11 março, 2011

SOCIALISMO OU MORTE

                                                                 Bruegel| O Triunfo da Morte

As mortes que resultam de catástrofes naturais fazem lembrar-me aquelas defesas do guarda-redes para a fotografia. Quantas pessoas morrem diariamente no mundo? Faço uma pergunta ainda mais concreta: quantas pessoas morrem diariamente no Japão? Milhares. Morreram agora, de uma só vez, mil pessoas? Ou mil e quinhentas? E quantas pessoas morreram hoje fora do Japão de uma só vez? Quantas pessoas morreram hoje em Portugal?
Só que não se fala nelas: pessoas que morrem todos os dias,  anonimamente, numa cama de hospital, em casa, num acidente de automóvel, com um enfarte sentadas na secretária do escritório. Acontece que essas mortes não têm espectacularidade e não são suficientemente radicais para um telejornal. São gotas de água que se evaporam de um lago que parece estar sempre no mesmo nível. Mas uma morte é uma morte. A morte de alguém que fica soterrado é igual à morte de alguém que morre sossegado na cama, com a família à sua volta. Quando pára o coração e o cérebro somos todos iguais. A morte é o que de há mais socialista na vida.

6 comentários:

Carla Teixeira disse...

É a lei da relatividade

jrd disse...

Brrr! Que arrepio!
Se não o conhecesse era capaz de pensar que essa deriva necrológica se tinha inspirado num tal Millan Astray.

Alice N. disse...

Belíssimo texto.
Enquanto fim, a morte é o que mais nos iguala aos outros, de facto. Porém, nem todos partem com a mesma dignidade... Não é o fim que custa mas o que se passa para lá chegar. Na morte - ou melhor, no processo que a ela conduz - também uns são mais iguais do que outros.

Margarida disse...

Facto.
Sucede que todas essas mortes, no seu conjunto monstruoso apartado em gotículas esparsas não afecta uma nação inteira, não faz parte de um cenário de destruição que lhe altera o rosto, que rasga novos caminhos à bruta, que destrói o construído, que calcina, mói, desaba, esmaga, submerge, trucida, apaga.
Não foram as almas que ainda se contam, que se calcularão mais uma vez.
É o todo; é tudo.
É a avalanche emocional, o supetão.
E, sobretudo, nova constatação de quão longe estamos da Verdade.
A que talvez nunca seja sabida.
Há lá razão ou lógica para se lidar com isto tudo... (eu não consigo)

Fred disse...

Excelente leitura!


Um abraço!

marta disse...

por uma vez, sou capaz de não concordar. o Kundera faz uma outra comparação! mais certeira a meu ver. o socialismo tem em vista a felicidade, na morte tudo se abandona, até o abandonar.