26 abril, 2011

ÁLVARO CUNHAL VISTO POR REMBRANDT


Toda a gente sabe que o PCP é o mais religioso de todos os partidos, aquele em cuja história mais se faz sentir a força de um passado mítico, de um tempo anterior ao nosso próprio tempo.
Um partido cuja razão de ser se deve ao messiânico desejo de lutar contra os pecados originais da humanidade e à esperança num redentor e revolucionário Apocalipse que lançará para os despojos da história as injustiças deste mundo, poupando das cinzas operários e camponeses sem terra e sem mácula.
Esta fotografia é uma fotografia feliz na medida em que aí se capta um momento de uma das míticas sagas do Antigo Testamento comunista: a travessia do deserto fascista rumo à Terra Prometida.
É verdade que se olharmos para a expressão triste e ausente de um Álvaro Cunhal ainda jovem e disfarçado com um bigode para poder sobreviver nas catacumbas da clandestinidade, encontraremos tudo aquilo que fez de James Dean um herói: tristeza, revolta, melancolia. Poderia ser perfeitamente um fotograma retirado de A Leste do Paraíso ou de um dos outros dois filmes que transformaram o jovem actor americano num ícone.
Mas afastemos de imediato essa visão tão profana. Cunhal parece antes uma daquelas figuras bíblicas pintadas por Rembrandt no século XVII, tão diferentes, por exemplo, daquelas de Rubens.
Quando Rubens pinta os Profetas do Antigo Testamento, fá-lo com aquela monumentalidade barroca através da qual a vida interior é esmagada pela sumptuosidade das formas. É o que acontece exactamente a Jeremias, Isaías ou Ezequiel quando pintados por Rubens.
Pelo contrário, quando Rembrandt pinta as suas figuras bíblicas, já o faz em função das suas personalidades, de uma intimidade psicológica. Já vai ao encontro de um indivíduo, de uma pessoa. As suas expressões, os seus olhares, os seus corpos, já são desenhados e pintados de acordo com o importante papel que desempenharam.
Se esta fotografia de Álvaro Cunhal não fosse uma fotografia mas uma pintura de Rembrandt, não seria difícil imaginá-la com os cinzentos e ocres, as penumbras, os claros-escuros e a difusa luz tão ao gosto do pintor holandês.
Nesta fotografia, a expressão ausente de Álvaro Cunhal emerge no reino das formas com a mesma profundidade psicológica com que Rembrandt pintou Tobias, Balaão, S. Paulo ou S. João Baptista. Cunhal poderia ser, neste caso, Moisés, o qual tinha como missão conduzir o seu povo para a terra sagrada, libertando-o da opressão do Faraó.
Após dias e dias de longas caminhadas, cansados de ver tanta aridez à sua volta, decidiram finalmente repousar os corpos exaustos. Veja-se a expressão de Aarão no lado direito, o seu ar ao mesmo tempo tranquilo e ansioso. O modo como coloca a mão ao longo do queixo e da boca não deixa qualquer dúvida: espera um sinal do mestre, o qual parece cada vez mais ausente e distante.
Do outro lado, Josué está claramente impaciente, com uma sofreguidão tipicamente infantil, como se quisesse perguntar aquilo que Lenine veio séculos e séculos mais tarde a perguntar: “Que fazer?”.
Estão confiantes, lutam por um ideal, acreditam na Terra Prometida. Mas têm que lutar contra os bezerros de ouro que por vezes tentam os seus fiéis. Têm que combater a falta de fé, o cepticismo, a ganância e a ambição do povo eleito, do oprimido povo escolhido por Deus mas para O qual nem sempre tem ouvidos para ouvir ou olhos para ver.
Estes comunistas são homens que parecem ter acabado de ler um dos mais belos livros de todo o Antigo Testamento, o livro do Eclesiastes, aquele que diz “Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade”. São homens que parecem ter voltado as costas às vaidades deste mundo, que abandonaram o conforto do seu lar e a rotina de uma profissão, que sacrificaram mulheres e filhos, que esqueceram os bens materiais a fim de conduzir o seu povo à terra do leite e do mel.
Cunhal sabe bem quão estreita é a porta do Céu. Sabe bem como é difícil mostrar ao povo eleito o rumo para a sua felicidade, o caminho que conduz ao paraíso na terra, fazer-lhe compreender as sagradas palavras que Deus lhe disse no cimo do monte Sinai: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”.
Mas nunca deixou de acreditar na salvação do seu povo, a salvação que o próprio povo teima em não aceitar, a salvação pensada igualmente pelos Profetas que pisaram a terra sofrida dos czares ou dos mandarins.
Só que, apesar da cesta entre Moisés e Josué guardar a vara de Aarão, a vara que transforma em actos os nossos desejos e utopias, eles sabem também que a sua luta é difícil. Precisam de um sinal, de um pequeno milagre encorajador, de uma luz que dê alguma esperança a quem atravessa a imensidão deserta das trevas fascistas.
Mas derrotar o fascismo não é o mais difícil. Mais década, menos década, todas as tiranias caem, de podre ou ameaçadas pelos vendavais das revoluções. Pior será sempre o que vem a seguir: a construção da Terra Prometida tendo que gerir as lutas no interior do seu próprio povo, a luta contra as próprias fraquezas e tentações desse povo, a ameaça vinda de seitas rivais que poderão impedir o Mar Vermelho de se abrir para dar passagem aos que prosseguem na sua histórica e revolucionária missão.
É também por isso que o jogo de luz e de sombras que surgiria neste quadro pintado por Rembrandt, não se esgotaria nas suas cores e diferentes matizes.
Todo este quadro, tanto no que se vê através dos olhos como o que se vê através do espírito, é feito de luz e de sombras, porque o próprio comunismo é feito de luz e de sombras, os próprios comunistas formam um povo que vive entre a luz e as sombras, quase todos, como no Zaratustra, sem perceberem ainda que Deus morreu.

4 comentários:

Mar Arável disse...

Não existem amanhãs promissores

sem belas memórias

de luz e sombras

josé manuel chorão disse...

Sublime...

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

O liberalismo não está livre de contaminações teológicas e, só aparentemente, é um ideário pragmático e destituído de fantasias. O mesmo fervor sobrenatural que os socialistas tributavam à sua revolução social, os liberais atribuem ao mercado. Ele é a redenção da humanidade! O mercado é o sucedâneo de Deus. Não um Deus tolerante e bonachão, mas um Deus calvinista. Agora, esse Deus iracundo está muito aborrecido com Portugal...