25 abril, 2011

HISTÓRIA MORTA



Falava-me hoje um amigo do seu desconforto perante as imagens do 25 de Abril. Porque são imagens de um tempo muito seu (eu diria mesmo imagens do "seu tempo"), bem presentes na sua memória, mas que, sendo apresentadas desta maneira, tão distantes e a preto e branco, não passam de meros acontecimentos estudados em aulas de História e sobre os quais os alunos têm que responder em testes.
A consciência do tempo vem mesmo com o tempo. Para uma criança ou jovem não existe a consciência do tempo. Existe, sim, a consciência de uma cronologia, dos dias, das semanas, dos meses, dos anos. Mas isso é outra coisa.
A consciência do tempo é uma consciência da morte. A consciência de que há uma parte de nós que ficou morta e enterrada. Nós vemo-nos ali, porque, de facto, estivemos mesmo lá, mas acabámos por morrer e sermos enterrados com a morte subjacente a todo o processo histórico. Nós andámos naquelas ruas, naqueles carros, usámos aquelas calças e cortes de cabelo mas a parte de nós que ali esteve já não existe. E a parte de nós que ali ficou era tão real e consistente como esta em que agora disso nos lembramos e falamos.
E é isso que é desconfortável. É como estarmos vivos e, ao mesmo tempo, vermo-nos dentro de um caixão. A partir daqui ganhamos a consciência de que a morte está sempre ligada à vida. A consciência de que o que fazemos aqui e agora será sempre algo de intrinsecamente morto.
Esta fotografia que aqui vemos não passa do equivalente histórico de uma natureza-morta. Só que em vez de frutos, flores ou caça, temos pessoas, carros, roupas e toda uma atmosfera que, estando viva, se prepara para fenecer.
O 25 de Abril não foi para sempre, como ainda hoje costumam exigir os mais românticos e persistentes. Nós também não.

5 comentários:

jrd disse...

«...não passa do equivalente histórico de uma natureza-morta.»
Tem em primeiro plano o 24 de Abril...

josé manuel chorão disse...

É bem verdade que esses acontecimentos já são de um outro tempo que não o presente.
Mas viver é isso mesmo, ir passando por diferentes tempos, vivendo, morrendo, aprendendo.
E nós, os que vivemos esses tempos já um pouco distantes, tivemos muita sorte, na minha opinião: vivemos uma época de romance, de sonhos, esperança, de poesia gritada na rua. E de muita asneira, obviamente (mas isso já é outra história...).
É passado? É. Mas enriqueceu-me tanto, ensinou-me tanto sobre o mundo e as pessoas. Não trocava essa experiência por nenhuma outra.
Claro que não é 25 de Abril sempre. Mas que nos fique, na memória, para sempre.

m.a.g. disse...

Apesar de tudo o que nos está a acontecer, nada, mesmo nada, poderá fazer desvanecer a conquista da liberdade, acima de tudo e por tudo.
Quer ambiente mais soturno, mórbido, sórdido, bafiento, bolorento e nauzeante que o do estado- novo/velho?

José Ricardo Costa disse...

Mas este post nada tem que ver com o 24 de Abril. Apenas sobre o tempo e a consciencia do tempo.

C. disse...

Gostei muito da reflexão. Somos estes (hoje) e somos também aqueles (de ontem). Não deixámos de ser isto ou aquilo - somos isto e TAMBÉM somos aquilo (embora o tempo de isso sermos tenha passado). Não deixámos de ser, mas somos de outra forma, acrescidos dessas passagens. Sempre com algumas mortes no bolso, claro.
E se perdermos a memória, então é que não seremos nem isto nem aquilo. Logo, nem precisaremos de caixão. ;-)