ainda que para isso tenham que nos pedagogicamente castigar. Mas passado o efeito dos tabefes e de estarmos sentados no sofá duas horas sem podermos ver televisão, havemos de voltar ao mesmo. E cá estarão de novo os nossos pais para, com uma  mistura de censura e afectiva indulgência, nos darem outro castigo. Os portugueses olham para a senhora Angela Merkel e devem ficar tranquilos com o seu ar maternal. Aliás, jamais esquecerei as traquinices do nosso engenheiro que tanto fazem rir a senhora Merkel nas europeias fotos de família
Enquanto continuarmos a ter os mesmos políticos, os mesmos empresários, os meus administradores e um povo que se deixa deslumbrar com as caras e luxos onde aparecem sorridentes e bem vestidos os nossos políticos, empresários e administradores, Portugal não tem solução. O problema de Portugal é um problema de elites e de um povo que quer ser elite simplesmente porque se tornou europeu.
Como diria o duque de Palmela, são estes os portugueses e não há outros.

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

Pois o problema é mesmo esse que dizes: os portugueses.
Tirando meia dúzia de intelectuais que escrevem em blogs que apenas outros intelectuais leem e comentam, os portugueses não passam de um povo de imbecis deslumbrados com o dinheiro fácil que entrou às pazadas durante décadas.
Desaprenderam de trabalhar e vivem de esquemas, a começar pelos governantes.
Pedem dinheiro emprestado para viajar para as praias do México e, no ano seguinte, outro empréstimo para pagar o anterior.
Os europeus têm toda a razão em não querer emprestar dinheiro a um país que já demonstrou que não sabe governar-se a si mesmo (eu também não quereria...). E não há perspectiva imediata de a coisa melhorar.
Se nem o Benfica dá mostras de melhoria, o que se há-de esperar de um país assim?

jrd disse...

Em síntese: Os portugueses são cavacos.

José Trincão Marques disse...

Portugal até tem algumas elites de categoria internacional em várias áreas profissionais, científicas e culturais.
O problema é que essas elites querem cada vez menos ser políticos, empresários ou administradores públicos.
Portugal não padece de falta de elites, mas de um afastamento das suas elites.
Aliás, esse afastamento de Portugal estende-se hoje também ao povo, que cada vez mais se desinteressa dos assuntos públicos e deixou de acreditar nos políticos, nos empresários e nos administradores públicos.