10 março, 2011

PERDER A FACE

                                                                        Bruegel | Jogos Infantis

Fui substituir uma colega de Português numa turma de 7ºano. Como não tinha plano de aula e estava numa sala de computadores (bem curiosa a ideia de uma aula de Português numa sala de computadores), deixei ir os garotos para a Internet. Passado um bocado dou um passeio pela sala e vou dar com todos eles no Facebook.
Há já algum tempo que desactivei a minha conta no FB. Por vezes tomamos certas decisões não com base em argumentos racionais mas em vagas impressões, emoções indefinidas, estados de alma difusos. Sem termos, portanto, uma consciência clara do que nos leva a fazer X em vez de Y. Ora, foi mais ou menos isso que me aconteceu com a desactivação.
Mas hoje tive uma espécie de revelação, mostrando que por vezes o coração tem efectivamente razões que a razão tantas vezes desconhece. Tive uma resposta clara e inequívoca, mesmo à frente do meu nariz: 20 e tal garotos de 13 anos a correr para o Facebook à primeira oportunidade.
Obviamente que não fico entusiasmado com os cabelos brancos que vão povoando a minha pobre cabeça que já conta com cinco décadas de existência. Mas tenho 50 anos e tenho que saber viver com eles.

10 comentários:

Fred disse...

Isso agora é mesmo assim!

Quem não tem FB é como se não existisse!

Bem, acho que então não existo...lol


Um abraço!

Alice N. disse...

Aderi ao facebook há uns tempos, por convite de uma amiga de longa data que está muito longe e de quem tenho saudades. Achei graça por uns tempos, enquanto tive pouca gente a bater-me à porta e tive alguma curiosidade pela novidade. Mas logo me cansei do "look my face". Todos vêem o que eu não quero que todos vejam e todos me põem diante dos olhos o que eu não teria de ver: os amigos, os conhecidos, os que aceitamos como "amigos" por mera delicadeza, os amigos dos amigos... E assim vão entrando no nosso espaço os que queremos e os que não queremos. Através do perfil de amigos ou do resumo de novidades, também entrei um pouco no espaço de desconhecidos, ficando a saber o que não tinha de saber (como se encostasse sorrateiramente o ouvido para "apanhar" uma conversa). Percebi, finalmente, que o jogo era esse e começou a ser desconfortável. Não tem graça nem interesse nenhum. Só fomenta o voyeurismo e a superficialidade (e, por vezes, o exibicionismo). Cheguei à conclusão que era ruído e luzes a mais. Também não abrimos a porta de casa a toda a gente... Fechei-a então e guardei a chave. Para os amigos não precisamos de facebook.
Quanto ao resto, antes uns cabelos brancos do que ficar pelos cabelos. :-)

Anónimo disse...

Eu nunca estive no Livro das Caras.
Sempre me pareceu coisa de crianças e de velhos gagás, sem nada de útil para fazer na vida.
Curiosamente, acabo de ouvir uma notícia preocupante: o presidente Cavaco, estranhando tanta agitação social (diz ele) que o seu discurso de tomada de posse teria provocado, aconselha todos os cidadãos a consultarem a sua página (sua, dele) no Livro das Caras e a ler atentamente o seu discurso, que lá figurará, segundo garante.
O que me preocupa é o facto de o mais alto dirigente do país supôr, por um minuto que fosse, que algum cidadão no seu perfeito juízo iria perder um instante da sua vida a ler o discurso cavacal no Livro das Caras. Se o homem estivesse a brincar, teria piada; mas não, era a sério...
Este velho gagá é o presidente do país que temos.
Mas em que raio de mundo é que esta gente vive? No meu não é...
_______
josé manuel chorão

JCM disse...

Segundo li (a internet é uma grande coisa), no quadro estão representadas cerca de 250 crianças e 80 jogos infantis. Mas o que acho espantoso é que muitos desses jogos, tanto quanto consigo ver, ainda estavam vivos quando eu era criança. Agora estão mortos. Como é possível que algo que durou séculos (e a representação deles por Brügel apenas mostra um momento de condensação de uma experiência muito mais antiga) tenha, em curtas dezenas de anos, sido completamente eliminada. A minha geração deve ter sido a última a jogar ao pião. Há uma doença no nosso tempo, a de apagar sistematicamente o passado. Será assim tão pesado?

jrd disse...

Lose face or lose "the book" is the question.

m.a.g. disse...

Eu não tenho nem nunca tive FB. Fiz em tempos uma incursão no twitter que desactivei.
Face por face, friends por friends prefiro mesmo os reais que me dizem cara a cara: hoje estás insuportável!
Conclusão, devo ser mesmo anormal.

Margarida disse...

O mundo está em perpétua mudança, gostemos ou não.
Magoa, algumas vezes, outras, é bom.
Nunca ficaremos todos satisfeitos.
Haverão sempre queixas, críticas, saudades, resistências, aplausos e entusiasmos.
Às vezes, por um estranho fenómeno de bipolaridade temporária, tudo ao mesmo tempo, numa confusão, também ela, sinal dos tempos.
Agora, como antes, com sempre, dispomos do livre arbítrio.
E os jogos que se foram perdendo, perduram, pelo menos, nas memórias e nas pinturas...
E um dia, tudo será nada.
Então, tanto faz.

Carla Teixeira disse...

Pois eu adoro insistir em gostar da evolução. Já tive um monte de baddos, de facebooks, até mesmo blogs. Mas sou tão trenga com estas modernices, que até a senha acabo por esquecer. Não há paciência, para tanta futilidade, mas por outro lado não gosto de criticar o novo. Gosto de tentar percebê-lo. Tenho facebook há 1 mês, não sei até por qto tempo, mas estou feliz por encontrar gente que eu julgava já terem morrido! O lado bom das coisas, interessa-me sempre. Não consigo generalizar como um todo negativo, ou como um todo positivo. Nem me interessa pensar no lado negativo. Enquanto formos nós a dominar esse espaço, tudo flui, tudo cresce com saúde.
Não quero pertencer à massa fanática que não vive sem FB, mas também não quero me entregar à massa que o abomina.

addiragram disse...

Gosto de me sentir próxima dos mais pequenos, muito embora já pinte os cabelos...F.B. é só mais uma "portinha" onde nos cruzamos com conhecidos e amigos, onde damos "dois dedos de conversa", onde ao fim do dia, depois de muito trabalho, vamos "dar um salto ao café".
Depois, sempre reagi a todos os que me diziam :"isto nem pensar".
Por fim, tive pena deixar de o ver por lá, mas se calhar, qq dia, também fecho o "meu".Um abraço.

Rita TSBGC disse...

A mobilidade, a não permanência, a mudança. eram, muitas vezes, sinónimo de quebra total na rede de amigos, e se uma parte da nossa identidade é a forma como interagimos com aqueles com que nos cruzamos, talvez muitas identidades se fragmentassem por ausência do outro que nos conhece.
O FB é o adro da Igreja dos saltimbancos de hoje, eos saltimbancos não são nunca Bemvindos ao adro da Igreja mais convencional.
O FB nao nos livra da falência, nem do desemprego, não é uma divindade, é um instrumento, cada um pode tocá-lo como quiser, souber e puder.
Acho que o FB é uma refeição partilhada, cada um traz o que quer e o que tem, uns trarão trufas e outros, limitar-se-ão a trazer um pacote de batatas meio comido...