08 maio, 2011

ANAMORFOSE INTELECTUAL



Volto pela segunda vez aos Embaixadores. Quando começo a falar de pintura nas aulas é sempre por ele que começo. Uma arma que tenho na mão perante alunos completamente alheados do mundo da arte. E que não escondem a mesma insensibilidade perante um  belo quadro que revelam, por exemplo, perante um bom vinho. Ainda há duas aulas, uma das minhas melhores alunas, uma brilhante aluna a filosofia, dizia, perante um Vermeer, que estar a ver aquilo ou um anúncio da Coca-Cola era precisamente a mesma coisa.
Mas perante os Embaixadores, ficam sempre rendidos. Até mesmo os piores alunos, os que detestam a escola, estudar, pensar e cheios de vergonha de mostrar que são inteligentes.  Ainda para mais, tratando-se de um quadro realista, "fotográfico". E antigo. Porquê? Onde está a chave? Ora, aqui vou ter mesmo que dar razão a um comentador do meu texto anterior sobre o quadro: por causa da anamorfose que se encontra na parte inferior do quadro.
O quadro é lindíssimo. Tem um impacto visual tremendo. Mas o que o torna de facto popular é a anamorfose. E para o tornar ainda mais fascinante, invoco ainda o pequeníssimo crucifixo no canto superior esquerdo que ninguém vê se não for eu a alertar para isso.
Mas antes disso, o que se vê? O que vê toda a gente. Dois homens exibindo o seu poder social e político, cobertos com roupas luxuosas e rodeados de objectos inacessíveis ao comum dos mortais e que fazem as delícias do espírito e do corpo. Em suma: uma maçadora banalidade que nos faz virar o rosto após 5 segundos.
Mas graças à anamorfose e ao Cristo crucificado tudo se torna diferente. O que era uma simples exibição de vaidade e orgulho social e intelectual, transforma-se de repente numa terrível e ameaçadora vanitas. Só que não é uma vanitas qualquer. Graças aos dois elementos indirectos e estranhos ao quadro, torna-se uma vanitas que adquire o efeito de uma revelação. Como se tivéssemos de repente o privilégio de aceder a uma informação restrita, como se fôssemos uns sortudos iniciados num culto esotérico.
A anamorfose pode ser entendida, mas exige um novo olhar, uma perspectiva indirecta, contra-intuitva, uma total reformulação do olhar: através de um espelho ou de uma posição específica dos nossos olhos. No caso desta anamorfose, será obrigatório caminharmos para o lado direito do quadro e vê-lo lateralmente. E é isso que os meus alunos fazem, em fila, uns atrás dos outros, como se estivessem na fila do Louvre para verem a Mona Lisa.
Esta minha experiência com os Embaixadores, levou-me a pensar numa outra realidade que nada tem que ver com o quadro mas que talvez permita um paralelismo: o sentimento de fascínio pelos elementos religiosos e místicos, sobrepondo-se ao que será simplesmente natural ou racional.
Pensemos, por exemplo, no Evangelho. O que Jesus Cristo vai afirmando, aqui e acolá, não passa de um conjunto de banalidades. Eu não tenho religião, sou ateu e não preciso de um deus para chegar à verdade das suas palavras. Mas o que torna tudo diferente é o facto de ser um deus e não um filósofo como Aristóteles ou Kant a dizê-lo. O que torna tudo diferente nas palavras de Cristo é o facto de não provirem da razão, de um exercício meramente humano da linguagem, de um sistema filosófico montado por um simples mortal, mas provirem de um deus que nasceu de uma virgem, fazia milagres e ressuscitou da morte para subir ao céu e sentar-se ao lado do pai. O que torna tudo diferente. As palavras de um deus e de um homem podem ser iguais. Mas são iguais apenas para quem as lê como quem lê uma notícia de jornal ou um artigo da Super Interessante. Há ler e ler, há pensar e pensar, entender e entender.
As leis da ciência podem ser fascinantes para muitos. Fascinantes e verdadeiras. Mas dá muito trabalho tentar entendê-las, exigem um enorme esforço mental, inteligência. E para quê? Para descobrir um conjunto de banalidades sobre átomos, moléculas, massa, energia, força e velocidade.
Com a religião já será completamente diferente. Não é preciso, felizmente, pensar. Claro que os milagres não existem. Como podem existir? Mas isso é um adulto a pensar. Na cabeça de uma criança tudo pode existir, não existem impossíveis, realidade e imaginação são feitas da mesma matéria. A criança não entende as leis da física mas percebe claramente que uma abóbora se pode transformar num belo coche ou que uma jovem rainha se pode transformar numa horrenda bruxa com uma maçã envenenada na mão. É misterioso, maravilhoso, enigmático? Claro que sim. Mas nós gostamos que assim seja. A realidade não é assim mas nós temos o poder de fazer com que seja assim porque é assim que desejamos que seja.
É por isso que a religião acaba por ser uma espécie de anamorfose intelectual. O que sabemos através da religião não se vê. Algum cristão actual viu Cristo a curar paralíticos ou a ressuscitar Lázaro? Alguém viu o anjo a falar com Abraão? Alguém põe em causa o poder visionário de S. João? Não, ninguém. Ninguém vê mas, ao mesmo tempo, conseguem ver o que quem não acredita não consegue ver. E, neste sentido, são uns privilegiados, tendo acesso a uma dimensão da existência que não é para todos mas apenas para quem sabe ler o que aparece habitualmente ininteligível e distorcido.
Eu, confesso, apesar de adorar os Embaixadores de Holbein, dispensaria bem a anamorfose. Bastar-me-ia o pormenor do canto superior esquerdo.

5 comentários:

josé manuel chorão disse...

Mas não será verdade que não existe outra realidade senão aquela que cada um de nós cria e recria na sua mente?
E essa realidade é única, pessoal, para cada um de nós.
O que os outros veem num quadro? Ou numa música, num livro ou num pastel de nata? Quero lá saber dos outros.
A única realidade é a nossa, a de cada um. Assim, estaremos para sempre condenados ao solipsismo. E isso é tão bom, não é?

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
estela disse...

é uma pena não haver aulas em julho........ para eu ir assistir :)

José Ricardo Costa disse...

Aula? Qual aula? Eu cá alinho num seminário estimulado por umas belas bejecas e tremoços. Pago eu.

estela disse...

feito. tu pagas o seminário e eu as bejecas :)