29 abril, 2011

OISEAUX SANS CATALOGUE

            

Eu sou assinante de um site de música que me permite, em troca de uma prestação mensal, fazer o download de discos a preços irresistíveis. Por exemplo, comprar um cd da Harmonia Mundi ou da ECM por 1 ou 2 euros. Depois gravo para cd´s, identificando cada um deles com marcador. Por vezes, gravo 4 ou 5 discos seguidos para que possam ficar de imediato identificados.
Há dias aconteceu-me uma coisa estranha. Fui dar com um cd não identificado. Um bocado de plástico em forma de círculo, com música gravada mas sem qualquer identificação do compositor ou das composições. Pu-lo no leitor de cd's e não reconheci a música. No computador, excepcionalmente, também não aparece a imagem da capa ou qualquer outra referência. Em suma, tenho a música mas sem qualquer referência conceptual a seu respeito.
Por muito estranho que isto possa parecer, fico com uma terrível sensação de vazio e desconforto. Não deixa de ser estúpido. Quando ouvimos música, ouvimos música. O prazer da música não está dependente do nome da música ou do nome de quem a compôs. Por que razão, afinal, sinto um enorme vazio por ouvir e apreciar uma música sem conhecer o seu autor? Porque a nossa natureza racional exige uma relação com o mundo e com os objectos marcada por uma disposição conceptual. Nós precisamos de nomes e de conceitos como de pão para a boca. Precisamos de nomear, catalogar, dissecar, arrumar as nossas sensações visuais, auditivas, olfactivas, tácteis e gustativas em gavetas lógicas e conceptuais. Comer um prato alentejano, saboreando uma erva aromática que não conhecemos não é a mesma coisa que comê-lo, identificando-a.
Mas o que acontece, entretanto, com uma composição anónima? Veja-se esta bela composição do século XVI que aqui trago e cujo autor é anónimo. Não deixa de ser engraçado o seguinte. A minha reacção perante esta composição deveria ser idêntica à minha outra reacção perante o disco não identificado. Em ambas, não consigo identificar o compositor.
Só que, psicologicamente, é completamente diferente. No caso da composição anónima, o anonimato do compositor acaba por adquirir uma consistência ontológica. É como se ser anónimo permitisse construir uma identidade própria. A história da música está cheia de composições anónimas. Ora, sempre que eu vejo uma composição cujo autor é anónimo, o "anónimo", ainda que possam ser muitos e variados, tem o mesmo valor de Bach, Beethoven ou Ravel. Ser anónimo, neste caso, representa uma identidade própria, autónoma. É como se fosse um luto assumido. A história da música assume que esta composição é anónima e, nos seus catálogos, nas suas etiquetas, na sua cronológica alfabética o "Anónimo" aparece como A, ao lado de Albinoni e Albéniz e antes de Bach ou Brahms. Eu não estou a ouvir uma música anónima mas a música de um anónimo cuja identidade se tornou tão real como a dos seus vizinhos alfabéticos.
O que se torna desconfortável com a música anónima no meu pedaço de plástico redondo é a consciência de que o compositor não é anónimo. Eu sei que existe, é real, tem uma identidade mas eu não sei dela. É como o pai que não consegue fazer o luto de um filho desaparecido. Eu oiço a música, gosto dela, mas sinto que me falta uma parte dela, que está alienada, incompleta, irregular. Uma mancha vazia que obnubila a plenitude, lucidez, consistência dos sons musicais.
A minha questão agora é a seguinte. Mas isto não deveria ser a forma mais pura de ouvir música? A música pela música? Sem saber se é deste ou daquele? Será que o facto de eu gostar de Bach não me levará a tentar gostar mais de uma música de Bach de que gosto menos? E será que o facto de eu não gostar muito de Chopin não me impedirá de gostar mais de uma composição sua da qual poderia gostar mais se fosse composta por um compositor de quem gosto mais? Até que ponto a natureza abstracta, vazia (Kant) e fantasmagórica dos conceitos não se sobreporá à força das sensações puras e do prazer estético, anulando-a mesmo parcialmente? Até que ponto o facto de eu saber que uma música é do século XVIII ou XIX, barroca ou romântica, de um alemão ou de um francês, não me retira o prazer de uma audição pura?
Eu entendo que nós precisamos de catalogar, etiquetar, arrumar conceptualmente como de pão para a boca. É a nossa natureza, somos assim. Mas será isso necessariamente bom?

5 comentários:

josé manuel chorão disse...

Catalogar não é necessariamente bom. Mas é humano, é uma necessidade de aparente segurança. Sem nomes resta o caos. O medo, a insegurança.
Por isso os humanos inventaram deuses (e continuam a inventá-los), para pôr nome às coisas e poderem dormir um pouco mais descansados...

Rita TSBGC disse...

Talvez o problema resida na percepção do desconhecimento, uma percepção que nos coloca, quase sempre, perante o abismo. Uma coisa é saber que uma determinada composição de um determinado período histórico, é de um autor anónimo, o que tendo em conta pouca antiguidade da noção de autoria individual, não nos causa perplexidade; uma outra coisa é Nós, desconhecermos a quem pertence uma determinada composição, ou em que tempo histórico foi escrita, esta segunda hipótese, remete para nós a ignorância, a composição até pode ter um autor mas , nós não sabemos.
Catalogar é isto, fingir que nomeando poderemos dominar, apaziguando a dimensão brutal dos buracos negros.
Anónimo vs desconhecido

Fred disse...

Interessante esta leitura!
De facto, dá que pensar.


Um abraço!

παναγιώτα disse...

1. Pois não acredito... Ouvi e adorei esta música no Musée de la Musique em Paris, mas não anotei o título dela e não a podia encontrar de novo! Obrigadinha!

2. Às vezes, tenho a mesma dúvida, não sei se gosto de uma coisa porque gosto ou porque hei-de gostar... Às vezes, não posso gostar de algo sem saber «o que é»...
E depois penso: Mas será que posso fugir disso? Mesmo percebendo a estupidez da situação.

:)

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.